ANTÓNIO BRACONS, ACQUA ALTA, VENEZA, 2019

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António Bracons, A cidade. Libreria Acqua Alta, Veneza, 08.2019

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O Mar Adriático pouco sobe com as marés: menos de um metro, que nalguns canais mais interiores quase não chega para a renovação da água. Sente-se o seu cheiro quando, vindo por um caminho, ao fazer uma curva deparamo-nos com os degraus de uma ponte, permitindo que os barcos circulem no canal. Pequenas ponte dão o acesso a edifícios e é frequente ter-se uma sucessão de várias pontes.

Por vezes, a subida do Adriático provoca uma Acqua Alta: a água sobe acima do normal e inunda parcialmente a cidade. Em novembro de 2019, porém, a Acqua Alta tomou as proporções de inundação, pela altura atingida: 1,87 m, a pior das 6 cheias desde as de 1966, uma frequência nunca antes atingida, o que se afigura preocupante, pois a degradação que provoca nos edifícios e monumentos é grande: nos mármores, nas madeiras, nas pinturas…

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Caminho pelas ruas e pelas pontes, as lojas de cristais de Murano e de máscaras de Carnaval são uma constante.

Passo pela Chiesa di San Zaccaria e pela Chiesa di Santa Maria Formosa.

Pouco mais à frente, na Calle Lunga Santa Maria Formosa, 5176b, a Libreria Acqua Alta, uma das mais conhecidas de Veneza, criada por Luigi Frizzo. Uma extensa galeria acolhe uma gondola, recheada de livros, prolonga-se da entrada ao pátio exterior, do lado oposto, onde uma escadaria de livros permite-nos subir acima da Enciclopédia Britânica – e quantas mais obras! – e mirar o Rio della Tetta, um dos canais. Quando se dá a Acqua Alta há muitos livros que acabam por ficar debaixo de água. É com eles que se forma a escadaria no pátio e que estão revestidas as paredes exteriores de um saguão. E, apesar de tudo, Luigi mantém a sua paixão.

É muito difícil fotografar uma livraria, quando se tem pouco tempo e tantos livros à frente dos olhos. Não entrei em todos os espaços, mas encontrei uma reprodução fac-simile da edição de 1828 de “Venezia. Il Canal Grande La Piazza S. Marco”, de Antonio Quadri e Dionisio Moretti, um levantamento à escala das duas margens do Grande Canal, que por mim esperava na gondola e, uma estante de livros de fotografia com diversas obras muito interessantes da fotografia italiana. Na caixa, junto à entrada, um gato fazia as honras…

Mas deixem-me aqui transcrever as palavras de Jorge Carrión, no seu Livrarias (Lisboa: Quetzal Editores, 2017, pág. 249-250) a propósito desta Acqua Alta:

Também em Veneza senti que acabava um dos tantos mundos a que chamamos mundo. Estávamos em Dezembro e a maré alta convertia diariamente a Piazza San Marco num tanque de colunas duplicadas, numa lagoa atravessada por turistas de galochas, num naufrágio de mesas metálicas de pernas compridas que o reflexo líquido convertia em patas de garça metalizadas. Era o momento certo para visitar a Acqua Alta, o espaço que Luigi Frizzo converteu numa das livrarias mais fotogénicas do mundo, com a sua longa gôndola no meio da nave central saturada de volumes de segunda mão, e com uma sala lateral que é inundada várias vezes por ano. Umas tábuas permitiram-me fotografar o chão invadido pela maré, parte de uma cidade à deriva; e a escada de livros que Frizzo construiu no terraço conduziu-me até uma bela panorâmica sobre o canal. A Acqua Alta não é apenas uma livraria: é uma loja de postais; é uma comunidade de gatos; é um armazém de barcos e de banheiras cheias de livros e de revistas; é um lugar onde se pode conversar com venezianos simpáticos que lá vão todos os dias para conhecer turistas; é – finalmente e sobretudo – uma atração turística. Na porta, um letreiro dá as boas vindas à «mais bela livraria do mundo». À saída, com a memória repleta de fotografias, compramos um livro qualquer, um calendário, um postal, quando muito uma história da cidade ou uma coleção de crónicas de viagem dos seus ilustres visitantes, e desse modo pagaremos a entrada no museu.”

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Prossigo até à Stazioni di Santa Lucia. O sol está ainda intenso. No regresso, num Frecciarossa, acompanho a Lagoa que afasta Veneza da terra firme.

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