ANTÓNIO BRACONS, PELOS CANAIS, VENEZA, 2019

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António Bracons, Pelos Canais, Veneza, 08.2019

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Um modo de ver esta cidade diferente é a partir dos canais que a atravessam, rede quase tão densa como os caminhos e as ruas. Interligando a lagoa envolvente e o Grande Canal, esta intrincada rede constitui um acesso a muitos dos edifícios. De facto, muitos têm o acesso pelo passeio ou pelas ruas e, também, pelo canal. Nalguns pontos, mais amplos, há cais para inúmeras gondolas, noutros pequenos e interiores, tangentes aos passeios, apenas para uma ou duas.

Vários residentes têm os seus barcos, mas para quem visita, a gôndola é uma experiência possível. Os gondoleiros têm formação específica, impulsionam a gondola através dos canais, curvando-se quando as pontes são mais baixas e falam da sua cidade com carinho. As marés não sobem muito: entre a maré baixa e alta a diferença é cerca de 90 cm, mas é suficiente para que sob algumas pontes fique um pé direito relativamente reduzido.

A gondola leva até seis pessoas, para além do gondoleiro. Desliza suavemente sobre a água, controlada por uma vara comprida ou um remo estreito, lateral, à ré e, por vezes, com a ajuda da habilidade do gondoleiro, por exemplo, um pé que se finca numa parede próxima…

Quando a gondola sai de um cais da periferia do território, como da Praça de S. Marcos, permite uma perspetiva ampla da envolvente. Entra depois nos canais…

Visto da água, nos canais estreitos, que por vezes se alargam até alguns metros, os edifícios que os delimitam elevam-se 4 e 5 pisos e mais, na vertical. Os ocres, os vermelhos, os amarelos elevam-se acima da água, refletem-se nela, ora lisa, ora ondulante. Múltiplas janelas e varandas debruçam-se sobre a água, permitindo a entrada de luz e a visão do canal e do céu.

Há caminhos que terminam no canal e múltiplos cais, quer quando caminhos e canais se encontram, quer privados de alguns edifícios. A água entra por alguns pisos térreos, referindo o gondoleiro que nos guiou, que a cidade se está a afundar. Em muitos edifícios aquele piso foi já abandonado, residindo-se apenas nos restantes. Em Veneza não são permitidas construções novas; de há 250 anos para cá, apenas a recuperação do existente é possível.

A gondola longa e negra, de convés vermelho, ‘cavalos-marinhos’ – metade cavalo, metade peixe – em corrida, e o gondoleiro, de azul riscado a branco, chapéu do mesmo azul-escuro, deslizam uma e outra vez pelos canais que tão bem conhecem.

Há um espanto nesta viagem única.

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