PAULO PIMENTA, AS BRAVAS

Exposição na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, de 28 de janeiro a 25 de abril de 2022.

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As Bravas, fotografias de Paulo Pimenta, é uma “Criação coletiva concebida ao longo do projeto ENXOVAL – Tempo e Espaço de Resistência, financiado pela iniciativa PARTIS da Fundação Calouste Gulbenkian, que desde 2019 explora as temáticas da igualdade de género através das práticas artísticas, cruzando grupos comunitários do Porto e Amarante.”

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Sobre o projeto, escreve a PELE – Associação Social e Cultural:

Nas montanhas do Marão (re)encontramos as nossas ancestrais, mulheres que lutam e resistem. Sussurram memórias silenciadas e cantam para espantar a solidão dos dias. Guardiãs de pés descalços e de lembranças de tempos duros, de histórias e cantigas do passado mas com o futuro no olhar.

O manto que as envolve foi cosido de retalhos vivos dos caminhos que fazem parte do seu quotidiano e da sua sabedoria. Também ele foi crescendo, florescendo e secando ao longo do processo de criação.

Esta exposição é uma celebração destas Bravas, figuras mitológicas vivas, arquétipos da natureza na sua forma mais bela e mais crua.

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Sobre o projeto Enxoval, regista-se:

Partindo da ideia do enxoval enquanto representação social da condição feminina que cruza diferentes gerações, este projeto propõe a criação coletiva de um outro ENXOVAL, construído por homens e mulheres, que revele a vontade de questionar e transformar os estereótipos de género, que abra espaços de liberdade e inspire a vontade de mudança.

O ENXOVAL atua no Porto e Amarante, propondo a formação de grupos de Ação, Reflexão e Criação Artística – ARCA, abertos à participação da comunidade intergeracional e jovem. Da colaboração entre artistas e participantes resultarão ações performativas/espetáculos, instalações plásticas e uma fanzine de distribuição regular.

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As mulheres têm mantos de plantas e flores silvestres. Sobre os ombros, esses mantos são leves, contrastam com quantas cargas já carregaram, envolvem-nas como a paisagem natural e campestre que as envolve, onde são e onde pertencem.

Um manto integra a exposição.

Bravas. São mulheres de duas aldeias de Amarante: Vila Chã do Marão e Olo, têm no geral mais de 70 anos, algumas mais de 80… Os rostos, na maior parte dos casos, sorridentes e orgulhosos, apesar das agruras da vida. Bravas (também) por isso. Identificam-se pelo nome, a idade, a partilha de um comentário sobre a sua vida.

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As Bravas são:

Emília Ferreira, 83 anos, Vila Chã do Marão, Amarante, “Quando era nova, a mãe dizia-lhe que o casamento era uma cruz muito pesada. Ainda assim, sonhava casar e ir para a “rua do mel”. / Hoje sonha aprender a ler.”

Maria da Graça Mendes, 87 anos, Olo, Amarante, “Vive sozinha num lugar da aldeia onde não mora mais ninguém. Por isso, aquilo que mais adora é estar no centro de convívio com as amigas.”

Maria da Assunção Mendes, 80 anos, Olo, Amarante, “Aprendeu com a mãe a “talhar”,  a fazer rezas e mezinhas para todo o tipo de males.”

Maria de Fátima Azevedo, 79 anos, Vila Chã do Marão, Amarante, “Foi a pé buscar a arca que o pai mandou fazer para o seu enxoval. Trouxe-a à cabeça, todo o caminho.”

Maria das Dores Teixeira, 83 anos, Vila Chã do Marão, Amarante, “Vai todos os dias buscar lenha ao monte, que carrega sozinha, presa por um fio.”

Alice Gomes, 79 anos, Vila Chã do Marão, Amarante, “A sua vida deu tantas voltas, tantas como as voltas do linho.”

Maria Ribeiro, 85 anos, Olo, Amarante; Maria da Glória Ribeiro, 62 anos, Olo, Amarante, “As suas vidas foram passadas no rio, enterradas na água, de verão e de inverno, para apanhar o minério.”

Fátima Machado, 78 anos, Vila Chã do Marão, Amarante, “A minha vida foi atrás das panelas. / Dei de comer a muita gente.”

Ana Miranda, 82 anos, Vila Chã do Marão, Amarante, “Andei descalça até me casar.”

Angelina Leite, 72 anos, Olo, Amarante, “A gente pode ser brava pela nossa vida própria, pelo que passou. Fui brava, lutei sozinha.”

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2022

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As Bravas, fotografias de Paulo Pimenta, conta com o apoio da Câmara Municipal de Amarante e CLAP – Centro Local de Animação e Promoção Rural. Está em exposição no Átrio da Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, Av. de Berna, em Lisboa, de 28 de janeiro a 25 de abril de 2022.

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O ENXOVAL atua no Porto e Amarante, propondo a formação de grupos de Ação, Reflexão e Criação Artística – ARCA, abertos à participação da comunidade intergeracional e jovem. Da colaboração entre artistas e participantes resultarão ações performativas/espetáculos, instalações plásticas e uma fanzine de distribuição regular.

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Complementarmente à exposição, registam-se algumas canções populares (poemas e gravações) que estas mulheres cantam nas suas lides:

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Eu fui ao rio lavar

“Eu fui ao rio lavar, ai ai
Deixei em casa o sabão
Lavei a roupa com rosas, ai ai
Ficou-me o cheirinho na mão.
Deitei meus olhos ao rio,
só́ p’ra ver teu brio, estavas a lavar
Lava, lava, lavadeira,
Estás na brincadeira, estás a namorar”

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Flor laranjeira

“Ó flor da laranjeira, já te podes ir embora
A minha mãe esta noite não me deixa lá ir fora”

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Rosa não consintas

“Ó rosa tu não consintas, que o cravo te ponha a mão
uma rosa desfolhada já não tem aceitação”

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Loureiro

“Loureiro, verde loureiro seco na ponta, verde no meio
Namorastes uma donzela, casa com ela, ó cavalheiro”

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Minha mãe case-me cedo

“Minha mãe case-me cedo
Ai enquanto sou rapariga
Ai enquanto sou rapariga
O milho sachado tarde
Ai nem dá palha nem dá espiga
Ai nem dá palha nem dá espiga”

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Quem me dera ser a hera

“Quem me dera ser a hera, pela parede a subir
Ia ter ao teu quarto, na tua cama dormir
Quem me dera dera dera, estar sempre a dar a dar
Beijinhos até morrer, abraços até acabar”

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Pode ouvir as gravações e saber mais sobre o projeto aqui.

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Um olhar sobre o Manto d’As Bravas que se expõe, por António Bracons, no FF, aqui.

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