ANTÓNIO LEITÃO MARQUES, JARDIM DE NAMORADOS. A ARTE DE CASAR EM MOÇAMBIQUE, 2018

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António Leitão Marques

Jardim de Namorados. A arte de casar em Moçambique

Fotografia e texto: António Leitão Marques

Coimbra: Edição do Autor / Maio . 2018

Português e inglês/  / 72 págs., não numeradas

Brochura

ISBN: 9789892084497

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António Leitão Marques é médico cardiologista e viveu cinco anos em Maputo, trabalhando no hospital. A paixão da fotografia, que tem há muitos anos, levou-o a testemunhar muitas cerimónias de casamento, em especial nos jardins ou nas praias da cidade, as quais constituem um ambiente único, com os cortejos, com a chegada dos noivos, as danças dos corteses que os acompanham e ainda a enorme criatividade e colorido com que quase todos se vestem para a festa.

No ensaio que integra a obra, Leitão Marques fala desta vivência:

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Os casamentos populares em Moçambique são um ritual surpreendente.

Para poderem realizar esta cerimónia muitos casais esperam anos, até conseguir juntar os meios necessários para tal.

Antes do casamento propriamente dito, há ainda o lobolo, uma cerimónia tradicional de grande Importância na cultura africana: a família da noiva define as condições que o noivo terá de reunir para poder levar aquela que deseja para sua esposa. A importância da mulher é muito grande, pois ela é a estrutura fundamental da família e desde logo a procriadora.

O lobolo implica não só um valor monetário como também, muitas vezes, a compra das próprias roupas que a família da noiva irá vestir no casamento.

Nas comunidades rurais a negociação envolve quase sempre cabeças de gado, um bem valioso nessas zonas.

Esta tradição de lobolar a noiva, de pagar por ela, está ainda presente em várias culturas africanas, tendo diferentes nomes consoante os países. Em Angola, por exemplo, o lobolo é conhecido pelo alambamento e muitos casamentos ficam-se apenas por esta cerimónia, tal é a sua importância.

A necessidade de cumprir as exigências da família da noiva faz com que a cerimónia oficial do casamento seja marcada só após o lobolo ter sido aceite. Provavelmente esta é uma das razões por que muitas vezes o casamento tem lugar já numa fase tardia da vida. Reunir as condições financeiras para o lobolo, para o casamento oficial e para a festa que se segue, é um esforço importante.

É frequente o casamento ocorrer quando já existem filhos ou mesmo netos mas continua a ser uma necessidade absoluta, sendo ele que definitivamente legitima a família perante a comunidade.

Normalmente o ato em si envolve muitos convidados e tem diversas solenidades.

A festa realiza-se habitualmente ao longo de vários dias com sessões em casa do noivo e da noiva, para além, naturalmente, das cerimónias oficiais no registo e na igreja consoante a tradição de cada região.

Mas um dos aspetos mais fascinantes que despertou a minha atenção é a presença dos noivos nos jardins públicos ou na praia para serem fotografados.

A fotografia continua a ser o grande testemunho do evento!

A imagem tem um papel surpreendente de afirmação e de consolidação do ritual. O cuidado que os fotógrafos africanos põem neste ato, com a ajuda de todos os presentes, padrinhos, família e amigos, é notável. Os grupos são formados com muita atenção, para que ninguém fique de fora da fotografia.

Há que encenar, além disso, todas as poses tradicionais independentemente da idade dos noivos, o que nem sempre é fácil, pois muitos já perderam alguma juventude ou ganharam peso a mais. Mesmo assim, há que representar tudo e não esquecer nenhum momento desta grande cerimónia: a fotografia de grupo, a noiva ao colo do noivo, o casal deitado na relva e, claro, sempre o beijo afetuoso repetido inúmeras vezes, a pedido dos convidados à sua volta.

Há algo de divertido e ingénuo ao mesmo tempo em todas estas poses, com gestos tão surpreendentes que as personagens parecem estar a participar num filme que já não é do seu tempo.

Para aqueles que são mais velhos, há como que um regresso ao passado, uma oportunidade de viver uma cena importante da sua vida, que tinha ficado adiada.

Mas todos o fazem com grande convicção e alegria.

Por vezes confundem-se no mesmo espaço os casamentos com a comemoração das bodas de oiro de algum casal mais idoso que casou cedo. É tradição o ritual repetir-se nesta renovação de votos, voltando a festejada a vestir o seu traje de noiva e ir ao registo e ao jardim para as fotografias tal como da primeira vez.

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A presença nos espaços públicos, no Jardim dos Namorados e muito em especial no grande jardim botânico Tunduru onde aos sábados, chegam a cruzar-se dezenas de cortejos com os noivos à frente, não inibe em nada essa alegria, tornando a festa ainda mais intensa e participada.

O colorido é imenso e as roupas para a festa foram preparadas com todos os detalhes, procurando os convidados ser originais.

Nas famílias mais pobres sente-se que alguns estão a vestir pela primeira vez um fato ou uma roupa mais vistosa.

A importância da fotografia para todos é visível e isso facilitou imenso este trabalho documental que pude fazer. Senti muitas vezes que havia algum orgulho por parte dos noivos e das famílias em estarem a ser fotografados por um estrangeiro, que assim os ia levar para mais longe, ampliando a importância da sua festa.

Por isso, tantas vezes fui simpaticamente convidado a acompanhá-los até ao fim das cerimónias!

Os próprios fotógrafos oficiais abriam o seu espaço para um desconhecido num convívio amistoso, trocando impressões sobre o melhor ângulo para algumas cenas.

Foi nesse bom ambiente que estas imagens foram feitas e muito agradeço a todos os que me deixaram roubar-lhes um pouco da sua festa e viver por dentro a arte de casar dos moçambicanos!

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Maputo, 2018

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António Leitão Marques, Jardim de Namorados. A arte de casar em Moçambique, 2018

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A exposição “Jardim de Namorados. A arte de casar em Moçambique”, de António Leitão Marques, esteve em exposição na Galeria Pinho Dinis da Casa Municipal da Cultura, na R. Castro Matoso, em Coimbra, de 09 de janeiro a 22 de fevereiro de 2020.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2020

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António Leitão Marques nasceu em Quelimane, Moçambique. É médico cardiologista, em Coimbra, e fotógrafo amador.

EXPOSIÇÕES COLETIVAS E INDIVIDUAIS

Itinerários de Fronteira, Encontros de Fotografia, 1994; Livro de Viagens, Centro Cultural de Belém, junho, 1998; Língua Franca, 16.ºs Encontros de Fotografia, Coimbra, 1999; Cruzeiro do Sul, Exposição itinerante, Centro Português de Fotografia, 2002; Moçambique, Labirinto da Saudade, Instituto Camões, Maputo, 2010; Índia, Ruas de Passagem, Os Médicos Fotógrafos, Instituto Camões, Maputo, 2014; Outras Áfricas, Centro Cultural Brasil-Moçambique, Maputo, 2016; Jardim de Namorados, A Arte de Casar em Moçambique, Santa Maria Maior, Lisboa, 2018.

COLEÇÕES

Centro de Artes Visuais — Coimbra; Centro Português de Fotografia — Porto

PUBLICAÇÕES

Itinerários de Fronteira, Encontros de Fotografia, 1994; Livro de Viagens: portuguese photography since 1854, coletânea editada durante a Feira de Frankfurt. 1997;         Dia di Bai, coletânea editada pelo CAV e jornal Público, 2003; Jardim de Namorados, A Arte de Casar em Moçambique, Santa Maria Maior, Lisboa, 2018.

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Adenda

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Soube desta exposição por acaso. Estava em Coimbra e fui à Casa Municipal da Cultura, era o último dia. Fiquei surpreendido e muito satisfeito. Soube que esta exposição esteve em Lisboa, na Galeria de Exposições da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, entre 31 de maio e 6 de julho de 2018, por ocasião da qual foi editado este livro, mas na ocasião não consegui visitá-la.

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Anúncio da exposição em Lisboa, 2018

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Conheci o António Leitão Marques em Coimbra, em 1985, no Centro de Estudos de Fotografia. Já era médico, fazia fotografia e mostrava os seus trabalhos, sobretudo a preto e branco. Foi a ele que, em 1985 ou 1986, comprei o meu ampliador, um Opemus 4, com objetiva Meopta 50 mm, para o qual adquiri mais tarde uma objetiva Nikkor. Foi com ele que imprimi as minhas fotografias, a preto e branco, claro. De início, contava o tempo pelo ponteiro dos segundos do meu relógio de pulso, pousado sobre a prancheta do ampliador, depois contando-os em silêncio, por fim com um relógio temporizador que automaticamente desligava o ampliador. Está parado há quase 20 anos, devido ao pouco tempo (e ao avanço tecnológico), mas ainda o conservo, com muito carinho.

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