JORGE GUERRA, SAUDADE DE PEDRA, 2019

Fotolivro. A exposição, fundamental, apresenta-se no Arquivo Municipal de Lisboa / Fotográfico, de 4 de abril a 29 de junho de 2019.

 

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Jorge Guerra

Saudade de pedra

Fotografia: Jorge Guerra / Texto: Isabel Corda, Jorge Calado

Lisboa: CML – Divisão de Arquivo Municipal / Março . 2019

Português e inglês / 24,7 x 33,7 cm / 152 págs.

Cartonado / 500 ex.

ISBN: 9789895410958

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Todo o atracar, todo o largar de navio,

É — sinto-o em mim como o meu sangue —

Inconscientemente simbólico, terrivelmente

Ameaçador de significações metafísicas

Que perturbam em mim quem eu fui…

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!

Fernando Pessoa, Ode Marítima.

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É o povo que faz a fotografia de Jorge Guerra. A paisagem é humana, e a arquitectura, a das relações entre amigos, vizinhos ou transeuntes à solta. É fotografia de rua, mas sem carroças nem automóveis. A tónica está na forma como as pessoas se relacionam (ou não) umas com as outras. Há corpos solitários, mas também encontros e desencontros fortuitos, mendigos, vendedeiras e transacções ambulantes. Nos jardins e miradouros, acumulam-se os velhos reformados à espera que o tempo corra.

Jorge Calado, “Corpos Urbanos”

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Jorge Guerra nasceu em Paço d’Arcos, em 1936, mas cresceu em Lisboa, para onde a família se mudou, era ainda pequeno.

Impulsionado por um tio, familiariza-se desde cedo com a fotografia e o cinema. Em Lisboa faz estudos universitários em filosofia e história e entre 1961 e 1963 cumpre o serviço militar em Angola, já como fotógrafo.

Em 1964 fixa-se em Londres, com o objetivo de fazer formação em cinema: frequenta o London Film School, trabalha para uma companhia de cinema e publicidade, é diretor de fotografia de vários filmes, documentários e anúncios. Ainda em formação, começa a dedicar-se à fotografia: viaja e fotografa na Alemanha, França e México (1966). No México vai fazer um filme, mas 2 dias livres entre filmagens deram-lhe oportunidade para fotografar.

“Em 1966, em Inglaterra, fiz mais dinheiro do que noutro tempo da minha vida”, diria Jorge Guerra numa conversa, no AML-F, no passado dia 9 de abril. “Tinha 2 semanas, decidi ir ao norte de Itália e a Lisboa.”

Visita a família em Lisboa, chega a 17 ou 18 de dezembro, para passar o Natal de 1966. “Vir a Lisboa teve várias razões. Uma delas foi fazer um trabalho, sem estar na tropa, sem ser uma encomenda.” Fotografa na cidade entre os finais de 1966 e o início de 1967.

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António Bracons, Jorge Guerra, AML-F, 2019

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Vindo de Londres, com uma câmara de pequeno formato, a sua Leica M3, e uma teleobjetiva Novoflex de 400 mm, que já havia utilizado antes, no México, estava à vontade para fotografar. “Trazia a máquina com a objetiva escondida na gabardina, tirava-a, tirava a fotografia.” Ela vai-lhe permitir registar o que o sensibiliza: “enquanto caminhava sozinho pelos jardins, miradouros, bairros populares, e junto ao Rio Tejo, fotografar as pessoas de longe sem que elas o vissem, sendo visível nas imagens a cidade, a água do rio e a luz de Lisboa.” – regista-se na apresentação da exposição. Capta as pessoas no espaço público, em deslocação, de passagem. “Eu já estava fora, tinha outro olhar. De fora e de dentro.” Em Lisboa, os olhares tristes e vagos, distantes, reflexo do regime político de então e da guerra colonial: “O país ia-se cobrindo de luto (a juntar à falta de liberdade). Sofrer e calar. Tristeza e silêncio. É esta a Lisboa de Jorge Guerra (que mais ninguém tão melancolicamente fotografou).”, como escreve Jorge Calado.

Recorda que “as pessoas no México eram alegres”, as roupas dos londrinos coloridas e há uma alegria nos jovens, o que contrasta significativamente com os olhares tristes e as roupas escuras dos portugueses, mas toca-o: “As pessoas são pobres, mas são dignas. O cuidado com que se vestem…”

“Em 6, 7 dias tirei 800 fotografias. Não revelei imediatamente, levei um ano para revelar os rolos TRI X” (Kodak 400 ASA).

“Este valioso trabalho documental com imagens nostálgicas de Lisboa, refletem uma sensibilidade humanista, que possibilitaram um reconhecimento e contextualização do seu trabalho ao nível nacional e internacional.”, regista-se na folha de sala.

Com estas imagens  concebe o seu primeiro projeto editorial em fotografia: “Lisboa, Cidade de Sal e de Pedra”, 1967, numa homenagem à obra “Lisboa, cidade triste e alegre”, de Victor Palla e Costa Martins, fotografada 10 anos antes. Recorda: “O nosso café, o São Remo [na Av. Duque d´Ávila]. O José Sasportes chegou e disse: «Vocês têm de ir ver a exposição». E fomos. Fui duas vezes.” (na Galeria do Diário de Notícias, em Lisboa, de 21 a 28 de outubro de 1958; pode ver aqui). A exposição, o olhar, aquela Lisboa, a Lisboa, marcou-o.

A obra de Jorge Guerra ficaria suspensa; algumas imagens seriam publicadas em 1984 no âmbito da exposição “Os Poucos Poderes” (fotografias de Jorge Guerra, com poemas de Ruy Belo e João Miguel Fernandes Jorge, com coordenação de José Sasportes, Fundação Calouste Gulbenkian). Em 1994, no âmbito de Lisboa 1994 Capital Europeia da Cultura, retoma o projeto original, com a publicação e exposição “Mandados Oblíquos”, na Casa Fernando Pessoa, em que as imagens são acompanhadas por excertos da Ode Marítima de Álvaro de Campos e no ano 2000, no Centro Cultural de Belém, apresentou-se a sua maior retrospetiva em Portugal: “Jorge Guerra, quarenta anos de fotografia”.

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António Bracons, Jorge Guerra, AML-F, 2019

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Valter Vinagre, Jorge Guerra numa conversa no AML-F, 2019

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Em 1998, Luísa Costa Dias, então diretora do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, adquire a Jorge Guerra para o Arquivo cem fotografias, uma seleção do autor, que configuram o seu projeto “Lisboa, Cidade de Sal e de Pedra, 1966/67” e se expõem no Arquivo Municipal de Lisboa / Fotográfico de 4 de abril a 29 de junho de 2019.

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Jorge Guerra

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No âmbito desta exposição é editado este fotolivro. 50 anos depois da realização das fotografias, o projeto inicial de Jorge Guerra, “Lisboa, Cidade de Sal e de Pedra, 1966/67”, vê no seu conjunto a luz do dia! Para a edição, houve uma ideia do fotógrafo: de fazer mais uma seleção a partir dos seus negativos: juntam-se numa segunda parte mais 140 imagens, compõem a II série e apresentam-se em pequeno formato em 5 páginas.

Como nas suas outras publicações, o grafismo e a seleção são do próprio Jorge Guerra.

O livro inclui ainda a apresentação, por Isabel Corda, o ensaio “Corpos Urbanos” de Jorge Calado, a anteceder as imagens e, depois, “De Jorge para Jorge”: uma entrevista de Calado a Guerra, uma nota biográfica e o código de referência das imagens.

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Jorge Guerra, Saudade de pedra, 2019

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Jorge Guerra deixa Londres em 1970 e muda-se para Montréal, Canadá, onde começa a trabalhar como assistente do diretor do Conservatire d’Art Cinématographique de Montréal.

Em 1974 funda e foi diretor da galeria de fotografia da Cinémathèque Québécoise e co-editor, com Denyse Gérin-Lajoie (1929-2012), fotógrafa e sua esposa, do “Le magasine “OVO” (1974-1988), surgida numa escola, que viria a dirigir e que veio a ser a principal revista de fotografia do Canadá, tornando-se uma figura fundamental na divulgação internacional da fotografia canadiana naquelas décadas.

Em 1977 cria os Ateliers d’Animation Photographique du Québec e entre 1980 e 87 o Centre de Documentation Photographique de Montréal, passando a dirigir a Galeria Espace OVO.

Jorge Guerra irá abandonar progressivamente o realismo inicial, explorando estratégias compositivas e possibilidades técnicas diversas (introdução da cor, utilização do seu próprio corpo como modelo, etc.).

Como refere Lúcia Marques (“Jorge Guerra”. In: A.A.V.V. – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão: roteiro da coleção”. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 150, 151):

Esta viragem para um universo mais ficcional e intimamente relacionado com a imaginação do fotógrafo prossegue ainda a busca do «real», mas de um real mais controlável e manipulável, sublinhando assim a dinâmica autoral das suas propostas mais recentes, especialmente concebidas para serem editadas em livro.”

Atualmente Jorge Guerra reside em Toronto, Canadá.

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Pode ver a exposição no Fascínio da Fotografia, aqui.

Pode ver uma entrevista a Jorge Guerra, fotógrafo, realizada por Raquel Santos, em 2006, para a RTP, aqui.

Pode ler a “Ode Marítima”, de Fernando Pessoa aqui.

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