SUSANA LOURENÇO MARQUES, ETHER | VALE TUDO MENOS TIRAR OLHOS. UM LABORATÓRIO DE FOTOGRAFIA E HISTÓRIA, 2018

Em 15 de abril de 1982, há 37 anos, abria em Lisboa, a galeria Ether | Vale Tudo Menos Tirar Olhos.

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Susana Lourenço Marques

Ether | Vale Tudo Menos Tirar Olhos. Um Laboratório de Fotografia e História

Texto: Susana Lourenço Marques / Fotógrafos referidos: Ana Leonor, António de Oliveira, Comandante António José Martins, António Pedro Ferreira, Augusto Alves da Silva, Carlos Afonso Dias, Carlos Calvet,Costa Martins, Daniel Blaufuks, Francisco Rúbio, Gérard Catello-Lopes, Helena Almeida, Jacques Minassian, Johan Cornelissen, John Thomson, José Francisco Azevedo, José Loureiro, Mariano Piçarra, Neal Slavin, Paulo Nozolino, Rui Fonseca, Rui Laginha, Sena da Silva, Victor Palla

Porto: Dafne Editora, Porto: Pierrot Le Fou / Novembro . 2018

Português / 17,9 x 24,5 cm / 328 págs.

Cartonado

ISBN: 9789898217462

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A galeria Ether | Vale Tudo Menos Tirar Olhos, em Lisboa, foi decisiva na história da fotografia em Portugal. Mostrou fotografia, publicou fotografia, fez refletir sobre fotografia, chamou a atenção para a fotografia, levou a imprensa a falar da fotografia…

Sobre a génese da Ether | Vale Tudo Menos Tirar Olhos, Madalena Lello Colaço recorda no seu blog “Sais de prata e pixéis.blogspot”:

António Sena, no seu livro, “História da imagem fotográfica em Portugal – 1839-1997”, recorda assim os anos da sua galeria: “Em 1982 é formada a associação e galeria Ether/Vale Tudo Menos Tirar Olhos (1982-1996), sendo fundadores Leonor Colaço, Luís Afonso, Madalena Lello, António Júlio Aroeira, António Sena, José Soudo e Alfredo Pinto, exclusivamente dedicada à fotografia e completamente desligada de qualquer filiação em anteriores Associações Fotográficas. O objectivo da Ether era colmatar as resistências e dificuldades da divulgação da fotografia portuguesa…”. António Sena, o impulsionador do projecto, abria a 15 de Abril desse ano, as portas da galeria com a exposição “Lisboa e Tejo e Tudo” de Victor Palla/Costa Martins.

No nº 25 da Rua Rodrigo da Fonseca, a fachada fora transformada para acolher o espaço da galeria. Um longo e vertical tubo de queda, com todo o seu volume saliente de forma cilíndrica, foi pintado de amarelo. Na parede estreita por cima da porta uma pintura em faixas de cinzento simulava a transposição das intensidades maiores ou menores da luz – o princípio base da fotografia a preto e branco. A fachada dava nas vistas, e quem por ali passava não resistia a parar. E foi o que aconteceu a um fiscal da Câmara que por ali passando em rotina de serviço, deparou com a obra feita de um dia para o outro. Teve que fazer um ofício, mas não resistiu a deixar um bilhete algo inesperado: “Isto foi feito ilegalmente, mas está lindo. Passem por lá para ver se resolvemos a contento.”, e resolveu-se, porque o fiscal tinha olhos.

Ether, designava a natureza da luz – algo volátil e etéreo nos finais do século XIX, quando ainda não se conhecia exactamente a sua composição, à ciência acrescentou-se a sabedoria popular – Vale Tudo Menos Tirar Olhos, porque abrir os olhos para a imagem fotográfica era a essência do projecto.”

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Susana Lourenço Marques destaca:

A Ether/vale tudo menos tirar olhos marcou a cultura fotográfica em Portugal nas décadas de 1980 e 1990. Estruturada como uma associação, organizou exposições e edições que deram corpo a novos olhares e discursos. A recolha, inventariação e leitura crítica realizada por Susana Lourenço Marques permite compreender o seu programa ecléctico e o modo como se estabeleceram as fundações indispensáveis para o reconhecimento de um valioso património de referências históricas.

Ao longo dos seus treze anos de actividade, entre 1982 e 1994, realizaram-se vinte e sete exposições [de 60 autores] que ampliaram a relação entre fotografia, cinema, desenho, pintura e literatura. Este livro percorre essas exposições que recuperam o património fotográfico das décadas de 1930 a 1960, redescobrindo nomes então esquecidos e hoje fundamentais — como Victor Palla e Costa Martins, Gérard Castello-Lopes, António Sena da Silva, Carlos Afonso Dias ou Carlos Calvet — e apresentando uma nova geração de autores — como Daniel Blaufuks ou Augusto Alves da Silva [, Paulo Nozolino, António Pedro Ferreira, Helena Almeida, José Loureiro, Mariano Piçarra, Rui Fonseca, Rui Laginha, José Francisco Azevedo e outros, como o Comandante António José Martins, António de Oliveira, Ana Leonor e Francisco Rúbio, além de estrangeiros, alguns que fotografaram o país: Neal Slavin, Jacques Minassian, Johan Cornelissen e John Thomson].

Esse percurso culminou nas comemorações dos 150 anos da invenção da fotografia com duas retrospectivas-síntese da História da Fotografia em Portugal, onde se forjou a base para a obra seminal de António Sena, a História da Imagem Fotográfica em Portugal.

Este livro não é um mero relato dessa história, e constrói um olhar singular sobre este espaço de produção, formação e circulação da fotografia. Assim se revelam os seus protagonistas, mas, sobretudo, uma relação efectiva com as imagens fotográficas, descoberta nos seus formatos de eleição: as exposições e os livros.”

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Como refere a autora em entrevista ao Observador:

O papel da galeria “era singular no contexto português”, (…) “Construíram um contexto vasto de exposições e de investigação e fizeram algo difícil de associar a uma galeria: a produção das próprias exposições, ou seja, eles próprios ampliavam as fotografias que seriam exibidas. Num só espaço concentravam muitas funções e isso era distinto do que se fazia naquela época”, principalmente dos Encontros de Fotografia de Coimbra nascidos em 1980 e considerados uma referência na fotografia portuguesa.”

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A Ether “contribuiu, juntamente com os Encontros de Fotografia de Coimbra, os Encontros da Imagem de Braga ou a atividade das galerias Módulo, Roma e Pavia, Monumental, Diferença e Imago Lucis, para uma profunda mudança na cultura fotográfica em Portugal”, lê-se. Isto numa época em que a fotografia, e não só em Portugal, estava ainda cotada como arte menor, “instrumento sem autonomia nem valor próprio”, como notava o crítico Alexandre Pomar em 1982, num artigo publicado no Diário de Notícias, citado na obra.

Este livro, que tem por base a tese de doutoramento de Susana Lourenço Marques, traça a história da Ether, recorrendo aos testemunhos de António Sena, a alma do projeto, e de muitos dos que a criaram e que passaram por ela e através das 27 exposições realizadas,

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Susana Lourenço Marques, Ether | Vale Tudo Menos Tirar Olhos. Um Laboratório de Fotografia e História, 2018

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Susana Lourenço Marques (Caldas da Rainha, 1975), é doutorada (2016) em Comunicação e Arte pela na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é professora na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

É autora dos livros Lições de Hospitalidade (2006) e Pó, Cinza e Nevoeiro, ensaio sobre a ausência (Prisma, 2018) e co-editora de Ag, reflexões periódicas sobre fotografia (Porto, 2009).

Comissariou as exposições Plano Geral, Grande Plano (Casa da Memória, 2013) e Quem te ensinou? — Ninguém, de Elvira Leite (FBAUP, 2016; no Fascínio da Fotografia aqui).

Em 2014 foi co-fundadora da editora Pierrot le Fou.

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Pode ler o texto integral de Madalena Lello, aqui.

Sobre a exposição inaugural, “Lisboa e Tejo e tudo”, no Fascínio da Fotografia, aqui.

Pode ler a entrevista publicada no jornal Observador de 05.12.2018, aqui.

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