HELENA CORRÊA DE BARROS: FOTOGRAFIA, A MINHA VIAGEM PREFERIDA

Exposição no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, na R. da Palma, 246, em Lisboa, de 18 de outubro de 2018 a 23 de fevereiro de 2019

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Helena Corrêa de Barros, Fotografia, a minha viagem preferida, 1950-1978

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Desde pequena que a fotografia foi para mim o passatempo mais agradável. Nunca fiz nenhuma viagem sem levar a máquina comigo e, muitas vezes, o prazer maior era o de poder tirar fotografias: se, por qualquer motivo, me não era possível fazê-lo, o passeio não tinha para mim o mesmo encanto. (…)»

Helena Corrêa de Barros, in “Fotografia: Revista ao Serviço da Arte Fotográfica”, Lisboa, A. II N.º 8 (fev.-mar. 1955) p. 14

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Helena Corrêa de Barros, Debandada, 1950

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A coleção de fotografia de Helena Corrêa de Barros (1910-2000) foi doada ao Arquivo Municipal de Lisboa pela família em 2003, é constituída por álbuns, negativos a preto e branco, provas a preto e branco de vários formatos e diapositivos a cores Kodachrome.

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Helena Correa de Barros (1)

Helena Corrêa de Barros em Atenas, Grécia 

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Helena Corrêa de Barros iniciou-se na fotografia a preto e branco, em 1924, com apenas 14 anos, com o pai, Fortunato Abecassis, responsável por empresas como a Abecassis, a Lusalite ou a Companhia de Seguros Mundial.

A sua fotografia, que considerava artística, era a preto e branco. Integra o Foto-Clube 6×6, de Lisboa, através do qual participou em diversos salões nacionais e internacionais (exposições / concursos de fotografia, abertos a amadores e profissionais), sendo, em múltiplos casos, a única mulher portuguesa a participar, a par de outros autores. Também com o Foto-Clube 6×6 fez diversas viagens em Portugal, especialmente destinadas a fotografar. Não nos esqueçamos que na época os foto clubes eram o modo privilegiado de fazer e mostrar fotografia.

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Helena Correa de Barros (2)

Helena Corrêa de Barros, Fotógrafos amadores do Foto-Clube 6×6 em digressão fotográfica à Nazaré 

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As suas fotografias a preto e branco (mostradas na galeria do 1.º piso) mostram uma modernidade no olhar de Helena Corrêa de Barros – HCB – como Henri Cartier-Bresson e tal como o olhar deste, uma exatidão do enquadramento e, nalguns casos, de um momento decisivo. E, tal como ele, a sua câmara é uma Leica.

Mas se as suas imagens a preto e branco são significativas e as mostradas são todas da década de 50, as fotografias a cores (apresentadas no piso térreo, na sala grande do Arquivo), são cheias de cor e de vida: impressões digitais a partir dos slides Kodachrome, com os quais fotografou a família, os passeios e as viagens, as imagens especialmente pessoais e intimistas, tornando a “Fotografia, a minha viagem preferida”.

O seu olhar é um olhar moderno, dinâmico, vivo.

Helena Corrêa de Barros começou a fotografar com Kodachrome em 1947, no final da II Guerra Mundial, quando se inicia a reconstrução da Europa devastada (Portugal não foi destruído e, portanto, não foi reconstruído), mas onde chegavam também os novos materiais e equipamentos. Fotografa até 1998.

Aproveita os passeios e as viagens para fotografar. Nalguns casos pontuais, é ela que também figura na fotografia.

Como escreve Filipa Lowens Vicente no jornal Público:

O seu olhar de viajante é inseparável do seu olhar de fotógrafa. Mais perto: Óbidos, Setúbal, Sagres, Monsanto, Nazaré. Mais longe: Lugano, Cortina, Monte Carlo, Roma, Veneza, Cannes, Florença, e Londres, Granada, Biarritz. Ou ainda mais longe: Angola, Camboja, Japão, Manila, Brasil, Banguecoque, Macau, Singapura.”

Helena vê de onde se encontra, vê com o coração. As fotografias registam as paisagens, os horizontes vastos, os monumentos e as pessoas: familiares, amigos e também pessoas desconhecidas que, como ela, partilhavam no mesmo momento os mesmos locais. Por vezes, o olhar é quase vertical, como sobre o escorrega para a piscina (retrata uma das filhas) ou dos pequenos barcos de vendedores ou dos rapazes a mergulhar, na Madeira, desde o seu navio de cruzeiro.

O mar é também uma das suas paixões. Tinha um barco, no qual fazia passeios com amigos e com a família. O mar está presente nas suas fotografias, quer a preto e branco –  «“fainas”, “redes”, “embarcações de pesca”, “barcos na Nazaré”, “paisagens marítimas” ou “fluviais”, “pesca do atum”, “docas”, “pescadores”, “praias” e “portos”» – quer a cor: «Do Mediterrâneo ao Arno. Do Reno aos lagos suíços. Dos veleiros dos amigos e dos cruzeiros. Das regatas em Cascais ou da praia Grande.»

É também a cores que regista alguns momentos da História, como a chegada a Lisboa do presidente Américo Tomaz, em 1963, vindo de S. Tomé, de navio, ou a construção da ponte sobre o Tejo, Ponte Salazar, hoje Ponte 25 de Abril: já havíamos visto algumas imagens na exposição “Implosões, construções e demolições” também no Arquivo (pode ver aqui).

Cada imagem está identificada com o título, data, local: a identificação que Helena registava no verso da fotografia ou na moldura do diapositivo e que o Arquivo preservou na identificação.

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A fotografia de Helena Corrêa de Barros é essencialmente um registo de um Portugal da segunda metade do século XX e do mundo visto por uma portuguesa,

é o país de uma elite portuguesa, que combinava um à-vontade económico com a serenidade de não se opor ao regime político salazarista, um país que “vemos” menos porque está ainda guardado, e invisibilizado, nos álbuns de família, ou nas caixas de plástico com slides, no interior das casas das pessoas que as protagonizaram. Fotografaram-se entre si e para si. Não foram feitas para serem vistas para lá do seu entorno.”,

nas palavras de Filipa Lowens Vicente.

As suas filhas aperceberam-se da riqueza do espólio, que doaram ao Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, permitindo tornar pública uma vivência, conhecer melhor a história do nosso país e, sobretudo, contribuir para a construção da História da Fotografia em Portugal.

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O Arquivo dá a conhecer a obra de Helena Corrêa de Barros através de uma exposição: “Fotografia, a minha viagem preferida”, patente no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, na R. da Palma, 246, em Lisboa, de 18 de outubro de 2018 a 23 de fevereiro de 2019.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2019

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Com a exposição foi editado um catálogo que reproduz as imagens expostas e inclui diversos ensaios (no FF aqui).

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Pode ver as fotografias de Helena Corrêa de Barros no site do AML|F, aqui.

Pode ler o artigo de Filipa Lowens Vicente com Sérgio B. Gomes, “A obra adormecida de Helena Corrêa de Barros acordou”, no suplemento Ypsilon do jornal Público de 02.12.2018, aqui.

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