NUNO MOREIRA, ERRATA., 2020

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Nuno Moreira

ERRATA.

Fotografia: Nuno Moreira / Texto: David Soares

Lisboa: Edição do Autor / Fevereiro . 2020

Português e inglês / 14,0 x 20,5 cm / 52 págs

Cadernos cosidos à mão (estilo francês), em caixa de cartolina preta, com título impresso na frente e verso em relevo, cor prata / 50 ex., numerados e assinados a lápis pelo autor.

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A leitura é, essencialmente, um acto de imaginação.”

Nuno Moreira

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Mais uma vez Nuno Moreira apresenta o seu trabalho numa versão primorosa, extremamente cuidada.

Recebo o livro. Abro o envelope e levanto o cartão protector. Um postal olha-me…

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O postal acompanha a obra. Uma palavra a cada leitor, a cada pessoa especial (para o Nuno é, ou faz-nos sentir assim), que recebe a obra. E lembra que

A leitura é, essencialmente, um acto de imaginação.”

Levanto o poema. Isto é, o postal. O livro…

Vem embrulhado em papel seda, preto, a marca NM, num círculo, impressa a prata. Descolo o ponto de cola, isto é, o papel rasga-se, para desembrulhar.

Uma caixa de cartolina preta, acolhe no exterior o título e no interior o livro.

Papel cor marfim, impressão cuidada, tons ligeiramente quentes, pretos intensos.

Fotografado em junho de 2017, com os actores Marta Barahona Abreu e Miguel Sá Nogueira, amadureceu mais de dois anos, até agora se apresentar.

Um objeto-livro ou livro-objeto, que questiona o livro em si – e as palavras, e o texto, e as imagens.

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Sobre a obra escreveu o autor, Nuno Moreira, para o Fascínio da Fotografia:

 

ERRATA.

We are all pages in a book

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Para mim a fotografia sempre foi um gatilho para o pensamento e reflexão e como tal, na senda dos anteriores livros, este continua a debruçar-se sobre a forma como olhamos para as imagens e qual a vibração que estas criam.

A arte sem pensamento, sem ideias, para mim não existe. Estou mais interessado em criar imagens que sejam propensas ao pensamento. Se possível, que o próprio pensamento se sobreponha à razão de ser das imagens.

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Agrada-me a ideia de trabalhar com fotografia e usar o mínimo de recursos óbvios desta prática. Isto é, de produzir imagens que não tenham alicerces (pelo menos escancarados) deste meio. É uma forma de trabalhar com poucos elementos e isso agrada-me profundamente, pois deixa-me concentrar no que tenho à frente: os corpos, as massas, as formas, a luz e acima de tudo as sombras. Espero que isso passe também nas imagens, esse resultado despido de referências e origem. É muito importante no que faço que a imagem seja só o ponto de partida. É nisso que penso para cada imagem individualmente, se tem a força de despontar qualquer tipo de pensamento. O resto vem depois.

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Com este livro, ERRATA, pretendia assumidamente criar um objeto único, enigmático e que fugisse à ideia de ser facilmente catalogado como livro de fotografia. No meu entender é mais um “objecto-livro”, sendo que é mais objecto e menos livro. Foi desenhado para ser manuseado, para estimular os sentidos, tendo uma curva de percepção íntima e muito elíptica, devido à natureza do que foi fotografado.

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As imagens foram registadas em 2017, dias após ter concluído a encenação do “She Looks into Me”. Estas imagens ficaram guardadas, como muitas outras ficam, à espera da altura certa. Na realidade, a origem deste projecto deriva directamente de um sonho. E foi esse sonho que foi recriado como se se tratasse de uma sequência fílmica. Como tal, é um trabalho ainda com uma componente fortemente teatral.

Mas afinal, a vida é um sonho e a vida é um teatro. Não sabemos quem escreveu este teatro, qual é o propósito deste teatro, mas estamos todos a representar algum papel, variações de algo que não compreendemos. Nada é original, tudo se repete. Nas minhas fotografias as personagens que lá aparecem estão tragicamente lúcidas do que lhes foi destinado, pois sabem-se observadas e aceitam o absurdo deste teatro.

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O interessante em fotografar figuras ou corpos anónimos é precisamente que estes não são meramente corpos. São a possibilidade de serem vistos como formas que representam algo mais. O verdadeiro valor, ou interesse, em olhar para as imagens onde figuram pessoas é que podemos atribuir-lhes significados que variam consoante o observador e a bagagem que este traz consigo. É muito circunstancial. Estas figuras representam, literalmente, o que o observador quiser que eles sejam a dado momento. O meu papel, enquanto criador, é apenas atribuir-lhes um contexto, uma atmosfera que os suporte para que possam ser credíveis e existam por si só conforme foram concebidos.

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É muito importante mencionar a participação do escritor David Soares nesta edição pois o resultado é, no meu ver, muito bem conseguido .

Quando convido um autor para escrever um texto para um livro meu, o que procuro é ver como o seu estilo se conjuga com o meu, como linguagens aparentemente díspares possam ganhar novos contornos e quiçá vislumbrar-se algo de interessante nesse cruzamento. Algumas colaborações foram, para mim, mais bem conseguidas que outras. Verdadeiramente, o que me fascina no jogo entre imagem e texto é o que se torna possível construir no meio dessas duas linguagens – isto é, na imaginação do leitor. E sendo este um livro que presta homenagem a livros e à literatura, o David foi fulcral para criar um objecto tão fora do vulgar.

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Nuno Moreira, Março de 2020

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Nuno Moreira, ERRATA., 2020

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Nuno Moreira (Lisboa, 1982) estudou Cinema, é um artista visual independente que trabalha em design gráfico, fotografia, colagem e às vezes vídeo.

Depois de trabalhar muitos anos em diferentes empresas, no sétimo dia do sétimo mês de 2007 a NM DESIGN foi fundada.

Desde então, tem trabalhado de forma independente através de seu próprio estúdio, que é especializado na direção de arte para capas de livros, música, design, fotografia e identidade de marca. Os seus projetos incluem colagens sobre a chancela ABRAKADABRA, numerosas séries de instalações, livros e projetos de fotografia; desde 2006 já expôs individualmente e em grupo em galerias de todo o mundo, movido pela curiosidade de conhecer diferentes culturas e viajar constantemente.

Já editou, entre outros, os livros “State of Mind” (2013, no FF aqui), “Zona” (2015, no FF aqui), “She looks into me” (2018, no FF aqui).

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Pode conhecer melhor o trabalho de Nuno Moreira, aqui.

Pode ver outros trabalhos de Nuno Moreira no Fascínio da Fotografia, aqui.

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Cortesia do Autor.

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Atualizado em 05.05.2020.

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