FRANCISCO AFONSO CHAVES, A IMAGEM PARADOXAL

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Uma das coisas que falta à fotografia portuguesa é o seu estudo, a sua história. Só com o seu estudo é possível conhecer, aprofundar, dar a conhecer: mostrar, divulgar, publicar. Em português e, de preferência, também em inglês (pelo menos), por forma a colocar a fotografia portuguesa na história da fotografia mundial.

Há uma História da Imagem Fotográfica em Portugal, de António Sena (1998), o estudo de alguns autores, algumas teses de mestrado e doutoramento, algumas exposições. E muito para encontrar e estudar.

E vamos sendo surpreendidos com a apresentação de novos autores, alguns fotógrafos amadores – no sentido que amam – e, portanto, com um trabalho cuidado, empenhado, dedicado, mas que não viviam dos rendimentos da fotografia; outros, profissionais.

Espólios mais ou menos vastos, de paisagem, de hábitos e costumes, de vivências familiares, profissionais ou locais, científicos ou de investigação, documental ou com preocupação autoral… Existem muitos e vão sendo, aos poucos, descobertos.

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Cartaz da exposição

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O trabalho de Victor dos Reis e de uma equipa de pesquisa e de investigação dá a conhecer a fotografia realizada por um açoreano, Militar, Naturalista e Meteorologista e agora reconhecido também como Fotógrafo: Francisco Afonso Chaves.

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Autor desconhecido (Nigh-Life, S. Miguel, Açores), Francisco Afonso Chaves, c. 1900 -1920, Col. Museu Carlos Machado, Ponta Delgada, Açores

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Francisco Afonso Chaves e Melo nasceu em Lisboa, a 24 de Janeiro de 1857, filho do governador dos Açores, foi para S. Miguel, nos Açores, em 1860 e faleceu em Ponta Delgada, a 23 de Junho de 1926.

Teve uma vida cheia:

Em 1877 concluiu o curso de Infantaria da Escola do Exército, em Lisboa, tendo atingido a patente de coronel (1911). [Estudou na Escola Politécnica de Lisboa.] Leccionou física, química e história natural no Liceu de Ponta Delgada, entre 1884 e 1888. Estudioso autodidacta, dedicou-se à história natural dos Açores, especialmente à zoologia, e desenvolveu estudos em meteorologia e magnetismo terrestre.

Em 1893, foi nomeado director do Posto Meteorológico de Ponta Delgada e, a partir de 1897, criou postos meteorológicos nas ilhas das Flores e do Faial e estações de observação em Bandeiras e Candelária na ilha do Pico. Criado o Serviço Meteorológico dos Açores (1901), foi nomeado seu director. Construiu e montou o Observatório Magnético e Sismológico da Fajã de Cima, inaugurado em 1911. Manteve a prática da zoologia e a ligação à colecção naturalista do Museu Municipal de Ponta Delgada, a cuja direcção esteve ligado até ao fim da vida.

Afonso Chaves manteve colaboração com inúmeros naturalistas e cientistas, quer através da troca de informação e publicações, quer pelo intercambio de exemplares de história natural. Pertenceu a diversas sociedades e organismos científicos nacionais e internacionais, de que se destaca o Comité Meteorológico Internacional. Foi membro da comissão administrativa e do conselho científico do Instituto Oceanográfico do Príncipe Alberto I do Mónaco. Representou Portugal em diversos congressos internacionais, publicou vários trabalhos científicos e, através de conferências e de artigos em jornais, foi também um divulgador de ciência.”

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Francisco Afonso Chaves, Vila da Calheta, S. Jorge, 19.07.1908 – Santa Cruz, Flores, 1902 – Vista do Rei, Sete Cidades, S. Miguel, 09.07.1913 –  (duas senhoras) ; 12/2/913 – Ascensão de balões em Paris, França – 1.ª edição do Campeonato Gordon-Bennett, 30.04.1906 (1 + 10 fotografias) – O Príncipe Alberto I do Mónaco no local do Observatório Magnético da Fajã de Cima, S. Miguel, 11.09.1904 – Homem a mergulhar do navio Funchal, 08.10.1920 – D. Margarida Cymbron Borges de Sousa e duas irmãs junto a uma Caldeira nas Furnas, S. Miguel, 26.05.1917; Mendenhall e esposa diante da Caldeira de Asjmodeu, Furnas, S. Miguel, 24.06.1902. Col. Museu Carlos Machado, Ponta Delgada, Açores

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Como eminente cientista e investigador, viajou bastante e a fotografia esteve sempre presente, entre 1901 e 1926, ano da sua morte, quer como registo, quer como meio de investigação, acompanhando “toda a sua vida pública e privada”. As suas imagens denotam um empenho, um entusiasmo e um profissionalismo, a fotografia revela-se para ele como “uma paixão particular, constante e nalguns casos compulsiva”.

O seu espólio é de cerca de 7.000 imagens, a maioria estereoscópicas, pertencem ao Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, que o acolhe desde 1961/62.

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Francisco Afonso Chaves, Reproduções em película, para visualização com estereoscópio. (Aspeto geral da exposição) – Furnas – Vesúvio, Itália – Dr. Júlio Henriques, Coimbra – Barco de pilotos no Tangalona, Quelimane, Moçambique, 1906 – Jardim António …. – Cascata da Conceição Velha, 7/2/905. Orig. Col. Museu Carlos Machado, Ponta Delgada, Açores

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Para Victor dos Reis, atual presidente da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, e Emília Tavares, curadores da exposição,

Afonso Chaves teve um papel fulcral no desenvolvimento científico em Portugal, sendo vastos os seus interesses, desde a biologia, a geologia, a geofísica, a vulcanologia, a sismologia à meteorologia. O carácter cosmopolita e moderno da sua vida contribui para ampliar o interesse da sua obra, desconhecida do público e ausente da história da fotografia portuguesa, apresentando também um açoriano no centro do mundo.

As suas imagens estereoscópicas constituem um vasto álbum inédito sobre aspetos científicos, mas também revelam o fotógrafo inquieto e cativado pelos acontecimentos, pela natureza, pelo puro deleite das formas do mundo, pelos instantâneos sociais, pela fotografia de viagens ou pela natureza mágica da imagem mecânica. Apresentam, assim, um raro e criativo diálogo entre arte e ciência, e um fascínio pelo paradoxo e dualidade da imagem fotográfica entre a verdade e a sua representação, entre a representação e a sua perceção visual, entre o registo mecânico e a sua interpretação sensível.”

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António Bracons, Aspetos da exposição, detalhes

Visor estereoscópico – Televisão, apresentação de fotografias em 3D com óculos 3D – Diversas publicações com fotografias de Afonso Chaves –  Artigo ilustrado com fotografias suas – “Álbum com imagens impressas de S. Miguel e Santa Maria. Desconhece-se a origem deste álbum. No entanto, na carta de 10 de Janeiro de 1902 o cientista e amigo Francisco Oom agradece-lhe o “lindíssimo álbum” com fotografias de S. Miguel. Coleção João José P. Edward Clode”.

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Esta exposição, A Imagem Paradoxal, apresenta, pela primeira vez parte da sua obra fotográfica, na quase totalidade, fotografias estereoscópicas. No início da exposição, um Kaiserpanorama acolhe os visitantes. As fotografias podem ser vistas quer através de ampliações atuais das imagens em chapa de vidro, quer em duplicações em película, que se podem observar através de visores estereoscópicos fixos uns, ou numa mesa de luz, com visores móveis. Um conjunto de imagens em televisão pode ser vistas com óculos 3-D.

Para além das suas fotografias: de passeio, com família e amigos, o Rei D. Carlos e o Príncipe Alberto I do Mónaco, de quem era amigo pessoal, as suas viagens por Paris, Londres, Escócia, Marraquexe, Zanzibar, Cidade do Cabo, e outros destinos, paisagens dos Açores ou do continente, algumas fotografias científicas ou de trabalho.

Algumas das suas fotografias foram publicadas em artigos científicos e de divulgação, encontrando-se diversos expostos, bem como diários de viagens e equipamentos que usou.

Junto à régua cronológica que traça a sua história, uma fotografia de Afonso Chaves junto ao tripé do teodolito, que muitas vezes serviu também para a máquina fotográfica.

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António Bracons, Aspetos da exposição

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Esta é a primeira de um conjunto de 3 exposições, sendo apresentada no MNAC – Museu do Chiado, de 13 de outubro de 2016 a 26 de fevereiro de 2017; no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, está patente a segunda, de 9 de fevereiro a 30 de setembro de 2017 (de início até 28 de maio) e no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, que acolhe o seu espólio, será apresentada a terceira, inaugurando a 23 de março a 3 de setembro de 2017.

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Para mais informação sobre Francisco Afonso Chaves, no Museu Carlos Machado aqui, no MNAC aqui.

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