MARC SARKIS GULBENKIAN, SANTO ANTÓNIO, DE LISBOA E PÁDUA, 2019

Em exposição no Museu de Lisboa – Santo António, no Largo de Santo António da Sé, 22, de 30 de janeiro a 15 de março de 2020.

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Marc Sarkis Gulbenkian

Santo António, de Lisboa e Pádua. Viagem a uma devoção ímpar

Fotografia: Marc Sarkis Gulbenkian / Texto: António Mega Ferreira

Lisboa: Clube do Autor / Junho . 2019

Português / 19,3 x 25,0 cm / 136págs.

Brochura

ISBN: 9789897244803

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Este livro, reúne as fotografias de Marc Gulbenkian com o texto de António Mega Ferreira, numa escrita pessoal, culta e cativante, sobre a vida e a obra de Santo António – de “Lisboa e Pádua, mas que também podia ser reclamado por Coimbra, Toulouse, Rimini e muitas outras localidades por onde passou e deixou a sua marca”, “permite-nos percorrer os caminhos do santo na sua época, sentindo a paisagem, o calor e o frio, os cheiros e os sons, transpondo-os para os dias de hoje”.

Lisboa orgulha-se de ser o local onde Santo António nasceu, e por isso a cidade nunca esqueceu que foi aqui que tudo começou. A sua casa tornou-se propriedade do município de Lisboa a partir do século XIII c ali funcionou o Senado da cidade até às vésperas do terramoto de 1755. Proclamado santo padroeiro de Portugal e padroeiro principal da cidade de Lisboa, Santo António foi acumulando ao longo dos séculos muitos outros padroados e chega-nos à atualidade sobretudo como o santo das emoções e da devoção popular, sentimentos universais que ultrapassam as fronteiras da língua, das culturas e da religião.

refere Pedro Teotónio Pereira, do Museu de Lisboa – Santo António, no prefácio.

No prólogo, António Mega Ferreira narra a sua estima pelo Santo, bem como  traça uma biografia breve, que desenvolve nos capítulos da obra, que a fotografia de Marc Gulbenkian completa.

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A minha primeira recordação de Santo António é a da sua efígie gravada em baixo relevo numa medalhinha em ouro que pendia do fio que me penduraram ao pescoço, ‘inda mal abrira os olhos. A medalha serviu-me de rilha-dentes quando me acometeram as primeiras «raivinhas» da dentição nascente; lembro-me dela levemente amolgada pela pressão dos incisivos que procuravam despontar. Em casa, não havia culto do santo, nem de outros, se excetuarmos as invocações maternas a «Santa Bárbara! S. Jerónimo!», que se desatavam quando a tempestade de trovões cavos e relâmpagos arrepiantes se abatia sobre a cidade. Mas eu teimei em afeiçoar-me ao santo, que me trazia pelo nome e pela intimidade com que se me enrolava à volta do pescoço. A vida levou-me o fio e a medalha, nem eu sei para onde; mas uma sólida e empedernida formação laica nunca me afastou da ternura supersticiosa pelo santo jovem e amável, que dominava o imaginário coletivo da minha cidade, alimentado em crendices e convicções miraculosas. Santo António ficou para sempre o santo de predileção de um não-crente convicto — é o meu santo.

Este texto é um sinal dessa enorme empatia que me atrai para a figura e a obra do Santo e me leva a tentar compreender como ele se constituiu, retroativamente é certo, como uma figura fundadora do franciscanismo que eclodiu nos anos da sua maturidade. Não é uma biografia, no sentido técnico do termo, nem uma devassa erudita sobre o seu pensamento, antes um ensaio literário de indagação das razões e caminhos por que António se constituiu como uma das figuras portuguesas de maior relevância na Europa do seu tempo. E também uma tentativa de aproximação à sua essência propriamente humana, ao seu trajeto pessoal. É obra de afeto e curiosidade, não de ciência ou teologia.

Gosto de pensar que, nessa admiração mansa, vai uma voluntária cedência à cultura popular que fez de Fernando Martins, cidadão de Lisboa, o Santo António milagreiro dos tronos e dos casamentos coletivos assumido pelos lisboetas como santo patrono da sua cidade, nessa entronização arrebatando de facto o cetro a São Vicente, cujas relíquias tinham chegado a Lisboa numa barca escoltada por um par de corvos. Ser admirador de Santo António, ainda que pouco crente nas virtudes taumatúrgicas do ilustre franciscano, é reafirmar a minha condição retintamente lisboeta: como o Tejo e a Sé, Santo António é um elemento indispensável da identidade de Lisboa, tanto pela sua formação de base como pelo seu cosmopolitismo.

Visto o mundo assim, a partir do nosso umbigo, é estranho, quando não instintivamente revoltante, que o santo, o nosso Santo, seja mais conhecido como Santo António de Pádua do que como Santo António de Lisboa. Mas a coisa tem razão de ser: Il Santo morreu em Pádua em 13 de junho de 1231 e, em tempos onde o registo de nascimento era ainda uma miragem diluída no futuro (o nosso santo tanto pode ter nascido em 1191 como em 1195), só a morte era certa — o que não deixa de ser, a muitos títulos, uma verdade indesmentível.

Mas há mais: na Itália de 1200 disseminara-se o hábito de celebrar o aniversário da morte em vez do nascimento, talvez porque, como diz Jacopo da Varazze (também conhecido como Jacques de Voragine) na sua célebre narrativa das vidas de santos, Legenda Aurea, escrita em meados do século, «se celebramos a festa de aniversário dos santos em sua honra e para nossa utilidade, assim devemos comemorar o aniversário dos mortos para sua utilidade e nossa devoção». Ficou-nos a data da morte de António como dia da sua festa e, em Lisboa, como Dia da Cidade. Finalmente, foi a década prodigiosa em que, já feito franciscano, Fernando semeou a sua palavra e o seu exemplo aos quatro cantos da Península Itálica, da Sicília a Rimini, de Roma a Pádua, que fez dele um santo, Santo António, precisamente.

Lisboa era uma das maiores cidades de um reino distante recém-conquistado aos «infiéis»; a Itália era o território de eleição e o teatro de ambições da sede da Igreja Católica. Foi aí que António melhor serviu a Deus c que mais visíveis louros colheu do seu apostolado. Ficou de Pádua como era de Lisboa: na sua incrível glória póstuma, Santo António chega bem para duas cidades. Por ele, Exulta, Lusitania felix, o Padua felix, gaude, como escreveu Pio XII, em 1946, ao proclamá-lo Doctor evangelicus, isto é, Doutor da Igreja de Cristo.

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Marc Sarkis Gulbenkian, Santo António, de Lisboa e Pádua, 2019

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“Santo António, de Lisboa e Pádua”, de Marc Sarkis Gulbenkian, está em exposição no Museu de Lisboa – Santo António, no Largo de Santo António da Sé, 22, em Lisboa, de 30 de janeiro a 15 de março de 2020.

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