RITA BARROS, ROOM 1008: THE LAST DAYS [ou TRATADO SOBRE A AUSÊNCIA]

Exposição no Centro Cultural de Cascais / Fundação D. Luís I, de 3 de julho a 10 de outubro de 2021

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Desde 1984 que Rita Barros vive no famosíssimo Chelsea Hotel, em Nova Iorque, ocupando o quarto 1008 – Room 1008.

Essa vivência mostrou-a primeiramente em 1999, através do livro e da exposição “Chelsea Hotel Quinze anos Fifty Years”, que já aqui publiquei e onde contei um pouco da história do Hotel. Posteriormente, apresentou na Galeria Pente 10, em Lisboa, “Presença da Ausência”, entre 12 de novembro de 2008 e 10 de janeiro de 2009, e entre 25 de fevereiro e 23 de abril de 2010, “3×3”, com o Hotel em plena vida, e “Bohemia – Life and dead in the Chelsea Hotel”, com curadoria de Jorge Calado, livro e exposição na Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, no Campus da Caparica de 15 de setembro a 15 de novembro (aqui).

O Chelsea veio a ser adquirido, como já referi, e os novos proprietários queriam dar-lhe um destino diferente. Esta situação já era vivenciada em 2012, como Barros mostrou em exposição na Universidade Nova, no núcleo do Monte da Caparica e no livro correspondente, com curadoria de Jorge Calado. Havia, contudo, um conjunto de resistentes que mantinha vivo e ativo o Chelsea Hotel.

Agora a situação está já no final e mesmo os últimos resistentes têm de abandonar o mítico Chelsea. Daí temos o título da exposição: “Room 1008: The last days”, os últimos dias.

A exposição apresenta um conjunto de fotografias desta série, sendo complementada com um livro em formato acordeão (no FF aqui) e a projeção de 8 vídeos que fez nos últimos dois anos, durante a fase de confinamento.

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É precisamente este conjunto de imagens exposto – e que se encontram no livro “Room 1008” também exposto, a par de outras mais gerais do quarto e da cidade a partir do quarto – que assumem um destaque especial.

Rita Barros fotografou com detalhe os vários espaços do seu quarto, da sua vivência, como estavam, em plena utilização: cada uma das prateleiras, os nichos, os armários, o espaço da lareira, as paredes. Lá estão fotografias, quadros, objetos, bibelots, livros… Tudo o que faz parte da sua vivência, da sua história.

Mas não é isso que Rita Barros nos mostra. Rita foi arrumando as coisas, deixou para o fim uma ou outra peça mais significativa, mais importante, que se manteve ainda num ou noutro espaço. E em cada espaço colocou a fotografia desse espaço ‘habitado’. E fotografou o espaço, praticamente desabitado, com a fotografia do espaço ‘habitado’ – reconhecemo-lo também pela presença de algum objeto que se mantém.

Cada fotografia mostra assim o espaço desabitado, desocupado e o espaço habitado, como era, pela fotografia presente. Pela fotografia dentro da fotografia. A “fotografia de um vazio que está cheio de fotografia” (Luísa Soares de Oliveira).

A fotografia torna-se assim, mais que um testemunho ou uma memória – função primordial da fotografia – um outro registo, com uma outra força. Este conjunto de fotografias formam, pois, um eloquente ensaio. Chamar-lhe-ia “Tratado sobre a Ausência”.

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António Bracons, Aspetos da exposição – Rita Barros, Room 1008: The Last Days –, 2021

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Luísa Soares de Oliveira escreve sobre a exposição (site do CCC):

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Como o título o indica, Rita Barros escolheu aqui um período muito específico da sua vida no mítico espaço nova-iorquino. Este hotel, que existe há mais de um século (uma raridade em Nova Iorque, onde o prazo de vida dos edifícios é habitualmente curto), é aquilo que se chama um hotel residencial, abrigando famosos e menos famosos que aqui foram vivendo por vezes durante décadas. Entre os primeiros, contam-se nomes como os de Mark Twain, Bob Dylan, Patti Smith, Janis Joplin ou Dylan Thomas. O quarto onde vive a fotógrafa é o mesmo onde Arthur C. Clarke escreveu o romance de ficção científica 2001 Odisseia no Espaço, no início dos anos 50, ao que se diz já de parceria com Stanley Kubrick, que haveria depois de realizar o filme com o mesmo nome. Há poucos anos, com a venda do hotel a uma sociedade apostada em pô-lo a render, a fotógrafa decidiu documentar a retirada dos objetos que ama para os pôr a salvo durante as obras em curso. O Chelsea Hotel, de facto, é hoje um lugar entrópico, com trabalhos que param e recomeçam, com inquilinos que persistem em não sair apesar do assédio a que estão sujeitos, numa saga sem fim que passa sem dúvida também por este trabalho fotográfico de Rita Barros.

É importante referir de início a petite histoire de Room 1008: The Last Days. Não é que ela seja absolutamente essencial para a compreensão do verdadeiro alcance destas imagens. Mas é inegável que, na posse destes dados, o observador pode apreender mais facilmente a poderosíssima melancolia que se desprende das fotografias de livros empacotados, bibelots ausentes, plásticos que tapam mesas e cadeiras, como que a evitar que a poeira do abandono os destrua. Há uma característica comum a todas as imagens: cada fotografia é também a imagem de uma segunda fotografia, esta última dos objectos ou da aparência daquele preciso local antes da sua retirada para local seguro. Fotografia da fotografia, fotografia de um vazio que está cheio de fotografia, e isto não apenas porque, de facto vemos um quase duplo da imagem total, mas também porque pressentimos, como que em filigrana, os anos e anos de trabalho que Rita Barros aqui desenvolveu.

Por estas razões, existe neste corpo de trabalho uma dimensão temporal que se evidencia na própria escolha da disposição das imagens que a artista escolheu fazer. Em Untitled (fireplace), não é apenas ao congelamento do momento em que se escolheu disparar o obturador da máquina fotográfica. É também ao tempo passado em que, em vez daquele elemento do apartamento tapado com um plástico azul, se podia ver uma lareira acesa, plenamente funcional, destinada a aquecer quem aqui vivia. Outros recantos, nichos, um armário cheio de roupa, ecrãs de televisão ou de computador preenchem o vazio actual das paredes prontas a serem derrubadas, talvez substituídas por outras melhores, mais modernas, diferentes.

E, no centro de tudo, a vida continua. Ou seja, Rita Barros ainda aqui vive, acompanhada agora pelos simulacros da realidade que guardou algures. Como ela própria diz, “I photographed everything before taking the objects away and decided to live with its copies. By living with them they became the ‘real objects’. And since they took the energy of the space and time I decided that I needed to document this new phase in my fight to keep my home still a home.”

De certa forma, assistimos à actualização daquela que foi uma das primeiras funções da fotografia: recordar aquilo que desapareceu, fazer memória do que passou, fintar a morte e o seu corolário maior, o esquecimento. Ao olhar para estas imagens, compreende-se como, de facto, a fotografia nunca esteve muito longe da morte – neste caso, a morte de um edifício, mas também de um estilo de vida que não volta, de anos e anos que, a partir de agora, apenas contam com a memória que as imagens suportam para não serem esquecidos completamente. Walter Benjamin, ao falar do abalo que a possibilidade de reprodução técnica provocava na aura – das pessoas, mas também dos lugares -, lembrava que, no caso da fotografia, essa aura nunca desaparecia completamente. E mencionava a imagem do rosto humano, o mesmo que se coloca, dentro de uma moldura, em lugar bem visível da sala ou do quarto, para lembrar como o valor de culto ainda se pode sobrepor ao valor de exposição nesta técnica. E logo acrescentava que, pelo contrário, quando o rosto humano desparecia da fotografia, esse valor de culto se desvanecia de vez, para dar lugar à exposição omnipresente e dominante.

É sem dúvida o que se passa nesta série de obras de Rita Barros. As imagens submetem-se todas elas ao mesmo propósito: expor, mostrar, revelar o que ali esteve, em vez de valerem como objecto único, insubstituível, que a fotografia ainda pode ser, apesar das muitas tiragens que é possível fazer de cada imagem – ou dos milhares de partilhas que cada imagem pode sofrer em meio virtual. De certa forma, há alguns trabalhos nesta série que citam a possibilidade infinita da reprodução: Untitled (shahrzad), por exemplo, ou Untitled (red wall). Nestas peças, como noutras que o observador poderá encontrar nos espaços da exposição, a fotografia não cria um duplo da realidade sensível, mas um múltiplo. Isto é: ela não funciona como imagem especular que é fixada em determinado momento – na memória digital da máquina ou no negativo analógico, como é sempre o caso na fotografia -, mas como uma técnica produtora de múltiplos.

E a escolha da artista é, neste momento, viver não com o original, mas com o múltiplo, a cópia, o simulacro do original.

A fotografia, aqui, não é então apenas o resultado do trabalho da autora com um aparelho, mas é ela própria uma metáfora daquilo que a define. Note-se que estes múltiplos, esta visão caleidoscópica que Rita Barros nos apresenta do lugar onde vive, é ela própria fechada, impenetrável à interpretação e ao discurso sobre a obra de arte. A imagem dá-se a ver a si própria, como se ela fosse o produto de dois espelhos paralelos que, embora parecendo abrir-se sobre o infinito, nos mostram o mesmo do mesmo, ad eternum e para sempre, sendo que esse mesmo é, ele próprio, um duplo. Como sucede na magia, nos contos fantásticos e em todos os espelhos que a literatura nos conta darem a ver a pura verdade, ela abre-se sobre o passado, tal como ele foi, tal como a fotógrafa o viu, tal como o viveu. Ou, até, muito mais que sobre o passado. Para retomar as palavras de Foucault sobre o espaço contemporâneo, o Chelsea Hotel é hoje simultaneamente etéreo, leve, transparentes, mas também obscuro, rochoso, atravancado. É um espaço, como aqui, onde os fantasmas das coisas que existiram ainda permanecem, e onde se luta para que o real volte, e o duplo, como o fantasma, deixe de ser necessário.

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António Bracons, Aspetos da exposição – Vídeos “NYC Notes” #1 a #8 –, 2021

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A exposição de Rita Barros: “Room 1008: The last days”, está patente no Centro Cultural de Cascais / Fundação D. Luís I, de 3 de julho a 10 de outubro de 2021.

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Rita Barros vive em NY desde 1980, e é professora adjunta na NYU (New York University). Tem um mestrado em ‘Art in Media: Studio Art’ pela New York University/ International Center of Photography. É autora do livro “Fifteen Years: Chelsea Hotel” Camara Municipal de Lisboa, 1999.

O seu trabalho tem sido apresentado em inúmeras exposições colectivas e individuais: no PS1, Briggs & Robinson Gallery, Exit Art, Nathalie Karg Gallery (NYC); Center for Photography em Woodstock, (NY), Wilfredo Lam Contemporary Art Museum (Havana, Cuba); Encontros de Coimbra (Coimbra), Museu da Água (Lisboa), Museu de Arte Contemporanea de São Paulo (São Paulo, Brasil), Photo España 07 (Emerging Talents) no Museo de Arte Contemporanea (Madrid), Flash Art Fair (Milão), na Paris Photo 2009 e 2010 com a Galeria Pente 10, na Fundação Gulbenkian, (Paris), na Biblioteca da FCT/UNL (Almada), no Summer Show da Royal Academy of London e no Kohler Arts Center no Wisconsin.

Barros está representada em várias coleções de arte portuguesas e estrangeiras nomeadamente; Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Coleção do Novo Banco, Portugal Telecom, Centro Português de Fotografia, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação PLMJ, Museu da Cidade de Lisboa, Centro de Arte Contemporanea de Almada, Coleção Norlinda e Jorge Lima, Museu de Arte Contemporanea de São Paulo, New York Public Library, Casa de Las Américas em Havana, Kohler Arts Center no Wisconsin, Falles Collection em Nova Iorque

Os seus retratos e paisagens urbanas foram publicados em numerosas revistas europeias e americanas incluindo o New York Times, Newsweek, New York Magazine, Brooklyn Rail, Nouvel Observateur, Vogue, Elle, GEO, Zoom, Expresso, La Vanguardia, Le Monde.

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Mais informação aqui (CCC).

Pode saber mais sobre a obra de Rita Barros no FF, aqui.

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