NOÉ SENDAS, INVALID PASSWORDS

Exposição integrada no ciclo Museu das Obsessões, para ver em Coimbra no CAV – Centro de Artes Visuais, de 15 de fevereiro a 19 de abril de 2020.

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O CAV apresenta uma exposição retrospetiva da obra de Noé Sendas, desde meados da década de 1990 até à atualidade: instalações, construções, composições, onde a imagem fotográfica (fixa, pontualmente em movimento) está, de modo geral, presente, ocupam a quase totalidade do piso térreo. A parede de fundo acolhe as séries fotográficas Vertical Seas (2017) e Crystal Girls (2009 – ): as fotografias, fotomontagens, sucedem-se em diferentes formatos e molduras, numa sequência em que cada uma adquire, assim, o seu estatuto de obra individual e autónoma, apesar de integrar a série.

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Sobre a exposição podemos ler na folha de sala:

O título Invalid Passwords – com uma natural carga deceptiva associada à ideia de impossibilidade de acesso — sumariza o acto, a tentativa, a necessidade de aproximação a um determinado conteúdo, através do recurso à memória, pelo processo da revisitação. Conceber uma exposição a partir de um corpo tão vasto de trabalho como é o de Noé Sendas constitui-se como uma tarefa que, no seu decurso, não tem outra possibilidade se não a assumpção do confronto com a sua própria impossibilidade. Um acesso em diferido, fora do seu tempo, e por isso inválido, mas com a possibilidade de criação de um novo território de leitura assente na sua dimensão prospectiva.

Tomando o espaço do CAV como um grande open space — no qual as obras possam conviver, dialogar e confrontar-se numa relação directa com a arquitectura, optando por não definir um percurso de circulação, permitindo sim que o espectador defina o seu próprio percurso a partir dos processos de empatia (ou estranheza) que vai estabelecendo com as obras e dispositivos apresentados — procurou-se dar lugar a uma possibilidade de experiência e de interacção com as várias obras e perpetradas no espaço.

Com uma tipologia antológica, a exposição apresenta uma selecção de trabalhos pré-existentes que atravessam toda a carreira do artista — alguns mesmo nunca antes mostrados publicamente — a par de um pequeno grupo de obras novas concebidas especificamente para o contexto da exposição.

Com um enorme fascínio pelos mecanismos de construção das imagens e pelo seu poder magnético, poético, vocativo e especulativo (mais do que comunicacional), Noé Sendas tem manifestado um interesse e desenvolvido em torno de um conjunto de temáticas particularmente caras ao universo imagético. Fazendo uso de excertos de filmes referenciais, ou de filmografia série B, ou de material videográfico originalmente recolhido por si — que manipula através de processos de edição mais ou menos convencionais e aos quais adiciona camadas de som oriundas de contextos distintos — o artista constrói novas ficções baseadas na produção de pequenos efeitos visuais que não somente convocam o olhar do espectador mas lhe permitem o acesso a uma consciência da sua presença e da sua condição enquanto tal. São disso exemplo as obras Ophelia (2003), Pursuit and Despair (1999), Eye Ghost (2004), Eye Host (2004) e Room II — Broken Crystal (2007), que, alvo de pequenas e subtis manipulações, reforçam o interesse pela ideia da alteração enquanto procedimento metodológico gerador.

As séries fotográficas Vertical Seas (2017) e Crystal Girls (iniciada em 2009 e ainda em desenvolvimento) reforçam este interesse pela manipulação e pelo território especulativo e ficcional que pode construir-se a partir dos processos de edição. Fazendo uso da colagem e da justaposição de elementos originários de contextos diversos, constrói jogos formais e mecanismos de ilusão que desafiam o olhar do espectador e colocam estas imagens numa dimensão espacio-temporal indefinida fazendo-nos percorrer, através delas, universos históricos e cronológicos que interpelam o real.

A partir de um questionamento em torno da similitude e da diferença, Noé Sendas tem desenvolvido uma abordagem à ideia da réplica, da cópia ou da duplicidade através do recurso a dispositivos de duplicação, como os espelhos, os vidros ou os ecrãs — Dislocation (1995) e Dislocation II (1997) — através da replicação tridimensional do seu corpo físico no espaço ou da evocação deste — Step (Porto) (2000), Never Never Ever (2001), Esquisito, Espantoso (Calças) (2017) — ou da apresentação de representações duplicadas — Old Studio (pair) (2018-2020), Old Studio (spare) (2018-2020), ou a muito surpreendente pequena pintura (da série) A Distancia (1991-1992) que estabelece ela própria uma interessante dicotomia com a obra Pursuit & Despair (1999).

Uma noção de teatralidade é transversal a toda a obra de Noé Sendas, particularmente numa dimensão de imobiIidade e inacção que contraria a própria ideia de teatralidade. As várias figuras que povoam o seu imaginário e se desmultiplicam e materializam no espaço expositivo (tanto sob a forma de imagem, quanto sob a forma de escultura, ou mesmo na sua condição espectral e fantasmática), estabelecem-se no espaço como personagens de uma acção indefinida. Imóveis, aguardam, esperam, estão simplesmente ali, reforçando em nós a ideia da sua presença, não sendo alheia à sua criação a influência beckettiana que tem vindo a povoar o universo do artista desde o início. Falamos de um isolamento consciente, uma espécie de estado de solidão acompanhada que nos recorda muito o ambiente criativo (ou o estado mental) em que Noé Sendas propositadamente se coloca ou que conscientemente provoca no contexto do seu atelier.

A série de colagens em papel milimétrico que cobre grande parte das paredes de uma das salas de exposição mostra-se-nos como um eco desse estado provocado, desse momento em que, solitariamente, o artista se coloca perante si, perante as suas dúvidas e hesitações, as suas tomadas de decisão, os seus erros e correcções. Desenvolvidas ao longo de toda a sua carreira, em paralelo com a criação das várias obras, alvo de constantes intervenções e alterações, funcionam como ferramentas, como mapas processuais ou como as verdadeiras chaves de acesso evocadas no título da exposição.  Apresentam-se-nos aqui, generosamente, dando nota do quanto o processo é, tanto no caso da obra quanto no caso da exposição, tão ou mais relevante do que o seu resultado.”

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2020

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“Invalid Passwords” de Noé Sendas, é uma exposição integrada no ciclo Museu das Obsessões, com curadoria de Ana Anacleto, patente em Coimbra, no CAV – Centro de Artes Visuais, no Pátio da inquisição, de 15 de fevereiro a 19 de abril de 2020.

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Noé Sendas nasceu em Bruxelas (1972), vive e trabalha entre Berlim, Madrid e Lisboa.

Com um trabalho absolutamente singular — que se distribui por incursões nos vários territórios tipológicos que constituem a actuação dos artistas contemporâneos, desde o vídeo, à fotografia, desde a escultura, à instalação, passando também pela prática do desenho e da colagem como valorização do momento projectual – Noé Sendas vem desenvolvendo, desde meados da década de 1990, uma consistente carreira nacional e internacional. Com recurso, sobretudo a material de arquivo e a uma forte relação com as estratégias de construção de sentido próprias dos universos da literatura e do cinema, tem vindo a explorar processos narrativos a partir de pequenas intervenções formais ou processuais perpetradas sobre imagens pré-existentes. Interessa-lhe a exploração dos modelos expositivos e dos dispositivos de apresentação enquanto mecanismos que testam a capacidade perceptiva do espectador.

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O ciclo de exposições “Museu das Obsessões” assente numa ideia de liberdade e de transversalidade, recupera um conceito criado por Harald Szeemann no início dos anos 70, que pretendia albergar todo o tipo de iniciativas decorrentes das práticas artísticas suas explorando de forma livre (fora dos constrangimentos institucionais) todas as suas possibilidades de apresentação.

Assinalando o carácter de especialidade do CAV — enquanto espaço de apresentação, estudo e reflexão sobre as práticas artísticas ligadas ao uso e à criação da imagem (e particularmente da fotografia) — e valorizando grandemente a relação histórica que tem com os Encontros de Fotografia, pretende-se com o referido ciclo recriar um espírito de liberdade, promovendo o cruzamento entre as várias áreas disciplinares, dedicando especial atenção aos artistas cuja prática se afirma numa relação decorrente das questões da imagem mas cuja actividade se localiza num território de fronteira, com manifestações formais e conceptuais que vão para além das tipo!ogias disciplinares (fotografia, vídeo, escultura, pintura, performance, etc).

Interessam-nos as particularidades, as idiossincrasias e as mitologias individuais, e é neste sentido que propomos um conjunto de exposições dedicadas a artistas (nacionais e internacionais) cuja prática se tem mostrado definidora de uma relação extraordinariamente idiossincrática tanto com a fruição da imagem quanto com a sua produção.

O ciclo de exposições “Museu das Obsessões” constitui-se então da apresentação de oito exposições no ano de 2020, subordinadas ao tema do Espectro e oito exposições no ano de 2021, subordinadas ao tema da Vertigem. Temas comuns à história da imagem, à história da produção fotográfica, ao pensamento imagético e ao próprio acto criativo.

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