1839-1989 – UM ANO DEPOIS. ONE YEAR LATER, 1990

180 anos da apresentação pública da fotografia (19 de Agosto de 1839), 30 anos da Coleção Nacional de Fotografia

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1839-1989 – Um Ano Depois. One Year Later

Texto e org.: Jorge Calado / Texto institucional: Pedro Santana Lopes / Fotografia: Berenice Abbott, Ansel Adams, Fratelli Alinari, Thomas Annan, Eugène Atget, Herbert Bayer, Cecil Beaton, Emílio Biel, Erwin Blumenfeld, Bonfils, Edouard Boubat, Dr. G. B. Duchenne de Boulogne, Margaret Bourke-White, Bill Brandt, Adolphe Braun, Carlos Calvet, Julia Margaret Cameron, Luiz Carvalho, Alvin Langdon Coburn, Bruce Cratsley, Imogen Cunnigham, Jack Delano, Carlos Afonso Dias, Frank Drtikol, Alfred Eisenstaedt, Peter Henry Emerson, Morris Engel, Frank Eugene, Walker Evans, Roger Fenton, António Pedro Ferreira, Joann Frank, Robert Frank, Francis Frith, Jean Gaumy, Arthur F. Gay, Charles Harbutt, Bert Hardy, Edith Tudor Hart, John Havinden, David Hockney, Paul Jeuffrain, Ida Kar, Clarence Kennedy, André Kertész, Josef Koudelka, David Kronig, Heirich Kuhn, Dorothea Lange, Jacques-Henri Lartigue, Russel Lee, Leon Levinstein, Danny Lyon, Wendell Macrae, Herbert Matter, Ray K. Metzker, Margaret Monck, John Murray, Paul Nash, Nicholas Nixon, Paulo Nozolino, Rui Ochôa, Herbert G. Ponting, Peter R. Pulham, Guy Le Querrec, Man ray, John Reekie, Albert Renger-Patzsch, George Rodger, Jaroslav Rossler, Thomas A. Rust, Sebastião Salgado, August Sander, Peter Sekaer, Ben Shahn, Joaquim Possidónio Narciso da Silva, Neal Slavin, W. Eugene Smith, Louis Stettner, Alfred Stieglitz, Paul Strand, Karl Struss, Josef Sudek, Wolfgang Suschitzky, Frank M. Sutcliffe, Fox Talbot, Doris Ulmann, John Vachon, Weegee, Sabine Weiss, Clarence H. White, Henry White

Lisboa: Secretaria de Estado da Cultura / 1990

Org. Ether – Vale tudo menos tirar olhos

Português e inglês /  21,7 x 24,2 cm / 248 págs.

Cartonado / 2000 ex. “sob a orientação da Porto Editora, | o Bloco Gráfico executou para | a Secretaria de Estado da Cultura | em Agosto/Novembro de 1990, no Porto.”

ISBN(10): 9729315051

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1839-1989-Um ano Depois-1990 (1)

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Em 19 de agosto de 1989 completaram-se 150 anos da apresentação pública da fotografia, o que é considerado o nascimento da fotografia.

Não havendo em Portugal nenhum museu de fotografia, nem nenhuma instituição que colecionasse fotografia, e com a perceção daquela data, no ano anterior, em 1988, a Secretária de Estado da Cultura, Teresa Patrício Gouveia, convidou o professor Doutor Jorge Calado a formar a Colecção Pública de Fotografia. A dotação era de 10.000 contos (dez milhões de escudos, em cambio direto, cerca de 50.000 €) por ano, 20.000 contos para dois anos. Num ano e meio, Jorge Calado reuniu 346 imagens de 98 fotógrafos: naquela ocasião era possível comprar imagens de grandes fotógrafos por custos relativamente baixos.

A [fotografia mais cara foi a] do Walker Evans (Portuguese House [Truro, Massachussets, 1930]) [faz a capa do catálogo], que custou 4.400 dólares, um pouco menos de 700 contos, mas nesse caso não hesitei: estava determinado a comprar aquela fotografia, porque é rara – julgo que nunca apareceu para venda nos últimos oito anos, que é desde que me comecei a interessar pela fotografia – e era uma das que eu queria à partida. Aliás, não era esta que eu conhecia, mas uma outra, também da casa portuguesa, que está no livro American Photographs, e é um pormenor, um close up, …dessa é que andava à procura, e entretanto apareceu esta que achei ainda mais bonita.”

diria Jorge Calado em entrevista a Alexandre Pomar, publicada no Expresso Revista, em 23 de fevereiro de 1991, pág. 37R.

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Sobre os critérios para a coleção, explica Jorge Calado:

Fui a primeira pessoa a quem foi pedido tomar conta da aquisição das fotografias. Julgo que havia casos pontuais de aquisição de fotografias por parte da Comissão para as Artes Plásticas de que faziam parte o Fernando Calhau, o Fernando Azevedo e o Fernando Pernes. Entre eles talvez fosse o Fernando Calhau o mais interessado na parte da fotografia. Depois desses casos pontuais houve aqui, de facto, uma situação nova quando a SEC decidiu que era altura de começar a formar uma colecção independente de fotografia, fotografia do ponto de vista estético e não documental, para isso há os arquivos, cobrindo precisamente os 150 anos da sua existência. Não havia política nenhuma e isso foi uma das coisas que me agradou, na medida em que me permitiria definir as regras que eu achava neste momento serem as melhores. Essas regras impõem que uma colecção pública não venha a reflectir os gostos de uma única pessoa, embora eu dissesse à partida que o facto de eu próprio ser coleccionador e ter um determinado gosto pessoal iria tentar com que isso não influenciasse a maneira como eu formaria a colecção. Porque sei distinguir entre aquilo que é historicamente importante e portanto digno de uma colecção pública e aquilo que é um assunto muito mais privado e portanto destinado a uma colecção particular. Mas achava que não deveria ser só uma pessoa para evitar distorsões e por isso sugeri que o processo ideal seria ter uma série de comissários, mas cada comissário deveria ser totalmente independente. Assim eu estaria aqui por dois anos, como período limite, até porque tenho muitas outras coisas para fazer e isto envolve muito tempo, embora não pareça. Assim eu comprava durante estes dois anos e depois viria outra pessoa com outros critérios que seriam ou não aceites pela SEC e assim sucessivamente e ao fim de 20, 30, 40 anos haveria uma colecção que tinha sido formada por um determinado número de pessoas e que de certo modo seria mais significativa do que se fosse uma só pessoa entronizada nessa comissão.

Eu defini as regras que eu achava serem do interesse da colecção nacional, mas são regras flexíveis, outros que venham podem ter outras regras. Por exemplo, eu sempre disse que devia concentrar os meus esforços na aquisição de fotografia estrangeira e não só fotografia contemporânea como principalmente fotografia antiga e inclusivamente do século XIX. E achava isso porque em Portugal não há nenhum grande museu de pintura, não há nenhum grande museu de escultura, ou de coisa nenhuma. Quando digo «grande museu» é no sentido em que o Metropolitan o é, uma National Gallery o é, e é nesta altura inviável tentar fazer esse, grande museu e não é só uma questão de dinheiro, é que também já não há as obras. As principais obras dos grandes mestres já estão em museus ou em colecções permanentes. Mas mesmo que o problema do dinheiro fosse resolvido não seria possível fazer um museu representativo porque não há essas obras.”

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Jorge Calado dirigiu e preparou a exposição e o catálogo desta “Colecção de Fotografia da Secretaria de Estado da Cultura” (SEC) que foi produzida integralmente pela Ether (de António Sena) para aquela Secretaria de Estado, que mostrará 152 fotografias das 346 adquiridas. A preparação e investigação, bem como as reproduções de originais são de António Sena (AS) e Paulo Baptista, o catálogo, de Leonor Colaço e AS, que fez também a supervisão litográfica, o projeto de montagem é de Luís Afonso e Mariano Piçarra e as montagens de passe-partout, de António Júlio Aroeira e Isabel Carvalho.

Foi apresentada na Galeria Almada Negreiros, renovada na direção (Fernando Calhau e Delfim Sardo) e na arquitetura interior, situada em Lisboa, na Av. da República, n.º 16, inaugurando a 8 de janeiro de 1991, 3.ª feira, às 18:30, apresentando-se até 3 de março de 1991, das 10:00 às 20:00 h, excepto à 2ª feira.  “É uma exposição sobre a respectiva história, que se inicia com um calotipo de 1844 de Fox Talbot e se encerra com uma imagem de Koudelka de 1989”, regista Alexandre Pomar no seu blog, acrescentando:

Se a colecção agora apresentada é, de facto, o arranque de uma colecção, sucede também que Jorge Calado conseguiu que o conjunto de fotografias reunido fosse um corpo coerente, um olhar globalizante sobre a multiplicidade de direcções que a fotografia comporta: um discurso que percorre todo o arco histórico dos 150 anos da fotografia e que se ramifica em direcções específicas como, por exemplo, a fotografia científica, a publicidade, o fotojornalismo (a moda é uma lacuna que se reconhece), ou, numa outra leitura, que percorre a evolução dos processos técnicos de captação e impressão das imagens.”

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A acrescentar ainda, uma folha de 1991, não assinada, com origem na SEC, divulgada por ocasião da exposição na Galeria Almada Negreiros, incluída no catálogo:

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Um comunicado da “Ether sobre a apresentação da CNF, com produção sua, associando-a ao projecto Luzitânia / Ether pix data file, «que desapareceu com o “exílio” de António Sena». Assinado por Luís Afonso. Data errada: 1990 por 1991.” (De Alexandre Pomar, “Bibliografia”, link abaixo):

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O catálogo integra uma “Nota de Abertura” de Pedro Santana Lopes, então SEC, e os textos de Jorge Calado: “Uma Explicação… Quase um Ano Depois” e o ensaio “Uma História à Volta de Fotografias”. Apresenta 104 das 152 fotografias da exposição, o índice destas, e a ficha técnica de todas as imagens da CNF (com o registo da Luzitânia / Ether pix data file), identificando as expostas uma Ficha Biográfica de todos os fotógrafos, identificando ainda as suas fotografias expostas e o número de fotografias na CNF.

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Este catálogo reveste pois grande importância na história da fotografia portuguesa: confirma o início da Coleção Nacional de Fotografia. E, de alguma forma, a data de 19 de agosto de 1989, comemorada internacionalmente como os 150 anos da Fotografia, ao ser motivadora desta Coleção (inicialmente como “Coleção de Fotografia da SEC”), referencia o início da Coleção Nacional de Fotografia.

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1839-1989 – Um Ano Depois. One Year Later, 1990

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Há a referir que, com a criação do Centro Português de Fotografia, este é autorizado pelo Ministério da Cultura, em 27 de Outubro de 1997, a proceder ao levantamento das espécies referentes à Coleção Nacional de Fotografia (CNF) pertencentes ao Estado e de que a Fundação de Serralves era comodatária. Nessa data, foram entregues ao CPF por aquela Fundação 333 espécies (confere no site do CPF, aqui). A Coleção Nacional de Fotografia tem crescido, não da forma que Calado propusera, mas contando atualmente 7513 “documentos fotográficos devidamente inventariados e catalogados” (ver aqui, consultado em 23.07.2019).

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Pode ler sobre a coleção e a exposição no blog de Alexandre Pomar, aqui, a entrevista a Jorge Calado publicada no Expresso Revista, em 23 de fevereiro de 1991, aqui, e sobre o seu projeto para a CNF, “Bibliografia”, aqui (consultados em 23.07.2019).

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