SILVA NOGUEIRA, CORPOS MODERNOS DO PALCO

Fotografia de Silva Nogueira 1920-1930. Exposição em Lisboa, no Museu Nacional do Teatro e da Dança, de 28 de janeiro a 13 de março de 2022.

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Sobre a exposição, escreve o curador, Paulo Ribeiro Baptista:

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O modernismo em Portugal teve contornos singulares e o teatro foi um dos domínios em que se afirmou, sobretudo em termos visuais. Afinal o teatro, como disse Almada Negreiros, é o “escaparate de todas as artes”. Por isso, também uma fotografia moderna convergiu no teatro e surgiu sobretudo pela mão de Silva Nogueira. A afirmação dos valores modernistas na fotografia é um dos traços que distinguem a obra de Silva Nogueira dos anos 1920 e 1930, como nos provam os retratos desta exposição. Através deste conjunto de imagens podemos explorar as dimensões de uma quádrupla modernidade. Elas testemunham a profunda mudança estética do retrato, incorporando novidades do cinema, como o grande plano ou os efeitos de luz; também deixam perceber a transformação operada no teatro nacional, quer no teatro de repertório quer na Revista à Portuguesa, com uma marcada influência cosmopolita, sobretudo na dimensão visual; por outro lado, assiste-se à ampla disseminação dessas imagens nos novos magazines ilustrados, conseguindo fazer chegar o novo gosto a amplas franjas do público; finalmente, estas imagens são reveladoras de uma emancipação e de um empoderamento da mulher com um inusitado protagonismo nos palcos, assumindo o próprio corpo como uma estética moderna, com uma dimensão performativa. Este conjunto de vinte e seis retratos é revelador de uma surpreendente modernidade, mesmo sob o olhar do nosso tempo.

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Silva Nogueira, Corina Freire, 1930 – Maria Sampaio, 1933 – Ruben de Lorena, 1933

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A exposição temporária “Corpos Modernos do Palco”, composta por 26 retratos, em grande formato, que revelam os valores modernistas na fotografia das décadas de 1920 e 1930 de Silva Nogueira, também conhecido como o fotógrafo dos atores. 

Esta exposição parte do espólio do fotógrafo que integra o acervo do Museu Nacional do Teatro e da Dança (MNTD), quer de negativos, quer de provas da época, digitalizadas e impressas em grande formato, para a exposição.

São também apresentadas diversas fotografias numa apresentação vídeo, bem como duas séries com Luísa Satanela, uma publicada na Ilustração de 15.07.1931 e outra da revista “Harold Trepa Trepa”, de 1932. São também apresentadas reproduções de algumas provas e dos seus negativos, que permitem perceber o trabalho de retoque realizado. Na verdade, muitas das fotografias realizadas destinavam-se à divulgação e promoção das peças e dos atores, nomeadamente nas revistas ilustradas e na imprensa.

E tantas vezes, a criação do sonho.

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António Bracons, Aspetos da exposição (apresentação vídeo), 2022.

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Regista-se na folha de sala:

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Joaquim da Silva Nogueira (1892-1959) nasceu numa família de fotógrafos e cedo ingressou num dos mais prestigiados estúdios fotográficos lisboetas, a Fotografia Brasil, de Carlos Silva. No início dos anos 20, após o falecimento do proprietário, assumiu a direção artística do estabelecimento que viria a adquirir pouco depois. O seu olhar fez-se sentir, desde logo, no trabalho do estúdio, cujas condições renovou para o dotar dos mais avançados meios para o retrato, sobretudo em termos de iluminação e espaços amplos, características que agradavam aos atores e bailarinos dos palcos portugueses.

A relação que Silva Nogueira estabeleceu com esses artistas foi muito para além da prática do retrato convencional e aproxima-se de um registo de performance, pela liberdade que assume na sua relação com os retratados. As longas séries fotográficas que realizou nas décadas de 20 e 30 com Luísa Satanela, Francis Graça, Corina Freire ou Mafalda Evanduns provam, pelos limites que quase transgridem, a profunda cumplicidade que conseguiu estabelecer com cada um deles. A novidade das imagens que resultaram dessas sessões testemunha a importância do trabalho de Silva Nogueira no contexto da fotografia portuguesa desse tempo, e também a sua inédita capacidade de transformar a imagem visual e pública desses artistas.

Em “Corpos Modernos do Palco”, (…)  é possível explorar diferentes dimensões de modernidade no início do século no nosso país: na mudança estética do retrato, incorporando novidades do cinema, como o grande plano ou os efeitos de luz; na transformação do espetáculo teatral em Portugal, não só em termos de repertório mas, sobretudo, na sua dimensão visual; na disseminação, por amplas franjas do público, das imagens fotográficas através dos novos magazines ilustrados, expoentes do cosmopolitismo; e na revelação de uma emancipação e empoderamento da mulher, que assume o próprio corpo como uma estética moderna e com uma dimensão performativa.”

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2022.

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Como escreve Paulo Ribeiro Baptista em “Estrelas e Ases: o retrato fotográfico em Portugal (1916-1936)”:

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Será justamente na questão da pose que se joga, a partir de então, uma das mais importantes dimensões da representação da imagem no retrato fotográfico e aí se situou também um dos mais determinantes óbices à “autoralidade” da fotografia. Com efeito, com os artistas de palco o jogo de cumplicidade entre o fotógrafo e o seu modelo permitia conciliar dois planos diferentes da pose, a pose teatral/profissional do modelo com a pose fotográfica com franca autonomia para a expressão das prerrogativas estéticas de ambas, gerando uma visão e um código cultural facilmente identificável com os papéis tanto do modelo como do fotógrafo. A capacidade de manter a sua “assinatura estética” sem “corromper” a identidade artística dos seus modelos oriundos dos palcos, numa espécie de “neutralidade activa”, será um dos mais importantes traços da prática fotográfica de Silva Nogueira nas décadas de 1910, 1920 e início da de 1930. A circunstância da pose e a transformação que ela sofre foi encarada como um traço fundamental da modernidade e termos como intersubjectividade e nova objectividade, marcantes das décadas de 1910, 1920 e 1930, trouxeram consigo toda uma nova forma de encarar a fotografia e o retrato fotográfico, subitamente transformado de registo pessoal em forma de expressão e afirmação estética e sociológica.”

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António Bracons, Paulo Ribeiro Baptista, Fernando Pina, 2022

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“Corpos Modernos do Palco. Fotografia de Silva Nogueira 1920-1930”, com curadoria de Paulo Ribeiro Baptista e design gráfico de Fernando Pina, está patente em Lisboa, no Museu Nacional do Teatro e da Dança, ao Paço do Lumiar, de 28 de janeiro a 13 de março de 2022.

Será apresentada no Porto, no CPF – Centro Português de Fotografia, de Abril a Junho de 2022.

Com esta exposição, “o MNTD inaugura um novo ciclo de exposições temporárias que irão ocupar diferentes espaços do museu. Após meses de encerramento, devido à situação pandémica e obras de melhoramento, esta é a primeira de um conjunto de exposições que pretende dar a conhecer peças únicas e nunca expostas da vasta coleção do Museu, bem como contribuir para o conhecimento e divulgação da história das artes performativas em Portugal.”

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Cortesia: Paulo Ribeiro Baptista.

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