MÓNICA DE MIRANDA, CONTOS DE LISBOA

Exposição patente do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, na R. da Palma, 246, de 18 de fevereiro a 3 de outubro de 2020.

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No pós-25 de Abril, verificaram-se diversos movimentos migratórios: os retornados das antigas Colónias portuguesas de África, pessoas de origem africana, sobretudo dos PALOP, mas também alguns asiáticos, bem como a sedentarização das pessoas ciganas e a deslocação de muitos portugueses das zonas rurais. A maior parte veio para Lisboa e para a região envolvente à capital. Surgiram assim numerosos bairros de construções abarracadas: uns em tábuas e chapas, outros em tijolo ou mesmo com estrutura em betão. Construídos em terrenos devolutos, de domínio público ou privados, na maior parte dos casos, a eletricidade provinha de puxadas (‘do poste’, nalguns municípios houve regularização com a EDP, com colocação de contadores) e não tinham água corrente, ou ligadas ilegalmente à rede. Estas construções, no geral edificadas pelas próprias famílias estavam dependentes da área disponível, podendo nalguns casos ser relativamente extensas ou desenvolverem-se por mais de um piso. No geral, a vivência dos bairros era de familiaridade, permitida pelas casas térreas e pelas naturais relações de vizinhança, muitas vezes ligadas por redes familiares ou de país de origem, ou apenas de proximidade e ajuda mútua, adensada por anos de vivência.

O grande número destes bairros levou o Governo a aprovar o PER – Plano Especial de Realojamento, para as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, criado pelo Decreto-Lei n.º 163/93, de 7 de Maio, com o objetivo de garantir o realojamento em condições de conforto, salubridade e higiene de toda a população residente em construções abarracadas e acabar com estas, até ao ano 2000.

Foi efetuado o levantamento dos residentes e das construções e foi promovida a construção de diversos bairros, ditos ‘sociais’ ou ‘municipais’, tendo sido realojada uma grande parte da população, ocorrendo no momento da saída de cada agregado a demolição da construção.

Paralelamente foi ocorrendo a construção de novas barracas com a chegada de novos migrantes, muitas das quais iam sendo demolidas quando detetadas. O PER foi cumprido nalguns municípios, noutros não, havendo ainda famílias a realojar.

Face à realidade das construções precárias, o Governo efetuou um novo inquérito em 2017 com vista a implementar um novo programa de realojamento a nível nacional, sendo o número de fogos atualmente necessário superior aos 20.000, em todo o país.

Dentre os bairros criados, o Talude Militar ou Estrada Militar, como também é conhecido, percorre vários municípios, tem muitas famílias realojadas e outras ainda para realojar. É ao longo da Estrada Militar que Mónica de Miranda percorre e regista a dupla realidade de uma paisagem de transição, onde ainda diversas famílias aguardam o realojamento ao lado do entulho de construções de famílias já realojadas. Miranda regista a paisagem, fala com as pessoas, mostra restos que ficaram para trás (sapatos, discos, brinquedos…), faz o levantamento e a maquete de algumas destas construções… Em torno de Lisboa, são estes Contos de Lisboa que Mónica de Miranda conta.

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Bruno Letão, um dos curadores da exposição, escreve na folha de sala:

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O ARQUIVO COMO ESPAÇO DE EMPATIA

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Contos de Lisboa propõe encontrar uma forma de entender o arquivo não como algo estático, mas pelo contrário como algo em mutação. Um arquivo que provoque uma releitura da história da cidade e das suas identidades, a memória dos seus territórios, dos seus processos de resistência e afirmação. Um arquivo que mostra uma cidade que se reivindica também por se reinventar.

Quando em 2009 Mónica de Miranda iniciou e recoleção de fotografias criando um arquivo visual dos bairros limítrofes de Lisboa foi como se antecipasse a sua desaparição. Bairros como o Talude, Azinhaga dos Besouros, Fim do Mundo, Mira Loures, 6 de Maio e outros foram retratados pela artista. Todos estes bairros surgiram na denominada Estrada Militar, um conjunto de fortificações construída no final do século XIX, que constituía a linha de defesa da Cidade de Lisboa que deveria proteger a capital de invasões militares externas.

A estrada, actualmente continua a ser uma espécie de fronteira que “protege” a cidade contra invasões estrangeiras; sustém um significativo número de imigrantes e africanos de popular a cidade, obrigando-os a permanecerem na periferia de Lisboa, no seu limite, no limbo da vida na cidade.

Passados 10 anos desde o início do projecto fotográfico verificamos que a maioria destes bairros já não existem na forma em que Mónica de Miranda os fotografou, tendo sido demolidos na sua maioria. Esta exposição começa depois de dez anos de recolha de imagens nos bairros em redor de Lisboa. Mas as imagens que aqui se mostram não são as imagens que a artista fez destes bairros. São imagens que surgem posteriormente do seu processo artístico de reflexão sobre uma geografia composta por várias geografias, um tempo que se explica em muitos tempos, esta exposição condensa as possibilidades e sonhos de lugares e tempos da própria reinvenção da identidade e da história.

O arquivo da Estrada Militar de Mónica de Miranda mostra uma Lisboa que se quer ocultar, mas tende a afirmar-se nos seus limites. A sua investigação artística consequente em Contos de Lisboa não se esgota na demonstração de que existe uma cidade que resiste e cresce fora do seu centro. A artista mergulha num processo inquisitivo humanizante destes lugares e ao ficcionar estes espaços cria um exercício de empatia, uma possibilidade de reconhecermos emocionalmente uma Lisboa fora do centro, mas que se afirma por dentro.

A exposição Contos de Lisboa surge deste arquivo visual criado ao longo de uma década, mas é muito mais do que a recoleção fotográfica destes bairros, é um objecto polimórfico, uma continuação desse arquivo inicial composto por fotografias.

Em Contos de Lisboa, numa instalação de som e fotografia retratam-se as casas dessa Lisboa que esta a ser rasurada. Na instalação pode-se ver uma cassete de VHS com o título “Arma Mortifera”, uma cassete de áudio partida com marcas de lama, um dicionário sem capa que começa na página 95 que de tão rasgada parece estar a ponto de desprender-se, apontamentos do curso de economia política da Universidade de Lisboa sublinhados com cores diversas, um vinil, uma boneca, sapatilhas Deeply, aparecem ordenados num conjunto de fotografias que retratam objectos usados, recolhidos nas imediações de casas demolidas. Estes objectos de uso lúdico, necessário ou utilidade burocrática unem-se num mapa na parede numa quadrícula perfeita. Para cada uma das casas retratadas foi escrito um conto par um escritor diferente que imaginou uma narrativa onde criaram um universo de personagens que ativaram estes objectos.

O trabalho Timeline, um conjunto de imagens que compõem uma linha de fotografias nas quais se observam uma rua com uma linha de escombros. Estes escombros pertencem a casas que foram demolidas para dar lugar a novos bairros que ainda não chegaram, no local permanecem casas que coexistem com a rasura de outras casas, como se o espaço pessoal de resistência se fizesse ver entre o limbo de existir e ser. Este passado por apagar permanece teimosamente no mesmo lugar neste trecho da estrada militar do bairro de Mira Loures e dez anos depois os restos do passado por apagar continuam no local. Este trabalho aparece como uma imagem entrecortada, mas contínua como um registo de uma performance, um lento passeio por este percurso de rua. O título alude à dimensão temporal capturada numa só imagem.

Uma outra obra vídeo Estrada Militar, documenta visualmente partes da antiga estrada militar e contextualiza visual e sonoramente séculos de história desde a construção militar, as invasões napoleónicas, o momento pós-independência em África e o crescimento da cidade de Lisboa fora dos seus limites.

Se nas obras anteriores a presença humana era sugerida pela ficção ou ausente no caso de Timeline nas obras Twin Towers e 6 de Maio encontramos pela primeira vez olhares que devolvem o nosso olhar. Em Twin Towers as gémeas olham o visitante nos olhos colocando-se ao mesmo nível que o espectador, em 6 de Maio a guerrilheira apresenta-se frontalmente para a câmara, mas o seu olhar não sugere um desafio, em vez disso a guerrilheira tem o olhar projetado em algo distante, aqui olha para o horizonte numa atitude defensiva ou simplesmente para o futuro diante de um cenário onírico. Mas aqui o sonho da imigração ficou demolido, é como uma luta armada, luta binária que se afirma entre o passado e presente, entre a utopia de um futuro que se perdeu e realidade, a distopia do presente.

Os cenários que ocupam são distintos, atrás das gêmeas em Twin Towers vemos um terreno com hortas urbanas com prédios ao fundo, um despropósito tal como o contraste entre a roupa das meninas e a estrada de terra batida onde se encontram. Este é o limite de um bairro que se encontra nos limites de Lisboa. A oposição entre os terrenos agrícolas, a natureza e os prédios geram um cenário de contrastes, num ponto intermédio da paisagem podemos ver uma habitação de caracter temporário que simbolicamente ocupa um meio termo entre os meios urbano e agrário. A ironia desta imagem é dada pelo título e pela dignidade das duas protagonistas. As gêmeas aparecem no trabalho de Mónica de Miranda pela primeira vez em 2014 (Archipelago) e são um recurso frequente na sua obra, um símbolo de uma existência dividida entre duas nacionalidades entre o próprio e o outro, um reflexo igual, mas distinto de cada um, uma sugestão à possibilidade de nos vermos reflectidos noutro, elas são empatia e estranheza em simultâneo.

A serie “Casa Portuguesa” é constituída por documentação fotográfica de casas que já foram demolidas mostradas a par de planos de arquitectura e maquetas que foram criados a posteriori. Estas casas que se fundamentaram em sonhos e não em esquiços, tornam-se assim evidências dignas do direito à habitação, o direito a construir e viver numa casa. O planeamento urbanístico e arquitetónico são luxos que não garantem o acesso à felicidade da mesma forma que a sua ausência não a invalida. Pode-se considerar a arquitectura um privilégio ou um direito, mas não se pode negar que por vezes os sonhos não esperam pelas condições idóneas de edificação, neste caso, podem os sonhos e a necessidade de habitação podem ser as únicas condições idóneas para se construir uma casa?”

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2020

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Mónica de Miranda é uma artista portuguesa de origem angolana que vive e trabalha entre Lisboa e Luanda. Artista e investigadora, o seu trabalho é baseado em temas de arqueologia urbana e geografias pessoais. Trabalha de forma interdisciplinar com desenho, instalação, fotografia, filme, vídeo e som, nas suas formas expandidas e nas fronteiras entre a ficção e o documentário. Formada em Artes Visuais e Escultura pela Camberwell College of Arts (Londres) e doutorada em Estudos Artísticos pela  Middlesex University (Londres). Em 2019, foi nomeada para o prémio Novos artistas no Maat e em 2016 para o  Prémio Novo Banco Photo, expondo como uma das finalistas no Museu Coleção Berardo.

Entre as exposições em que participou, destacam-se: Arquitectura e Fabricação, no MAAT em Lisboa (2019); Panorama, Banco Económico (Luanda, 2019);Doublethink: Doublevision, Pera Museum (Istambul,2017); Daqui Pra Frente, Caixa Cultural (Rio de Janeiro e Brasília, 2017-2018);  Bienal de Fotografia Vila Franca de Xira (2017);  Dakar Bienal no Senegal (2016); Bienal de Casablanca(2016), Addis Foto Fest (2016); Encontros Fotográficos de Bamako (2015); MNAC (2015); 14ª Bienal de Arquitectura de Veneza (2014); Bienal São Tomé e Principe(2013); Estado Do Mundo, Fundação Calouste Gulbenkian (2008). 

É uma das fundadoras do projeto Hangar (Centro de residências artísticas, Lisboa, 2014).

 A sua obra está representada em várias colecções públicas e privadas, entre as quais: Fundação Calouste Gulbenkian, MNAC, MAAT, FAS e Arquivo Municipal de Lisboa.

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A exposição “Contos de Lisboa”, de Mónica de Miranda, com curadoria Bruno Letão e Sofia Castro está patente do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, na R. da Palma, 246, de 18 de fevereiro a 3 de outubro de 2020.

Com a finissage, a 3 de outubro, às 17:00, será lançado o catálogo da exposição.

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Pode conhecer mais sobre a obra de Mónica de Miranda aqui. e aqui.

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