AURÉLIO DA PAZ DOS REIS, CENTENÁRIO DA SEBENTA, COIMBRA, 30.04.1899

120 anos da festa do Centenário da Sebenta. A origem da festa da Queima das Fitas.

E também fotografias de António Luiz Teixeira Machado e / ou Adriano Marques.

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Aurélio da Paz dos Reis, Cortejo do Centenário da Sebenta, Coimbra, 30.04.1899. Col. cpf.

Romeiros no Largo da Portagem acompanhados pelos gaiteiros – Na Praça 8 de Maio – Início do cortejo na Rua dos Coutinhos com a Praça Sacadura Botte – Hussards de Cernache, com o carro da Maria [Marrafa] –  “Almirante Rato” e seu Estado-Maior na Portagem – Carro do microscópio – “Pedro do Pífaro” com o carro da Universidade e o estudo da Sebenta (Pad Zé [Alberto Costa]) – Cortejo no Arco do Bispo, junto da Sé Nova – Cortejo no Observatório Astronómico – Grupo Minhoto junto à Biblioteca Joanina (imagem com moldura preta)

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No tempo em que eu andava em Coimbra, ainda a boa e imortal sebenta reinava em todo o seu esplendor! […] era uma espécie de folhinha litografada, formato 8.º, que saía todos os dias compendiando a explicação do lente”,

recorda Trindade Coelho no seu In Illo Tempore, um dos muitos registos de memórias de quantos passaram pela Universidade. Ainda hoje alguns professores usam nas suas disciplinas não livros, mas os seus apontamentos, a que se continua a chamar de sebenta.

E é nesse capítulo intitulado “A Sebenta”, que passa à posteridade os festejos do Centenário da Sebenta, no ano de 1899, parodiando os eventos dos Centenários comemorados entre 1880 e 1898, que homenagearam diversas figuras e factos através de cortejos, fogo de artifício, sarau e touradas, através da descrição feita no jornal “O Século”, entre os dias 29 e 30 de abril, “que , mesmo feita pelo telégrafo, mostra bem o que foi aquilo – que eu vi também porque estive lá!.”, como refere.

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 Coimbra, 29 – Passaram além de toda a expetativa, finamente espirituosas e decorrendo no meio de uma animação sem limites, de um entusiasmo doido, as festas comemorativas do centenário da sebenta, deliciosa charge aos cortejos e centenários dos últimos tempos. … O banquete, a parada e a mudança do nome das ruas, a revista naval e o sarau são festas que não mais se esquecem, tão deslumbrantes de cómico foram.”

O banquete teve lugar no

Largo da Feira, pelo meio-dia, tinha um aspeto extraordinário, tal era a quantidade de gente que se aglomerava em torno das mesas de pinho, cobertas de sebentas, e onde se sentavam os estudantes mascarados, que representavam personalidades oficiais.

Muitos vestiam estapafúrdias e vistosas fardas de oficiais de marinha, com muitos dourados e galões, chapéu armado e grande espada, condecorações de papel e peitilhos de ouro e prata. … e ainda outros casaca e bandas, parodiando os vereadores da Câmara e representando o Município de Coselhas, pequena aldeia das proximidades de Coimbra.

… a ornamentação das janelas de uma república do largo, cheias de cobertores, cadeiras de palha, regadores, botas e todos quantos trastes velhos os estudantes encontraram em casa.

A Rua da Trindade tinha ornamentação idêntica … a profusão de coisas velhas e objetos extraordinários que se viam pendurados das paredes … vendo-se numa das casas os ossos da sebenta.”

Depois do banquete foi inaugurada a estátua a Eloys Snefeld, o inventor da litografia: “o busto era magnífico e erguia-se sobre um pedestal de lona e madeira. Entre terra, pedras e hortaliça”.

Ainda neste dia, a revista naval, “o cortejo dos trinta barcos armados de buxo e vistosamente embandeirados vinha esplêndido … O espetáculo durou até à noite, sempre com a mesma multidão de espetadores.”

O sarau começou às nove horas da noite … começou com o Hino da Sebenta, engraçada composição de Luís de Albuquerque, … foi bisado e muito aplaudido, sendo o seu autor saudado com grande ovação e coberto de flores. … O espetáculo terminou às duas da manhã”.

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António Luiz Teixeira Machado ou Adriano Marques, Centenário da Sebenta, 29 e 30.04.1899, in:  Trindade Coelho, “In illo tempore”, 1902 . 

A imagem que abre o capítulo é um desenho de António Augusto Gonçalves.

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O ponto alto dos festejos, foi no dia 30, o “imponente e espirituosíssimo cortejo”, aberto por “quatro estudantes vestidos de campinos, com enormes pampilhos, montando garranos”, seguem-se estudantes montando burros, a “burra de Balaão, carregada de sebentas, montada por um estudante” e bastantes carros, uns puxados por cavalos, outros por burros e outros animais; entre outros, o carro da Marrafa, conhecida tricana, o carro dos caloiros, o das Dissertações, o do Urso, carroça do “ABC, AEIOU”, que é dito em coro pelos estudantes que lá vão, “para arreliar o «Urso»”, o da Química Orgânica, o da Química Mineral, vários alusivos a diversas províncias, o da “Reforma do Liceu, imitando a torre da Universidade e tendo dentro uma cabra viva”, carros do 1.º e 3.º ano e a padiola do 2.º ano de Medicina, carros da “Faculdade das Tretas”, da “Reivindicação Histológica e Anatómica Social”, carro do Prego, e muitos outros. O cortejo começou às duas da tarde e “dispersou às seis horas no Largo da Feira, depois de passar em continência na Porta Férrea, onde estava o estudante Elói, vestido de rei D. Dinis”.

E, praticamente no final dos festejos, nesse dia 30, “…à noite há grande baile no Restaurante José Guilherme, onde dizem ser a Sociedade de Geografia.”

Ao Centenário da Sebenta, assistiu um número incalculável de forasteiros, “dizendo-se que … mais gente que por ocasião dos festejos da Rainha Santa”, nele participaram grandes vultos, como Afonso Lopes Vieira, autor de algumas das peças e paródias, ficou na memória de muitos e ainda permanece pelas descrições nos tempos de hoje.

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Cent sebenta-vinhetas

Vinhetas do “Centenário da Sebenta”

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O “Centenário da Sebenta” marca a génese da festa da Queima das Fitas como a conhecemos hoje em dia.

A primeira festa da Queima das Fitas data de 1901, dos estudantes do 4º ano jurídico, e contava já com um programa estruturado. Segundo António José Soares, a 10 de Junho de 1903 houve duas queimas das fitas, uma dos quartanistas de direito e outra dos quartanistas de medicina, terminando com uma garraiada na Figueira da Foz, no dia seguinte.

Em 1905 teve lugar o “Enterro do Grau”.

Diversos interregnos sucederam-se até 1918, devido a diversas condicionantes políticas, económicas e sociais da época, como a proclamação da República e a 1ª Grande Guerra Mundial.

Em 1919 o Cortejo dos quartanistas conta com a participação de todas as Faculdades. A partir da década de 1930 a Queima das Fitas ganha uma repercussão enorme a nível nacional, ultrapassando também fronteiras a vários níveis. Nos tempos da censura, era o único momento em que, com alguma liberdade, se podia efetuar alguma crítica ao governo, embora indireta, o que os estudantes aproveitavam, sempre com grande humor e inteligência.

Sobretudo através dos estudantes de engenharia, que faziam os preparatórios – os dois primeiros anos – em Coimbra, tendo depois de concluir o curso na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto ou no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, pois os cursos de engenharia só começaram a ser leccionados integralmente em Coimbra a partir de 1975, a tradição da Queima das Fitas foi transportada para o Porto e Lisboa.

Na sequência da crise académica de abril de 1969, a Queima das Fitas foi suspensa nesse ano, em 1979 a direcção-geral da Associação Académica de Coimbra presidida por Maló de Abreu, consegue organizar pelos seus próprios meios a I Semana Académica de Coimbra que decorreu de 2 a 10 de Junho e permitiu a retoma da festa da Queima das Fitas em 1980.

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A festa do Centenário da Sebenta foi registada pelo fotógrafo portuense Aurélio da Paz dos Reis, em negativos estereoscópicos, em vidro, a preto e branco, de 18 x 9 cm, emulsão de gelatina e sal de prata.

O Centro Português de Fotografia tem nas suas coleções 16 imagens (PT/CPF/APR/001-001/000040 a PT/CPF/APR/001-001/000055), das quais apresento dez; pode ver todas aqui (clica “001 [Fotografias em vidro e película]” e clica em cada uma das imagens para ver).

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São também conhecidas as fotografias de António Luiz Teixeira Machado ou Adriano Marques (não se identifica o autor daquelas imagens) que integram a primeira edição de In illo tempore, de Trindade Coelho (Lisboa, Paris: Aillaud & C.ª., 1902), que mostramos acima.

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Pode ver no Fascínio da Fotografia sobre a fotografia na primeira edição de In illo tempore, de Trindade Coelho, fotografias de António Luiz Teixeira Machado e Adriano Marques, aqui.

Pode ler o capítulo “A Sebenta” (e o resto), na primeira edição de In illo tempore, de Trindade Coelho, aqui.

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Os textos foram adaptados de: António Bracons e José Cura, Carimbos Comemorativos de Coimbra, Coimbra: Clube de Colecionadores de Carimbos Comemorativos da Secção Filatélica da AAC, 2013.

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