JOSÉ BACELAR, (O)PORTO, 2016

.

.

.

José Bacelar

(O)Porto

Fotografia: José Bacelar / Texto: Eduardo Paz Barroso / Design: Sílvia Teixeira – Whatdesign

Porto: Edição do Autor / Julho 2016

Português e inglês / 16,8 x 22,0 cm / 98 p.

Cartonado / Impressão duotone / Assinado pelo autor / 500 ex.

ISBN: 9789892067902 

.

.

.

.

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes.

O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

Fernando Pessoa

.

José Bacelar mostra-nos o seu Porto numa visita intimista, em imagens de pretos densos, e contrastes intensos. Porto, Oporto para os ingleses, ‘O Porto’ de José Bacelar não tem nada de turístico: é a cidade ela mesma, dos seus habitantes, também dos que estão nos bairros mais periféricos, dos espaços abertos e dos detalhes dos espaços da cidade. E das pessoas.

.

Sobre a obra escreve o autor:

O Porto é um lugar de memórias. Tenho aqui algumas raízes. É um lugar de que gosto, um lugar onde acabo sempre por voltar. Tenho vindo a fotografar a cidade, a família, amigos e conhecidos. Fotografo-os à medida que os encontro. De uma ou outra forma, todos habitam o Porto.

Cruzo-me com lugares que me fazem sentir. Fotografo-os. Reflectem o que sinto, como me sinto, o que sou e por onde vou. E muito tenho deambulado pela cidade. O Porto das deambulações, das paixões e do sentido da vida. Perco-me na cidade que conheço e na cidade que descubro.

Continuo a reencontrar velhos amigos e conhecidos, conheço pessoas. Deixei de ver a cidade como um todo. Passei a vê-la como fragmentos, fragmentos da minha identidade, do meu sentir. Sou parte do Porto, tal como sou parte de qualquer cidade.

A viagem, o quarto, os dois na cama, o olhar forte da proximidade, o rosto por trás dos prédios, a amizade e o amor incondicional, a cadela, os filhos dos outros, os filhos dela e a minha, as asas do anjo, ela adormecida, eu ao espelho, um abraço, um toque na mão, as árvores, as palmeiras, as marcas no corpo e na pedra, as memórias da casa…

Enfim, a cidade é a alma que a habita. O Porto que se sente. É o Porto que sinto, porque “o que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”.

.

.

Eduardo Paz Barroso (Porto, 1957, doutorado em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto), escreve o ensaio da obra:

.

A integridade de um olhar urbano

.

Algumas destas imagens, particularmente entregues a um destino que conjuga a sua condição específica de objecto impresso com uma espécie de efabulação do quotidiano, falam do transitório, da efemeridade… Outras trabalham a ideia de espaço, a rarefacção da marca, do traço, ou as saliências do corpo. E numa delas a fugaz representação “autobiográfica” do fotógrafo, faz deslizar o sujeito, como que a deixar abandonada numa página avulsa a nostalgia do “Autor”. Em todas, o observador depara com a evidência do lugar, de cada lugar inesperado, feito reivindicação ontológica do olhar fotográfico. Um olhar soletrado, intuitivo, cortante, através do qual irrompe um desejo de matéria.

Numa síntese muito breve, o que percorre e unifica este conjunto de imagens, talvez seja isso mesmo: a vontade de fixar, com uma alquimia feita de metáforas e alusões a uma memória fotográfica, a pulsão de um gesto definitivo. Ao agir sobre o mundo, ao perscrutar o ao mergulhar para além do mundo das aparências, José Bacelar toca uma pulsão essencial. Para ele trata-se de decantar o visível, de encarar a imagem fotográfica como uma busca sobre a qual paira a herança fantasmagórica de Bazin e do seu legado ontológico. Esta pulsão será então numa radical afirmação: “estou aqui”. O efeito de presença que se descola do que fica, daquilo que permanece, o exercício de sobrevivência ao qual toda a ascese fotográfica obriga, o entendimento do humano, frequentemente descentrado de toda a figuração, sejam corpos interrompidos, seja a crueldade de uma visão da arquitectura que se sobrepõem aos limites do urbano, seja ainda o fragmento de paisagem em rotura com natureza, ou a palavra em trânsito, mas de repente feita única, enfim, todas estas mecânicas da linguagem encontram neste livro uma possibilidade expressão.

Trata-se de ensaiar a passagem do não dito ao irrepetível. A consistência deste trabalho assenta na perspectiva que aqui partilho, da capacidade de interrogar um espaço amplo, podia ser uma cidade, podia ser o Porto, e partir de uma vertigem panorâmica, para criar uma obsessão pelo detalhe. Para chegar às fendas da significação. O que equivale, numa aproximação improvisada que aqui proponho, a repercutir uma frase belíssima de Peter Handke ao escrever: “O amor tomou fôlego, para esta cidade na planície. Ser: ser urbano. Ser urbano: matéria de alegria.” O mundo despertou em mim como uma cidade. O olhar é assim uma planície, o registar de sucessivas mutações e temperaturas, um modo de ser urbano, como quem diz comungo as ruas, as praças, os jardins, e o modo como as pessoas se oferecem, disponíveis, de passagem… É por isso que o fotógrafo, este fotógrafo, é um ser agradecido.

Uma referência também à montagem que este livro assume, capaz de fazer migrar a curiosidade, de convocar a atenção de cada um, fazer dele espectador de tudo e espectador de si. Espectador ligeiramente assustado, intenso, suspenso por hipótese na mão anónima que uma das fotografias apresenta. Mão que se vê, lá em baixo, agarrada ao corrimão de uma escadaria de um prédio por instantes transformado em abismo.

Na impossibilidade de deixar aqui e agora um comentário mais pormenorizado sobre cada uma destas fotografias, importa talvez dirigir a cada uma delas uma pergunta: o que começa com elas? Sabemos que alguma coisa se inaugura através do seu dizer/mostrar. Recusam o banal, (…) Sempre gestos que interrompem o nexo verbal do quotidiano.

O que começa aqui é então o espanto da vida que nos escapa, mesmo quando as opções de impressão sugerem a melancolia ou uma certa opacidade se abate deliberadamente sobre a página. Mesmo quando tudo parece tão próximo, o fotógrafo José Bacelar apresenta uma distância essencial, sem a qual a integridade do mundo (de uma parte dele) ficava afinal por desvendar.

.

19 de Junho, 2016

.

.

.

José Bacelar, (O)Porto, 2016

.

.

José Bacelar

Fotógrafo. Vive no Porto. Mestre em Fotografia Documental pelo London College of Communication, Londres. Em fase de conclusão de doutoramento na Universidade Fernando Pessoa, Porto, na área da Fotografia, Arte Contemporânea e Comunicação Estética. Docente de Fotografia, Sistemas Multimédia e Pós-produção Audiovisual na Universidade Fernando Pessoa (2009-2012).

Depois de ter passado por vários jornais portugueses, tornou-se fotógrafo freelancer em 2003 e trabalha essencialmente em fotografia documental. Tem publicado em livros e revistas, nomeadamente as internacionais Le Monde 2, VSD, Stern, Focus, The Independent on Sunday Review, e as nacionais Visão, Grande Reportagem, Exame, Única, entre outras.

Prémios: Euro Press Fuji Award – categoria reportagem, 2003; Grande Prémio Visão, 2004.

.

.

.

Pode conhecer melhor a obra de José Bacelar aqui e no FF, aqui.

.

.

.

Advertisement