PAOLO LONGO, O CAMINHO CHINÊS

Exposição no Museu do Oriente, em Lisboa, de 29 de novembro a 23 de fevereiro de 2020.

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Paolo Longo, jornalista, documentarista e fotógrafo nascido em Itália e atualmente a residir em Portugal, mostra no Museu do Oriente um conjunto de 56 fotografias da China dos últimos 30 anos, anos de mudanças irreversíveis. O país mais populoso do mundo, moderniza-se, cresce, desenvolve-se, passa de rural a urbano. Surgem e crescem as cidades, as pessoas mudam dos uniformes para a moda, a pobreza dá lugar à riqueza e ao luxo…

Ao longo da exposição, Longo passa pela paisagem, pelas pessoas, pelo urbano, pelo religioso, pela cultura, pelo comercial, pelas tradições, pela vivência política. De antes e, sobretudo, dos últimos anos.

Sobre a série, Paolo Longo escreve:

Os orientais antigos, e muitas vezes sensatos, diziam que existem três tipos de viajantes. Há os comerciantes, que viajam com os pés e são movidos pelos seus interesses, há os sábios que viajam com os olhos e querem descobrir, conhecer, entender, e, finalmente, há os que viajam com o coração. Estes viajam para descobrir os homens e as mulheres das terras que visitam, as histórias das suas vidas, as suas verdades.

A exposição “O Caminho Chinês”, é uma “viagem do coração” na vida quotidiana do povo chinês na época do boom económico e da grande transformação económica, social e cultural.

Quando cheguei à China, num gélido dia de janeiro de 2004, para começar a trabalhar como correspondente da RAI, a televisão nacional italiana, tinha uma imagem da transformação da China baseada nos grandes sinais económicos e políticos. Um sexto da população do planeta passava pela maior experiência política e económico-social da História. Comecei então a olhar mais profundamente para o quadro completo e a descobrir não “o povo chinês”, mas “os chineses”, e comecei a compreender o que havia lido nas páginas de Lu Xun, um grande escritor chinês do século XX.

A esperança, escreveu Lu Xun, é como um trilho num campo. De início não existe trilho, mas quando alguém começa a atravessar esse campo, lentamente começa a formar-se um caminho.

Muitos caminhos têm sido abertos na China nos últimos anos.

Os jornalistas que trabalharam na China na década de 1960 falavam de como os chineses eram todos iguais. Durante 30 anos, desde a vitória da revolução até à morte de Mao, o país habituou-se a pensar em termos do coletivo, grupos de trabalho, movimentos de massas. Eu vi uma China diferente, uma onde a história da comunidade se dissolve numa infinidade de histórias individuais, de vitórias e de derrotas, de riqueza e de pobreza, de descobertas, de batalhas, de desperdício, de protestos, mas sempre histórias de indivíduos debatendo-se com um novo caminho que se abria.

Ao fazer a seleção de fotografias eliminei tudo o que estava relacionado com a “crónica” e tudo o que tinha o sabor do exótico, do “Extremo e Misterioso Oriente”.

Cada fotografia torna-se, portanto, numa história que faz referência a outras histórias ou que vive por si mesma. Histórias de pessoas, histórias verídicas, imagens do quotidiano na China do boom económico. A vida do dia a dia que à primeira vista pode parecer enfadonha, mas que encerra a política, a história, a cultura, as emoções, os desejos e os segredos de uma sociedade.

A sequência de imagens inicia com aquilo que resta da China comunista (Nanjiecun, a última aldeia comunista) e o mito de Mao, transformado num ícone sem cabeça ou numa personagem passível de ser imitada, como Elvis; continua através das ruínas das cidades imperiais, pelas vielas de Pequim, pela mítica cidade de Lijiang com os seus telhados de lousa; olha para a metrópole futurista projetada no século XXI e para os seus habitantes, que recordam muito pouco do passado e olham para o Ocidente para encontrar um caminho chinês para a modernidade; mistura o passado e o presente nos jovens da nova classe média que se disfarçam para serem fotografados como protagonistas da antiga ópera chinesa, tal como fazem os camponeses de uma aldeia não muito longe de Pequim, que seguem dos campos para a caraterização, e daí para o palco.

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António Bracons, Aspetos da exposição de Paolo Longo, “O caminho chinês”, 2020

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Ao longo da exposição, o autor, através de alguns textos fala sobre as grandes alterações do país:

A vida dos chineses no tempo das grandes reformas. Poderia ser este o subtítulo desta exposição que apresenta fotografias captadas entre 2004 e 2015, isto é, durante o período mais extraordinário daquela grande experiência económica e social iniciada logo após a morte de Mao.

Naqueles anos, de potência regional, a China torna-se uma potência global, de país prevalentemente agrícola torna-se um país cuja maioria dos cidadãos vive nas cidades, de ter um rendimento per capita anual de 2600 dólares para os 15 mil atuais. Tudo isto enquanto crescia uma classe média e os consumos se tornavam um motor importante de toda a economia. Uma capacidade e um desejo de crescer que não se detiveram diante de nenhum obstáculo, e que pelo caminho provocaram uma crise ambiental gravíssima.

A modernização económica está também a guiar a mudança social e cultural, redirecionando o sistema de valores: aquilo que outrora era importante, hoje tem pouca ou nenhuma presença na nova China. Os jornalistas que trabalhavam na China há trinta anos falavam sempre de como todos eram iguais, com os seus casacos azuis ou verdes e com as suas infinitas bicicletas. Hoje, na China, a impressão que se tem todos os dias é que o relato de uma nação se está a despedaçar em mil histórias individuais, em mil relatos.

A exposição olha para a grande mudança da perspetiva dos seus protagonistas, em alguns casos vítimas, e conta a vida nos velhos bairros que ainda dominam as cidades, mas também o nascimento de uma juventude moderna, não diferente das cidades ocidentais; passa dos arranha-céus às barracas, identifica a crescente necessidade de espiritualidade ao fim de trinta anos de crescimento económico, a modernidade e a antiguidade da China.

Nestes anos a China mudou profundamente e, com a China, mudou o mundo. Já não é possível falar de economia, política, cultura sem ter em conta a presença chinesa na comunidade global. Ninguém pode olhar para o futuro sem ver a China no centro e na primeira fila.

Os chineses estão na primeira fila desta exposição construída através de fragmentos de diversas reportagens e que viaja desde aquilo que resta da China comunista, Nanjiecun, a última viagem comunista, e do mito de Mao, transformado em ícone sem cabeça, passa pelos avanços das cidades imperiais, os hutong de Pequim, a mítica Lijiang com os seus telhados de lousa, debruça-se sobre as metrópoles futuristas, todas projetadas no século XXI, e sobre os seus habitantes, que do passado recordam muito pouco e olham para o Ocidente para encontrar um caminho chinês para a modernidade e funde passado e presente na nova China.”

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Em qualquer país europeu duzentos mil habitantes fazem uma cidade. Em Pequim fazem um bairro.

A zona central, a zona histórica, a mais antiga, já não é um bloco compacto, mas várias ilhas urbanísticas difusas numa cidade que já não precisa delas.

Os bairros antigos de Pequim, um labirinto de ruas e ruelas, pátios e portões degradados, frequentemente muito degradados, chamam-se Hutong, palavra mongol que indica os poços à volta dos quais eram construídos. Inicialmente os Hutong eram organizados por pátios, cada família um pátio, algumas famílias mais ricas tinham mais pátios, quando a família se alargava criavam-se separações, mas a estrutura mantinha-se unitária. Depois veio a Revolução, onde havia uma família chegaram três, quatro, até mais, ergueram-se muros.

Nunca foi fácil viver nos Hutong: a falta de esgotos, muitas vezes de água corrente, a promiscuidade forçada, a multidão concentrada, faziam deles um pesadelo, necessário para muitos, insubstituível para outros, sobretudo os idosos. Depois chegaram os novos planos urbanísticos, as vagas sucessivas de demolições e, em alguns casos, restruturações.

Muitos dos lugares destas fotografias, uma parte da História da capital chinesa, já não existem.”

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A República Popular da China é oficialmente um estado ateu, diz a Constituição.

Os chineses têm mil divindades às quais queimam incenso e rezam, mil religiões diferentes, mil modos de exprimir a sua nova vontade de espiritualidade.

O governo reconhece oficialmente cinco religiões: Budismo, Taoismo, Islamismo, Protestantismo e Catolicismo. Contudo, centenas de milhões de chineses seguem uma sexta religião, as superstições locais, feitas de casamentos entre cadáveres, cerimónias rituais secretas, obediência a dizeres antigos e assustadores, dinheiro falso queimado para acompanhar os mortos no além.

O crescimento desenfreado empurrou a sociedade chinesa para uma procura exclusiva do lucro material. Antes das Reformas, o país tinha um adesivo que era a ideologia comunista, o coletivismo. Hoje isto já não existe. Este vazio repentino levou muitos chineses a procurar diversos sistemas de valores que possam ajudá-los a encontrar novos equilíbrios e, em muitos casos, o vazio foi preenchido pela religião. Entre as oficiais, a mais difundida, sobretudo entre os jovens da classe média urbana, é o Budismo.”

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A exposição de Paolo Longo, “O caminho chinês”, está patente no Museu do Oriente da Fundação Oriente, na Av. Brasília, Doca de Alcântara (Norte), em Lisboa, de 29 de novembro a 23 de fevereiro de 2020.

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Sobre si, refere Paolo Longo:

Comecei a fotografar aos dezassete anos, com uma máquina emprestada, uma Pentax com 35 mm. Talvez devido a este início, quase todas as fotografias que fiz desde então são muito próximas. Olho sempre os meus protagonistas diretamente nos olhos enquanto os fotografo.

Nunca mais deixei de fotografar, persegui as diversas correntes da fotografia, arte, retratos, reportagem, preto e branco, cor e, por fim, percebi que continuava, apesar de tudo, a querer ser um cronista, contar histórias através das imagens porque a fotografia é uma escrita que não precisa de tradução, é capaz de transmitir emoções e de obrigar o espetador a dar asas à sua própria imaginação.

Nunca renunciei à fotografia, nem quando trabalhava como correspondente no estrangeiro para a rádio e a televisão, nos Estados Unidos, no Médio Oriente e por fim na Ásia.

Ao início, naturalmente, usava película, mas agora passei para o digital e é frequente dar por mim a usar também o telemóvel, com a sua crescente capacidade de se tornar máquina fotográfica, e assim, de mudar, mais uma vez, a fotografia.

Ainda tenho a primeira câmara que pude comprar, uma Nikon FTN com uma 35 mm, ícone pop de uma época que está a acabar.

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