ARLINDO PINTO, NOWERGIAN SKY 9, 2019

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Arlindo Pinto

Norwegian Sky 9

Fotografia: Arlindo Pinto / Texto: Fernando Sobral, Arlindo Pinto / Grafismo: Nuno Moreira – NM Design

Lisboa: Hugglybooks / Novembro . 2019

Português e inglês / 18,4 x 24,8 cm / 80 págs, não numeradas

Cartonado, miolo fixo à contracapa / 100 ex., numerados e assinados pelo autor. Os n.ºs 1 a 10 constituem edição especial, inclui uma fotografia, diferente para cada um

ISBN: 9789899932913

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At any street corner the feeling of absurdity

can strike any man in the face.

Albert Camus

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A oportunidade da viagem surgiu em conversa com um amigo. E foram. Arlindo Pinto fotografou. Fotografou a paisagem, o ambiente, as pessoas. Não a iconografia, não as imagens conhecidas, que facilmente identificariam o local. Não era isso que era importante, que queria. Mostrá-lo, sim. No livro narra o percurso, pode ler abaixo.  E é assim que surge Norwegian Sky 9.

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No ensaio que acompanha a obra, Fernando Sobral escreve:

Os olhos podem ver multas coisas. Talvez demasiadas. Em “Norwegian Sky 9″ Arlindo Pinto olha para o mundo de forma particular. As imagens que aqui mostra são as de um nómada que percorre os labirintos onde se perde a sociedade actual. Nelas encontramos memórias várias, ecos do passado, sinais de um presente incómodo, pistas para se vislumbrar o futuro. Podemos ver mais claramente através das suas fotografias, que buscam o pormenor, a vitalidade das ruas, das pessoas, das habitações, dos locais públicos, onde todos se cruzam e muitas vezes ninguém tem tempo para ver. Não admira; uma máquina de fotografar é muito mais rápida do que uma caneta. As fotografias, onde podemos ver os detalhes que nos escapam, ocupam a nossa imaginação com imagens que parecem, as vezes, estar em movimento.

O que encontramos aqui são imagens do dia-a-dia, onde os personagens podem ser pessoas anónimas, trabalhando ou simplesmente buscando uma bússola para guiar a sua existência. As fotografias de “Norwegian Sky 9″ encontram também as suas antigas irmãs emolduradas e que guardam um outro passado e outras heranças. Mas, no meio da vertigem urbana há, sobretudo, o olhar sobre o contraponto entre as ruínas urbanas e os símbolos da natureza, como as flores, que não se rendem ao silêncio e à solidão das cidades. É este o preto e o branco de fotografias onde as cores iluminam. Neste universo de opções, há, quando muito, quadros com naturezas mortas que estão tão inertes quanto as paredes degradadas que guardam vidas e as suas histórias por contar. Pelo meio encontramos a solidão das grandes cidades, numa fotografia de alguém a olhar para a janela num local onde não há mais ninguém. É este o mundo real e imaginário do autor. Porque as suas imagens falam. Também poderíamos dizer que fotografa sobre a luz e a cor, a alvorada de um novo dia. Tal como um pintor começa um quadro, e a todo momento a luz está a mudar e ele continua a fotografar. A chuva pode vir e as cores começam a desintegrar-se, e algo tão ou mais belo surge. E as fotografias capturam esses momentos.

Em ‘Norvvegian Sky 9″ o que mais intriga o autor é a identidade. Dos locais, das pessoas, dos objectos dos olhares. Porque ele sabe que é preciso estar próximo daquilo que se pretende fotografar. O anonimato do fotógrafo, depois da noção da descoberta, desaparece. O seu olhar traz-nos detalhes e atitudes do quotidiano. Por vezes sente-se que o autor não está perto do que fotografa: está dentro da alma do que é fotografado. Estas imagens são indícios que nos podem dizer mais sobre aqueles que vivem nas cidades e as suas vidas anónimas do que seus próprios retratos. Ou seja, é a identidade que fascina o autor. Ao filtrar a poesia que nasce dos ritmos calmos da vida diária partilha connosco os mistérios e as maravilhas, as crenças e a desventuras, as ilusões e os abismos para onde tudo conflui.

No fundo, como numa das fotografias que aqui encontramos, identidade das sociedades e daqueles que a criam todos os dias é um jogo de xadrez. O jogo da vida. Mas, como escreveu um dia Isaac Asimov, ‘”Na vida, ao contrário do xadrez, o jogo continua após o xeque-mate”. As imagens de “Norwegian Sky 9″ apenas confirmam que, entre ruínas e memórias, a natureza sobrevive a tudo em qualquer lugar do mundo. É essa a verdadeira identidade que o autor buscou. E encontrou nas suas fotografias.”

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O autor, Arlindo Pinto, regista a história deste projeto:

Naquele dia, por desamor ou pelo temor de que o passado implodisse e deixasse apenas vestígios impossíveis de descobrir, tomou a solitária decisão de realizar a viagem que lhe permitiria fixar, pelo menos enquanto este próprio nada devesse à existência, memórias daquele mundo distante que tantos sonhos lhe acalentou na juventude. Definitivamente partia em busca de qualquer coisa aparentemente conhecida.

– E tu?

– Eu, nada!

E ali cabia tudo. Ia sem o desígnio de buscar, procurar nada. Dessa forma tudo o que eu encontrasse poderia ser o meu mundo. Isso era suficientemente motivador para somente ir, acompanhá-Io na sua demanda de preservação de um presente em temível extinção. Isso e o facto de qualquer coisa nos ligar. Provavelmente as nossas diferenças. Pensando bem, creio que assim é: o que nos une é o que nos separa. A solitária decisão que levaria à isolada atividade de colheita de memórias havia ganho um acompanhante, um procurador de nada.

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Estas eram as singelas premissas do guião de uma intrincada dramaturgia, que havia de ser levada à cena anos mais tarde. Mas no agora é que o futuro tinha que ser escrito, com luz e na luz: nas cores e odores das cidades, nas ruas apinhadas de ludâmbulos transatlânticos, nas crenças e nas preces, na pobreza e na resignação dos indivíduos, nas suas complexas e ruidosas formas de vida, nas estranhas autoestradas de uma proteção ausente, para que todos viessem a saber o que ali havia sido ou o que ali haviam visto.

Os atores deambulavam nesse humilde palco com um destino que não era possível antecipadamente conhecer-se com exatidão. O palco oprimia. A boca de cena esganava ferozmente e os atores esforçados, contracenavam com as ruas e lugares, símbolos e ideologias, aquela identidade em extinção segundo ele e que o chamara, mas que, apesar de sui generis, podia replicar-se noutras cidades, em outros mundos já conhecidos, já descobertos.

– Amigo, amigo…

O calor intenso e a elevada humidade tornavam os passos pesados e os quilómetros infinitos. O palco era colossal e só a imensa distância se lobrigava a esquerda baixa. E continuavam.

Entravam na vida dos outros para descobrir os seus sonhos nunca destruídos porque nunca concretizados. Miragens de grandeza encimadas por descoloridas imagens da idolatria obrigatória ou outras coisas sem importância para lá da decorativa. Compreenderam os sobreviventes que eram todos. A imensidão dos que continuavam a acreditar e a vastidão dos que confiavam em algo diferente. Todos atores no inexplicável teatro da vida e que insistentemente se acercavam do proscénio oferecendo serviços.

– Táxi, táxi…

A espaços, a roupa transpirada exigia a releitura do guião, e a demanda de um pelo tempo e a procura de nada pelo outro, abeiravam-se do insuportável, como se transportassem consigo as ruas que percorriam e as vidas que à sua passagem tocavam ao de leve. O palco era um pesadelo e separavam-se. Voltavam a encontrar-se mas adiante e regressavam aos diálogos do argumento. Ou de improviso reescreviam as suas deixas.

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Na câmara, ele carregava todo o presente que encontrara das imagens que antes havia visto e que agora orgulhosamente haveria de tratar e conservar. Tudo à mistura com a desilusão de saber que aquele universo distante não era, afinal, o que lhe alimentara os sonhos.

– E tu?

– Eu nada! Não procurar não significa não encontrar. Na busca de nada, encontrei tudo o que aqui deixei e está para lá daquilo que alguma vez quis.”

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Arlindo Pinto, Nowergian Sky 9, 2019

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Pode conhecer melhor o trabalho de Arlindo Pinto aqui.

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Cortesia do Autor.

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