ANTÓNIO CAMPOS LEAL, LUZ NOS LIVROS, 2015

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António Campos Leal

Luz nos Livros. 30 fotografias estenopeicas. Ephemera. Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira

Fotografia: António Campos Leal / Texto: José Pacheco Pereira, António Campos Leal

Lisboa: Tinta da China / Novembro . 2015

Português / 17,0 x 21,4 cm / 144 págs., não numeradas

Brochura

ISBN: 9789896712884

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Luz nos livros (1)

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“Luz nos livros” apresenta a Ephemera, a  Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira. Ephemera, porque grande parte da coleção são documentos e publicações efémeras, como revistas, cartazes, autocolantes e outros. A Ephemera tem crescido graças a múltiplas aquisições, nomeadamente doações e ofertas, sendo um arquivo e coleção única no panorama nacional.

António Campos Leal, através de uma das suas paixões, a fotografia estenopeica ou pinhole (de pin + hole), na designação anglófona, mostra-nos a Ephemera.

José Pacheco Pereira testemunha o trabalho de António Campos Leal:

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Ver com a luz de forma diferente

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De repente, ao passar por uma estante, uma escada, uma mesa, comecei a ver coisas fora do sítio. No Arquivo e na Biblioteca há muitas coisas fora do sítio, mas eu sei que estão fora do sítio. Estão em trânsito para o «sítio». Mas aquelas não só estavam fora do sítio, como eu não sabia como lá tinham ido parar. O que estava ali a fazer aquela lata que parecia de bolachas? E aquela caixa metálica que devia ter sido de chocolates ou bolos? E aquela gigantesca caixa de madeira? Uma observação mais detalhada mostrava que todas tinham um pequeníssimo furo. Felizmente não mexi em nenhum daqueles objectos. O furo olhava-me.

O culpado devia ser o António Leal, que por lá andava de fotómetro em punho, a tomar notas com horas, minutos e segundos, deixando, por onde passava, um objecto fora do sítio e da ordem. E era.

A fotografia das «máquinas» fotográficas estenopeicas que se publica a seguir mostra a grande diversidade de caixas e caixinhas onde, invisível aos nossos olhos, se estava a formar uma imagem com a luz que penetrava pelo furo da agulha.

Podia passar em frente? Podia, que lá não ficava nada a não ser um fantasma. É como se a natureza das coisas, ou o Deus da física, ou um espelho malévolo, nos tirasse uma fotografia e nos mostrasse a nossa natureza passageira e volátil. Passávamos e não ficava lá nada. Até o pó se saía melhor. Em contrapartida, as salas, os livros, os papéis e pastas, as estantes e mesas, ganhavam uma materialidade quase sempre difusa, como se a sua natureza de coisas as arrancasse do mundo oscilante das partículas elementares e como se a natureza quântica do mundo viesse ao de cima, revelada também por outras partículas, as da luz.

A luz, impiedosa para os fantasmas humanos, é benévola para as coisas. Dá-lhes textura, cor, sombra, volume, distância. Atira-as para trás para lhes dar perspectiva, chega-as à frente para as tornar a duas dimensões, superfícies granuladas ou embaciadas, conforme o tempo e, de novo, a luz.

Daquelas caixas saíram as 30 imagens de fotografia estenopeica aqui reproduzidas. Com a arte fotográfica do António podemos assim «ver» os espaços do Arquivo e da Biblioteca de forma diferente. Com a luz.”

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António Campos Leal faz uma história breve das descobertas que levaram à construção por Kepler, em 1620, da primeira ‘câmara obscura’, princípio da câmara estenopeica, “aquela que, não possuindo qualquer elemento óptico, permite que se forme uma imagem num plano colocado no trajecto interceptado por um orifício (estenopo). Esse orifício substitui dessa forma o sistema óptico a que estamos habituados e que costumamos designar por objectivas. Pensar-se que a objectiva é essencial para a formação da imagem é um erro.”

O Autor escreve um interessante ensaio:

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A representação do tempo pela luz

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Mas como se associou esta forma de produzir imagens fotográficas à representação da Biblioteca/Arquivo de José Pacheco Pereira? De forma evolutiva e em sintonia com uma aproximação ao meu próprio discurso da representação fotográfica. Inicialmente recolhi um conjunto de imagens da forma mais convencional e utilizando uma câmara digital. O envolvimento do espaço e o percurso da luz nesse espaço foram gradualmente alterando a minha leitura do mesmo. Entendo a Biblioteca/Arquivo como uma forma de preservar o pensamento. Logo na fase inicial, e ainda com a câmara digital, o desafio foi encontrar essa relação entre a luz do pensamento e a luz que incidia nas suas superfícies, percorrendo livros, estantes, papéis, objectos e mesas. As fotografias aqui apresentadas são uma representação desse diálogo.

Senti que tinha de lhe adicionar a representação do tempo. E nada melhor do que usar a fotografia estenopeica para que tal acontecesse. Este tipo de fotografia obriga a tempos de exposição longos, que podem ir de alguns minutos a várias horas. Dessa forma, poderia marcar o percurso do tempo. O processo torna-se notório na fotografia em que o relógio aparece sem a marcação dos ponteiros. Nesse caso, as seis horas que durou a exposição do papel à luz tornaram impossível a visão dos ponteiros em movimento.

(…) Por vezes vê-se o pó, mas não é o pó essa mesma representação do tempo? Noutras situações, imagens quase como fantasmas replicam de forma menos intensa a representação do original. Há um agitar dos elementos representados. Uma portada de janela que alguém abriu ou fechou. Um deslocar da câmara devido a uma corrente de ar mais intensa. Poderei dizer que o que dificultaria a concretização de uma fotografia mais «realista» era para mim uma oferta natural.

O tempo foi muitas vezes representado pela casualidade, pelo acaso. Mas foi por uma casualidade que o trabalho teve início.”

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António Campos Leal, Luz nos Livros, 2015

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António Campos Leal (Peso da Régua, 1952). Químico por formação, fotógrafo profissional e professor de fotografia. Realizou várias exposições individuais e participou em exposições colectivas. É autor dos blogues «Buracodeagulha» e «Escrita Fotográfica».

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Pode conhecer melhor a Ephemera aqui.

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