JOÃOZERO, T(W)O ZERO T(W)O ZERO. PHOTOGRAPHY BY THE STREETS, 2021

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joãozero (João Carlos Fernandes)

T(W)O ZERO T(W)O ZERO. Photography by the streets

Fotografia: joãozero / Texto e design: joãozero / Prefácio: Pedro Abrunhosa

Ílhavo: Autor / Dezembro 2021

Português e inglês / 30,4 x 21,8 cm / 248 pp

Cartonado / 200 ex., numerados e assinados

ISBN: 9189893323267

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Este livro é uma agradável surpresa. Não conhecia o trabalho do joãozero, até ver algumas das suas fotografias e logo depois, este livro. Este caminhar por um vasto conjunto de cidades (e outras povoações), não só de Portugal, mas da Europa e Estados Unidos.

O título, “T(W)O ZERO T(W)O ZERO” joga com a ambiguidade do ano em que surge (a ideia e a conceção foi em 2020, a edição é de final de 2021) e do nome que o autor, João Carlos Fernandes, assume enquanto fotógrafo e autor: joãozero (e permito-me pensar em apenas: “zero”). E este título permite, logo à partida, múltiplas leituras.

“Two Zero Two Zero”, ‘2 0 2 0’. O ano em que Joãozero decide partilhar estes olhares: “To Zero To Zero”, ‘De zero a zero’, neste caso, de ‘si’ a ‘si’, que se pode entender como toda a obra ou, o mesmo sentido na leitura de ‘para zero para zero’, um ‘para’ que não é para si, mas para fora de si, para os outros. Partilhar o seu trabalho, dar-se a conhecer de forma efetiva (não é que não acontecesse através do site ou de outros modos). Ou ainda, “Two Zero To Zero”: ‘’20 (de 2020) para zero, o que significou para joãozero este 2020, ano de pandemia e, portanto, de confinamento, de olhar para dentro, para o seu trabalho, e do querer mostrar: de surgir este projeto, grandioso, amadurecido, cuidado, e também deste modo, ‘para zero, o ano de 2020’: “To Zero Two Zero”.

Abro o livro. Ao longo de 6 partes (ou capítulos), o trabalho de 6 anos: 2015, 2016, 2017, 2018, 2019 e 2020. Não creio que seja necessária esta compartimentação, mas torna-a, de alguma forma, mais pessoal ainda, por permitir uma leitura, diria, diarística, por estar datada (apenas com o ano), cria um percurso da vida / vivência do seu autor, um conjunto de registos, impressões imagéticas, reforçada pela legenda: diz-nos apenas a cidade ou a povoação, o ano, e o título (em inglês), que é mais uma anotação pessoal do que a precisão da localização ou do fotografado.

A identificação ocupa a página par, centrada, à esquerda, todo o restante espaço branco apontando para a página contígua, da direita: a página ímpar está destinada à fotografia, com uma moldura branca que a envolve, deixando-nos a imagem como definida pelo fotógrafo.

A primeira imagem desta viagem é de Ílhavo, cidade onde o fotógrafo reside e de onde parte para o mundo. As duas últimas, de Espinho, na estação de comboios, de um mesmo ponto, afastadas entre si trinta segundos, na espera do comboio – a estação deserta – e a partida do comboio, que a viagem – a vida – prossegue e continua, por mais sítios: conhecidos, familiares… e novos. Sítios, projetos, sonhos…

As fotografias são a preto e branco, a impressão é excelente, os pretos densos, boa leitura das zonas escuras, uma vasta gama de cinzas. Diversas fotografias têm significativas manchas de preto, mas que abrem para a luz, com uma luminosidade espantosa. O olhar é por vezes de frente, mas muitas vezes é de baixo para cima, engrandecendo e dignificando a paisagem, o espaço, dando-lhe uma imponência – um espanto! – que é, também, um sentir interior.

joãozero centra-se na luz, nas pessoas – presentes em todas as imagens, ainda que longe – mas habitam-na (o espaço, a arquitetura, a fotografia), dão-lhe uma escala, humanizam-na. A pessoa fotografada – que, regra geral, percebemos em silhueta, não reconhecível, homem ou mulher, mais novo ou mais velho – é o joãozero, que fotografa, que se revê na fotografia, enquanto usufrui o espaço, enquanto visitante ou habitante da cidade.

Este livro torna-se assim um ‘caderno de viagens’, um ‘diário pessoal’, um registo de vivências (sobretudo) visual.

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A abrir, joãozero deixa-nos a razão de ser deste livro:

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2020 pediu um balanço, pediu uma pausa, pediu um resumo do meu percurso fotográfico. Como que um sussurro fonético e melancólico dissesse… para o zero… para o zero…

Eu respondi com esta compilação que percorre os últimos cinco anos de fotografia pelas ruas, sempre captando o Ser Humano na sua solitária labuta diária e comparando-o com as suas impressionantes construções.

Um resumo de alguns dos locais por onde passei, respirei, sonhei e registei o olhar à joãozero. Um olhar com visões muito particulares, com momentos especiais, sem descurar a luz, os enquadramentos e as composições.

Enquadramento do projeto fotográfico:

0 Ser Humano procura e constrói objetos e edifícios de tamanhos e proporções megalómanas. De preferência, no seu dia-a-dia, vive rodeado por eles. Esses objetos e construções quando comparados com ele, ainda o diminuem mais. Fazem dele, reforçando, o ser minúsculo que é. E esta relação de grandeza, reforçada pela mania da grandeza do Ser Humano, que este projeto explora. Através dos planos fotográficos picados e contrapicados passando pelos reflexos nos automóveis, fotografo sempre com objetivas grandes angulares, ampliando a diferença entre o Ser Humano, que isolo e capto em momentos “especiais” e o que o rodeia.

Com este conjunto de “objetos”, técnicas e tecnologia, é nas grandes cidades que exploro o projeto, aplicando conceito num misto de fotografia de viagem, fotografia documental e fotografia de rua resultando em fotografia à joãozero

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Pedro Abrunhosa escreve o prefácio:

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A Arte não é um espelho do real, nem sequer a representação do real, mas uma forma transfigurada do que os sentidos apercebem, a linguagem reduz e apenas o silêncio é capaz de traduzir. A Arte, neste caso a Fotografia de joãozero, é a transcendência da realidade para o patamar das emoções e, por incapacidade nossa de as dizer, para um lugar de mistério onde todas as tentativas de explanação se revelarão destruidoras. Resta-nos a vivência interior, surda, comovida, que só a contemplação alcança, não como acto passivo mas como instante erótico: contemplar, mais do que desejar, é possuir sem ter. 0 tempo é factor determinante nestas Imagens que joãozero pacientemente captou ao longo de cinco anos. Estes instantes que já há muito deixaram de o ser, são agora universos eternos onde o espírito estacionará doravante e donde cada um retirará a sua própria experiência. Portal para a memória afetiva individual, as imagens patentes neste livro narram a pequenez do Homem perante o seu lugar, natural ou cultural, e onde se pressente o esmagamento da solidão. Mas a aparente realidade sensível que os olhos veem, é agora outra. Quando o obturador se fechou sobre cada um destes instantes operou uma centelha de passagem: o que os olhos julgam ver é, agora, um outro estado onde apenas a visão interior acede. Cada gesto aqui fixado encontra movimento numa dimensão para além do que é observável. Adivinhamos o destino de quem caminha, a angústia de quem aguarda, porque a Fotografia é lugar de Vida que, não se vendo, se intui. Nenhuma imagem é a aparência plástica que os sentidos prendem. Pelo contrário. Cada uma destas Fotografias é o que está para lá do ‘ver’. São os passos fora da imagem, tudo aquilo que nunca nos será revelado porque acontece numa outra instância que verdadeiramente nos prende ao espanto e que apenas a grande-angular do espírito consegue pressentir. Em cada uma destas Fotografias há muito mais do que os sentidos julgam decifrar, o que as faz ascender à condição de Música. Aqui, cada um ouve os fantasmas que construiu, os que lhe são próprios, e os outros que ambiciona libertadores ou sombrios. A contemplação é templo onde Fotografia e Música se revelam à ânsia do Belo. Uma vez atingido, vislumbrado, resta ao iluminado a espera do fim. Pela mão de joãozero andamos perto da vertigem do inominável. Calemo-nos então e ouçamos as imagens.

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Porto, 21.Maio.2021

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Joãozero, T(w)o Zero T(w)o Zero. Photography by the streets, 2021

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“ T(w)o Zero T(w)o Zero. Photography by the streets”, de joãozero, esteve em exposição em Aveiro, na Pizzarte, de 12 de março – quando foi lançado o livro – a finais de maio de 2022.

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Aspeto da exposição e da sessão de apresentação do livro. Cortesia de joãozero.

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Joãozero é uma marca registada do português João Carlos Fernandes que desenvolve projetos nas áreas da fotografia e da comunicação visual

João Carlos Fernandes nasce em 1970, na cidade de Lisboa.
Licencia-se em Ensino de Educação Visual e Tecnológica, na Escola Superior de Educação de Leiria, em 1994.
Realiza e participa em vários workshops de fotografia.
Desde 1991 que se dedica ao desenho a tinta da china e à fotografia, misturando por vezes as duas técnicas.
Em 1993 participa num concurso de escultura em resíduos plásticos, realizado pela MAP Portuguesa em Leiria, no qual ganha o 1º Prémio.
Em 1994 participa no II Maio Fotográfico de Leiria.
Frequenta o curso de Design de Comunicação na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e na Universidade de Aveiro.
Realiza várias imagens de marca para instituições e empresas portuguesas.
Participa em várias exposições coletivas e individuais, em Aveiro, Ílhavo, Leiria, Lisboa, Porto, Póvoa de Varzim, Viana do Castelo e Vila do Conde em Portugal e Quito no Equador.
É fotógrafo desde 1987, professor de Educação Visual e Educação Tecnológica desde 1994 e criativo em publicidade desde 2001.

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Para mais informação e adquirir o livro, aqui.

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Cortesia: joãozero.

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