A PROPÓSITO DE TOPOGRAFIAS RURAIS, DE ALBERTO CARNEIRO

Exposição em Lisboa, na Galeria Quadrum, até 23 de fevereiro de 2020.

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A Galeria Quadrum, nos Coruchéus, em Alvalade, Lisboa, apresenta uma exposição a propósito de “Topografias Rurais”, de Alberto Carneiro, reunindo além daquele trabalho e de outros do autor, projetos que se aproximam, de três artistas de diferentes gerações e origens: Ana Lupas, Lala Meredith-VuIa e Claire de Santa Coloma, com curadoria de Tobi Maier, de 8 de dezembro de 2019 a 23 de fevereiro de 2020.

Um polo da exposição, com desenhos de Alberto Carneiro, esteve presente na Galeria Diferença, de 8 de dezembro de 2019 a 8 de fevereiro de 2020.

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Alberto Carneiro, Arte ecológica – Operação estética em Vilar de Paraíso, 1973. Fotografias e tinta-da-china sobre papel. Col. Galeria Alvarez. – Operação estética em Vilar de Paraíso, 1973. Fotografias e impressão sobre papel (76 elementos). Col. Fundação de Serralves — Museu de Arte Contemporânea. Porto. Aquisição em 1999

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Escreve o curador, Tobi Maier:

As notas de Alberto Carneiro para um manifesto da arte ecológica, foram originalmente redigidas como entradas do seu diário, entre dezembro de 1968 e fevereiro de 1972. Um período temporal num passado distante, pré-Chernobil e muito antes de o termo «permacultura» ter sido cunhado ou de os efeitos das aceleradas alterações climáticas começarem a ser sentidos. Numa altura em que testemunhamos uma crescente urbanização, os artistas procuram no meio rural uma fonte de inspiração. Topografias Rurais apresenta analogias entre a obra de Alberto Carneiro e a de três artistas de gerações e contextos geográficos diferentes: Ana Lupas, Lala Meredith-VuIa e Claire de Santa Coloma.

A exposição encontra-se dividida em duas secções, cobre uma variedade de suportes utilizados por Alberto Carneiro. No ano em que celebra o seu quadragésimo aniversário, a Cooperativa Diferença (de que Alberto Carneiro foi sócio e membro do núcleo fundador e onde realizou exposições individuais em 1979 e 1981) apresenta uma série de desenhos a grafite produzidos no final da carreira do artista e que nunca antes foram expostos. Estes trabalhos aludem às imediações do seu atelier, bem como às paisagens montanhosas do Norte de Portugal. São também apresentados três trípticos elaborados a partir do esmagamento, sobre papel, de pétalas de flores colhidas pelo artista no seu jardim em São Mamede do Coronado, perto do Porto.”

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Alberto Carneiro, Cartazes e programas de exposições realizadas na Galeria Quadrum, 1975 a 1983.

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Alberto Carneiro, No jardim estaremos melhor, 1971. Impressão fotográfica sobre papel. Espólio Alberto Carneiro.

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Alberto Carneiro, Metáforas da água ou as naus a haver por mares nunca de antes navegados, 1993-1994. Madeiras de mogno e ocomé. Espólio Alberto Carneiro

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A segunda secção da exposição instalada na Galeria Quadrum (onde o artista realizou cinco exposições individuais entre 1975 e 1983), evoca os gestos performativos do artista. Como jangada de medusa, o centro da galeria é ocupado por Metáforas da água ou as naus a haver por mares nunca de antes navegados (1993-1994), juntamente com trabalhos e documentação provenientes da Operação estética em Vilar do Paraíso, realizada em março de 1973 nas proximidades de Vila Nova de Gaia. Os trabalhos de Claire de Santa Coloma fazem referência à obra de Alberto Carneiro e ao escultor franco-romeno Constantin Brancusi. Para Santa Coloma, o processo da escultura é um ato de resistência. Situadas no espaço urbano, as suas rotinas diárias fazem alusão às de um agricultor ou de um artesão. A prática da cinzelagem manifesta-se como quase terapêutica e decididamente espiritual.”

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Lala Meredith-Vula, Štrpce, Kosovo, 11 November 2016, 2016 – Drishtr, Albania 11 November 1995, N.º 3, 1995 – Juník Kosova, 27 May 1989, N.º 3, 1989. Fotografia, impressão Giclée a partir de 35 mm, negativo [de 1995 e 1989].

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Ana Lupas criou as esculturas de forragem, sobretudo com formas circulares, em colaboração com comunidades de aldeias da Transilvânia. Concebida a partir de 1964 para um ambiente exclusivamente rural, a obra The Solemn Process consiste numa série de estruturas corpóreas prototípicas de várias dimensões, feitas a partir de materiais perecíveis, como palha de trigo, cânhamo, algodão, madeira que receberam as suas formas através de recipientes de metal construídos pela artista em colaboração com trabalhadores húngaros.

Por fim, as fotografias de Lala Meredith-Vula pertencentes à série Haystacks (iniciada em 1989 e ainda em curso) também emergem do leste europeu, um contexto que está longe de ser homogéneo e que ainda hoje se debate com a desordem resultante da dissolução dos regimes autoritários após a queda da Cortina de Ferro, há trinta anos atrás, na ano de 1989, Se Lupas foi alvo de repressão por parte do regime comunista durante o seu processo de criação a partir de meados da década de 1970 e executou as suas esculturas em colaboração com diversos habitantes tocais, a investigação e representação de palheiros empreendida por Meredith-Vula ao longo de uma década, também lhe permitiu aproximar-se do povo da Albânia, terra nativa do seu pai.

Os visitantes poderão considerar estas posições artísticas semelhantes na forma, mas diferentes quanto à sua conceção histórica. Em conjunto, criam uma rede de diferentes abordagens ao rural, ao mesmo tempo que chamam a atenção para preocupações ecológicas. Estas obras constituem poderosos significantes num discurso global sobre o regionalismo, constituindo, igualmente, um apelo (poético) à ação no nosso ambiente natural.”

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Ana Lupas, The Solemn Process, 1964-74, 1980-85, 1985-2008. 15 fotografias passadas a sépia.

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Nesta série, escreve:

Este conjunto de fotografias da artista romena Ana Lupas fazem parte de uma instalação de grande escala, composta por 21 esculturas de metal e dois vinis colados na parede, cada um dos quais apresenta 40 fotografias em tons sépia. A obra foi realizada em três períodos distintos, 1964-1974, 1980-1985 e 1985-2008, que correspondem, por sua vez, a três momentos da evolução da Roménia. Na primeira fase, Lupas produziu uma série de objectos de palha em colaboração com os habitantes da zona rural da Transilvânia e convidou-os a colocá-los em frente das suas casas e na paisagem circundante; num segundo momento, Lupas dedicou-se a restaurar os objetos originais. Finalmente, numa terceira etapa, insatisfeita com os resultados do restauro, a artista procurou outra forma de prolongar a vida dos objetos, pedindo a artesãos húngaros que fabricassem, com as técnicas tradicionais, um conjunto de esculturas em metal que imitava as formas primitivas de palha.”

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Fotografias da exposição de António Bracons.

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