NUNO CORREIA, A BORDO

Exposição no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa – Palácio Pimenta, ao Campo Grande, até 1 de março de 2020.

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Partindo da obra Lisboa, Livro de Bordo. Vozes, olhares, memorações, do escritor José Cardoso Pires, Nuno Correia embarca pela cidade, vê e dá-nos a conhecer a ‘sua’ Lisboa.

É um olhar intimista, quase cinematográfico, permitindo uma leitura da obra sem trair o seu texto e o seu espírito. Permitindo, portanto, também, uma reedição da obra (com fotografia de Nuno Correia – se é permitida a sugestão –; a primeira edição, Lisboa: EXPO’98 e Publicações Dom Quixote, 1997, juntava ao texto de Cardoso Pires a fotografia de José Carlos Nascimento).

É a bordo do Pavilhão Preto que fazemos esta viagem. Carlos Carvalho, curador da exposição, escreve:

O trabalho que Nuno Correia agora nos revela tem como pretexto o livro de José Cardoso Pires “Lisboa — Livro de Bordo”.

A proposta do artista expõe-nos a um invulgar sentido cinematográfico, não repentista nem descritivo, antes pelo contrário, intimista e reflexivo que, sem rejeitar o texto que o pretextou, demonstra a louvável atitude de, perante o livro de Cardoso Pires, optar pelo desenvolvimento pessoal do guião em oposição declarada à opção mais fácil e simplista que seria a ilustração.

Mais do que um roteiro, o livro de Cardoso Pires é pois um guião de que o artista se serve para com inteira liberdade e desenvoltura nos dar a ver a cidade de que se apropria, por onde desfilam os lugares de memória do escritor enquanto deambulador curioso e cúmplice das personagens que a urbe gerou e a prosa integrou no imaginário colectivo.

A toponímia de referência do escritor é objecto de apurada selecção por parte de Nuno Correia, tendo em vista a demarcação da imagem mental através do sublinhado simbólico a que procede a linguagem visual, num fascinante trabalho de identificação com os lugares que o texto propõe e o artista corrobora, não obstante estarmos na presença de dois campos distintos, palavra e imagem, que tantas vezes divergem como outras tantas convergem.

As fotografias do autor constituem-se como imagens-tempo de um momento ou lugar do qual apenas presenciamos o durante e herdamos um antes e um depois para intuir ou imaginar, ancorados que estamos em Lisboa, cidade plural e multicultural, ponto de inúmeras partidas e chegadas. Um território mapeado por imagens através das quais nos perdemos neste labirinto apresentado como cenário ideal para o registo de situações e personagens sequestrados nos fotogramas dispersos do “filme” que o artista nos propõe enquanto modelo narrativo que se autonomizou do texto que o originou, atravessando os dias e as noites reflectidos pela magia da luz da cidade que se diz branca apesar do colorido presentificado.

Em “A Bordo”, Nuno Correia aposta por inteiro na imagem autónoma em prejuízo da sequência fílmica, não obstante subsistir o intuito serial vincado pela abordagem, quer à temática, quer à simbologia presente em todo o trabalho e reforçada pelos formatos, suportes e escalas adoptados para a captação e materialização das imagens.

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António Bracons, Aspetos da exposição “A Bordo”, de Nuno Correia, 2020.

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A exposição de Nuno Correia, “A Bordo”, é uma homenagem a José Cardoso Pires, está patente no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa – Palácio Pimenta, ao Campo Grande, de 24 de janeiro a 1 de março de 2020.

Integra a exibição do filme “José Cardoso Pires – Diário de Bordo”, do realizador Manuel Mozos, dia 29 de fevereiro, às 17:00, seguida de conversa com o fotógrafo e o realizador. Este filme foi filmado no ano em que o escritor recebeu o Prémio Pessoa, em Lisboa e na Caparica, o refúgio do escritor, no Outono e Inverno de 1997.

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Nuno Correia é natural de Abrantes, vive e trabalha na região de Lisboa. Sempre se interessou por imagem e cinema, tendo trabalhado estas duas formas numa perspetiva interativa como professor e investigador (Universidade Nova de Lisboa).

Em 2011, renovou o interesse na prática da fotografia e participou num conjunto de ações de formação (Ar.Co, APAF, MEF e SNBA).

Participou em exposições coletivas no Mercado do Forno do Tijolo, SNBA, Galeria RA7, Xuventude de Galiciat Galeria Monumental (Lisboa) e Galeria Municipal Artur Bual (Amadora). Realizou duas exposições individuais, na Xuventude de Galicia e na Biblioteca Municipal José Cardoso Pires, em Vila de Rei.

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José Cardoso Pires nasceu em 2 de outubro de 1925, em São João do Peso, Vila de Rei, mas mudou-se para Lisboa ainda pequeno, cidade onde morou e onde morreu, em 26 de outubro de 1998.

Escreveu os primeiros contos aos vinte anos, trabalhou em vários empregos, que não conseguia manter, inscreveu-se na Marinha Mercante, que abandonou, depois de acusado de indisciplina, e cursou matemática que não acabou.

Autor de dezoito livros, publicados entre 1949 e 1997, José Cardoso Pires não se identificou com nenhum grupo nem corrente, nem se fixou em nenhum género literário, tendo sido sobretudo romancista.

O movimento neorrealista foi aquele em que permaneceu durante mais tempo, até ao 25 de Abril, o que justificava com a oposição ao regime autoritário.

José Cardoso Pires frequentou também os grupos surrealistas, no início da década de 1940, e foi influenciado pela estética de Hemingway e pela narrativa cinematográfica.

Vencedor de vários prémios literários, o escritor viu muitas das suas obras serem adaptadas ao teatro e ao cinema, nomeadamente por Luís Galvão Teles (“A Rapariga dos Fósforos”), Lauro António (“Casino Oceano”), Eduardo Geada (“Ritual dos Pequenos Vampiros”), José Fonseca e Costa (“Balada da Praia dos Cães”) e Fernando Lopes (“O Delfim”).

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