VALTER VINAGRE, HOMEM MORTO PASSOU AQUI

Exposição no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, na Rua da Palma, 246, em Lisboa, de 30 de setembro a 28 de janeiro de 2022.

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Sandra Vieira Jürgens, curadora da exposição, escreve:

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Ancorado numa relação com a história,Valter Vinagre apresenta um conjunto de fotografias de paisagem relativas a episódios da Guerra Peninsular (1807-1814), que opôs as tropas luso-britânicas às três invasões francesas do território nacional, desenvolvendo uma visão diversa do habitualmente comum em projectos dentro desta natureza temática. Em vez de se centrar nos símbolos e nos monumentos históricos das invasões napoleónicas, o autor procede a um aturado mapeamento do território geográfico e humano, registando os locais significativos das batalhas travadas naquele período, referenciados nos títulos das obras que compõem a série.

Nela predominam sobretudo paisagens desprovidas de especial relevância, de onde estão ausentes monumentos escultóricos, memoriais, lápides ou inscrições oficiais. Na maior parte das vezes, não há sequer vestígios dos acontecimentos trágicos e dramáticos que ali tiveram lugar. São lugares esquecidos, vazios de significado, onde nada se encontra, nem mesmo a memória do passado.

Revelando uma sensibilidade mais atenta ao que se esconde do que ao que se mostra, Valter Vinagre concentra-se na relação do visível com a invisibilidade, na presença da ausência e na impermanência dos sinais marcantes dos acontecimentos há séculos ocorridos nestes diferentes pontos do país. Ele distancia-se das visões auráticas, mitificadoras, glorificadoras da representação histórica, procurando uma contra-imagem do passado que não procura protagonistas nem monumentaliza sequer a representação da paisagem.

O encontro com a memória colectiva surge, então, intimamente relacionado com a relação que o fotógrafo decidiu estabelecer com esse património: uma ligação com o passado centrada sobretudo na sua experiência pessoal e na captação destes espaços em data e hora próximas dos acontecimentos históricos de há dois séculos. Um tal processo simbólico, que associa idealmente o presente ao passado, denota um fascínio não apenas pela transformação do espaço e trânsito do tempo, como pela nossa expectativa da apropriação dos seus sinais, reforçando um jogo de correspondências sempre surpreendentes entre o invisível e o imaginável, o temporário e o duradouro, os dados passados e as perspectivas presentes da paisagem geográfica e humana, assentes no princípio da tensão e complementaridade dos sentidos visuais e conceptuais.

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Valter Vinagre, Homem Morto Passou Aqui, 2014-2018 – Sem título #01, Caldas da Rainha, Portugal. 9 de Fevereiro de 1808, 11h00 – Sem título #12, Roliça, Portugal. 17 de Agosto de 1808, 06h15 – Sem título #16, Vimeiro, Portugal. 21 de Agosto de 1808, 11h00 – Sem título #21, Stº António de Cântaro, Buçaco, Portugal. 27 de Setembro de 1808, 06h00 – Sem título #24, Almeida, Portugal. 27 de Agosto de 1810, 09h30 – Sem título #26, Bragança, Portugal. 11 de Junho de 1808, 19h30 – Sem título #37, Porto, Portugal. 12 de Maio de 1809 – Sem título #42, Foz de Arouce, Portugal. 16 de Março de 1811, 17h00 – Sem título #46, Olhão, Portugal. 16 de Junho de 1808, 10h30 – Sem título #51, Chaves, Portugal. 11 de Março de 1809, 23h30. Impressão a jacto de tinta sobre papel fine art (hahnemuhle paper). 60×71,5cm.

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“Homem Morto Passou Aqui” é resultado de um trabalho de cerca de cinco anos de Valter Vinagre.

“Utilizando a paisagem para fazer a reconstituição de um legado histórico perdido na memória coletiva, o autor retrata os vários eventos das Guerras Peninsulares, ocorridos de Norte a Sul do país. Almeida, Bussaco, Chaves, Porto, Amarante, Évora e Olhão, juntamente com as Linhas de Torres Vedras, foram alguns dos locais fotografados ao longo desse tempo e respeitando o calendário dos acontecimentos que fizeram a história das três Invasões.”

Vinagre regressa aos locais dos combates, na mesma data e hora – de acordo com os registos militares – cerca de 200 anos depois: “a relação entre o desaparecido e o permanecente é sublinhada pela natureza específica do objeto fotografado: os episódios históricos referenciados pelos locais escolhidos e títulos das obras (sinalizando a data e a hora do registo) que compõem a série, em paisagens desprovidas de presença humana, suspensas no tempo e no enquadramento.”

Valter Vinagre coloca os títulos gravados numa placa de madeira – como uma lápide. Estão bastante abaixo das fotografias, para os lermos obriga-nos a curvar-nos sobre a fotografia, sobre o cenário da batalha, a curvar-nos perante aqueles que tombaram e, assim, prestar-lhes homenagem.

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António Bracons, Aspetos da exposição, Valter Vinagre, 2021

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A exposição de Valter Vinagre, “Homem Morto Passou Aqui”, está patente no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, na Rua da Palma, 246, em Lisboa, de 30 de setembro de 2021 a 28 de janeiro de 2022.

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A 25 de novembro foi lançado o livro do projeto, editado pelas Éditions Loco, Paris e Número – Arte e Cultura, Lisboa. Sobre ele, falaremos em breve.

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Esta série foi pela primeira vez exposta em Torres Vedras (numa fase inicial), o que veio a permitir o desenvolvimento do projeto. Numa segunda fase integrou a exposição da Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira “Espaço Comum” (no FF, aqui). Outros trabalhos de Valter Vinagre no FF, aqui.

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Cortesia do Autor.

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