QUEL AMOUR!?

Dia de S. Valentim

Exposição no Museu Coleção Berardo, na Praça do Império em Lisboa, de 11 de outubro a 17 de fevereiro de 2019

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Convite para a exposição (inauguração)

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O Amor é essencial na vida de cada pessoa.

Vívido e exprimido de diferentes formas, na arte assume as mais diferentes representações.

Quel Amour!? reúne artistas de diferentes gerações, países e culturas para os quais o Amor foi fonte de inspiração. Indubitavelmente, o Amor é dos sentimentos mais determinantes da vida humana, pelo que foi e é ainda um tema presente na história da arte.

A humanidade, em geral, e os artistas, em particular, pela sua sensibilidade, sentem a necessidade de exprimir este sentimento, tão pessoal e diverso, que se manifesta de inúmeras maneiras. É esta pluralidade que se pretende explorar em Quel Amour!?.
Esperamos que seja um ponto de partida para uma reflexão mais profunda sobre o tema do Amor, sobre a sua diversidade e transversalidade, contribuindo assim para uma melhor compreensão de nós próprios e do nosso mundo.

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Esta exposição foi concebida e coproduzida pelo [mac] musée d’art contemporain de Marseille e pelo Museu Coleção Berardo. A curadoria é de Éric Corne, que sobre a exposição escreve na folha de sala o texto abaixo.

É sobre esse texto que olho para a fotografia na exposição, que reúne também desenho, pintura, escultura, vídeo e instalação.

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António Bracons, “Quel Amour!?”, 2019

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Amor, o olhar fixo

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≪De onde nasce o amor das origens

senão das origens do amor?

Daquilo que não continuara

e que igualmente nunca terminara.≫1

J.-B. Pontalis

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Helena Almeida, Sem título, 2010 – Dois espaços, 2006 – Ouve-me, 1979

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≪Amour, amour…≫, assim expressa a voz cantada de Anne Germain — em ≪Peau d’ane≫, de Jacques Demy — tanto as ilusões como as desilusões deste sentimento. ≪L’amour se porte autour du cou, le coeur est fou≫2, e assim soara nesta exposição o explorar das possibilidades.

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Francesca Woodman, Face, Providence, Spring, 1976 – New York, 1976 – From Space 2, Providence, March, 1976 – [Untitled (Rome), 1977-1978]

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O amor, por vezes sentido como um conceito desgastado e vago, permanece mais do que nunca no centro dos nossos encantamentos e das nossas litanias, vãs ou incertas. O amor é o grande assunto, o único que, como diria Stendhal, reanima a vida… Todos temos um amor ≪a…≫ nos nossos bolsos, por vezes esquecido, maltratado, acarinhado ou imprevisto, cuja única medida seja a desmesura.

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A exposição Quel Amour!?, pelo seu próprio título, contendo um interrobang, procura traçar possibilidades. Como tal, o olhar do visitante oscilara entre o ponto de exclamação e de interrogação, imerso na iminência da questão ou passando da estupefação para o deslumbramento. As verdadeiras respostas deixam-se descobrir na abundância. Assim, esta exposição enriquece-se de pontos de vista, de tonalidades, de vagabundagens, de climas, de perturbações ilógicas e de sensibilidades várias, percetíveis, perfetivas, defetivas; ao amor, não podemos dar-lhe a volta, mesmo aceitando as suas reviravoltas. A exposição não pretende ser nem uma descrição nem uma interpretação imagética inequívoca: foram selecionadas obras de artistas históricos ou da cena contemporânea, de culturas e de gerações diferentes, por forma a criar uma alquimia viva e misteriosa, através da sua coexistência e coincidência, entre a pertinência e a impertinencia.

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Wolfgang Tillmans, Installation (Andrea Rosen Gallery, South Wall), 2002-2003

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A poucos dias da montagem da exposição, imagino por exemplo a proximidade entre Oedipus Rex, de Francis Bacon, e as fotos de Antoine d’Agata, comparações entre as esculturas de Kiki Smith e as de Germaine Richier e Mark Manders, entre as narrativas dos desenhos de Pierre Klossowski e Picture Emphasizing Stillness, pintura magica de David Hockney na qual a calma do encontro entre dois seres prefigura o drama subjacente; ou ainda entre a abundancia luminosa da matéria colorida dos dois quadros de Adolphe Monticelli em relação aos de Eugene Leroy e as potenciais imagens destes. De facto, conceber uma exposição, a fortiori sobre o amor, requer que se trabalhem as conexões de sensibilidade que atuam entre as obras.

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Miriam Cahn, Bebé chorão + partes de corpo, 2014 (slideshow)

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≪O vagabundo possui dois relógios que não podem ser comprados na Tiffany; num pulso o sol, no outro a lua, ambas as braceletes são feitas de céu.≫3 Trata-se de pôr o amor em órbita de um outro planeta para convidar íntima e fisicamente o visitante a adquirir um outro olhar sobre as obras.

E esta manifestação não poderia ser concebida senão mediante a fricção entre as fontes e motivações alusivas ao amor, sem ocultar as antinomias relativas à sua própria natureza. O real inclui o amor. Esta é pelo menos uma das questões que não pode ser consignada pela imagem, visto que a relação que mantemos com aquele nunca e perspicaz. A imagem e o amor unem-se no phantasme ou na phantasia de um real persistente e constantemente pressuposto.

As exposições e os colóquios de filosofia regressam cada vez mais frequentemente ao tema do amor. Será isto uma tentativa de resposta ao desencanto contemporâneo?

Os discursos conservadores sobre o amor tão-só contribuem para este desespero e desencorajamento, ao justificarem a recusa de qualquer libertação das normas da sexualidade. O amor está, no entanto, como dizia Rimbaud, ≪sempre pronto a ser reinventado≫, porque se situa nessa zona cinzenta dos nossos afetos, da nossa experiência da felicidade, da liberdade, da emoção, da dor — todas feridas nas nossas almas. Os filmes minuciosos e luminosos de Sebastien Lifshitz ou de Thomas Sipp, assim como o diário filmado de Remi Lange e os storytellers fotográficos mimetizados e murmurados de Duane Michals, são testemunhos impressionantes.

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Duane Michals, Chance meeting, 1970

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Os nossos contemporâneos perderam-se de amores pela sua própria imagem: a prática da selfie ou a gravação e o arquivar de cada segundo por parte da fotografia, tornados mantras da fugacidade do tempo, ou pelo menos da sua aceleração, podem ser vistos como uma desmaterialização do Outro, ou pelo menos da sua desaprazida dissemelhança. Fenómeno que não podemos facilmente sintetizar num narcisismo contemporâneo; o abandono do Outro entra em jogo. O Eu e definitivamente o Outro.

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Ernesto de Sousa, Révolution my body, n.º I, 1977

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Ernesto de Sousa, Olympia

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≪A humanidade, que outrora, com Homero, havia sido objeto de contemplação para os deuses do Olimpo, é-o presentemente para si mesma. A alienação de si mesma por parte de si mesma atingiu este grau, que a obriga a viver a sua própria destruição como uma sensação estética de primeira ordem.≫4

Artistas como Helena Almeida, Pilar Albarracin, Francesca Woodman, Nan Goldin, Sophie Calle, Chantal Akerman, Antoine d’Agata, Jean-Luc Verna, assim como Michele Sylvander, Joao Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira e Ernesto de Sousa, investem nesta alienação através de autoficções fotográficas ou audiovisuais — ou sob a forma da instalação, como o faz Cristina Ataíde. As estratégias discursivas daqueles são uma experiência da presença num mundo onde contestam a ausência do Outro e o obrigam a existir alem da fragmentação, da polissemia e da ambiguidade do sentido. O que está em jogo nas obras em questão encontra-se muito para lá de uma passagem unívoca e límpida do signo ao referente, dos seus corpos (sensuais ou sociais, políticos ou polimórficos) a imagem. ≪Quando o próprio Amor aos teus amores tu impões.≫5

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Nan Goldin, Man and woman in sleeps, New York City, 1980 – Warren and Jery fighting, 1978 – The Hug, New York City, 1980

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Nan Goldin, All by myself, 1995(Apresentação de 83 diapositivos, com som, 5’30”, intitulado “All by myself” por Eartha Kitt)

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La Mariee, de Niki de Saint-Phalle, com a fatiota de objetos em queda livre impedida, e emblemática de Quel Amour!?. A sua obra fustiga toda e qualquer norma social; as suas noivas são heroínas da tragedia dos casamentos forçados.

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O desejo destes amores!? traduzidos, entoados, encenados ou reencenados pelos artistas exprime uma salvaguarda, uma resistência, uma combatividade face ao desespero atual, e logo oferece uma possível transgressão através de uma subversão dos limites e das normas. Os artistas invocam a linguagem do desejo, libertam a palavra numa língua que permanece constante e é jamais estrangeira. É um dos preciosos paradoxos consignados pela exposição. ≪Para mim, o corpo é uma escultura, o meu corpo é a minha escultura≫, reclama Louise Bourgeois. Na mesma época, em 1969, Helena Almeida declara: ≪O meu trabalho é o meu corpo; o meu corpo é o meu trabalho.≫ Mesmo procurando nas suas esculturas o metacorpo e a sua transcendência, a sua hibridação animal, a obra de Kiki Smith parte de uma premissa próxima, tal como as de Jean-Luc Verna e Ana Mendieta.

O corpo do amor, o amor ao corpo (e aos corpos) e o amor à arte formam um nó górdio que insere os artistas na diversidade das suas práticas quotidianas. ≪Fundamentalmente, penso que a arte seja apenas uma forma de pensar. É como se nos puséssemos ao vento e o deixássemos levar-nos aonde quer que pretendesse ir.≫6

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Antoine d’Agata, Phnom Pehn, 2008

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Antoine d’Agata, Autoportraits, 1986-2017, 2018 (Políptico de 260 pequenas fotografias emolduradas)

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Quer evoque Ágape, quer Eros, o amor espiritual ou o amor físico, sofrido ou libertador, sagrado ou profano, desejamos uma exposição vivificante para os visitantes, cujas experiências intimas do amor poderão projetar-se (expor-se) face as propostas dos artistas: com Wolfgang Tillmans e a sua instalação fotográfica, ou com os que recusam os estereotipos culturais, como Pilar Albarracin, com a tauromaquia — ou outros, como Rosemarie Trockel ou Annette Messager, que operam desvios sensíveis dos arquétipos masculinos ou femininos. ≪Já que o amor ensina todas as artes, sigamo-lo como a um mestre.≫7

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Annette Messager, Mes voeux, 1988 – Le Couteau-Baiser, 1983

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O amor, por vezes uma explosão de sentidos na qual o prazer feminino se liberta do interdito, de qualquer norma masculina ou da posição de musa lasciva e prazenteira, torna-se uma busca pelo Eden ou pelo Inferno. Neste sentido, as pinturas tomadas pela urgência expressionista de Raphaele Ricol, pelos noturnos de amor de Adrian Narvaez Caicedo, pelas subtis fantasmagorias de Karine Rougier, pelas tintas de Tracey Emin dilacerando o próprio suporte, pelos guaches irradiantes de Marlene Dumas, pelo traço filamentoso ou grafítico de Elisabeth Garouste são as chamas que se rebelam contra qualquer supressão do desejo e do sentimento amoroso. O Eden adjaz ao Inferno; a energia sexual, a morte. Estes ventos contrários são igualmente o tema dos desenhos intensos de Annette Barceló, ou da pintura de Cheri Samba. Identicamente surgem as treze luas que iluminam os desenhos narrativos de Daphne Chevallereau, e a inquietante estranheza que ressoa com este fragmento d’As Cartas Portuguesas: ≪É preciso artifício para se ser amado, e preciso procurar com alguma habilidade as formas de inflamar, e o amor por si só não dá qualquer amor.≫8 Também a lua e revisitada pela intensa poesia de William Kentridge na curta-metragem Journey to the Moon, na qual oferece um olhar intimo sobre o seu processo criativo — tanto física como psicologicamente.

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Pilar Albarracín, Soléa por Músculos, 2016 – Vísceras por Tanguillos, 2016

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O desejo masculino e a sua pulsão escopofílica revelam o corpo feminino ou masculino, desejando ou sendo desejado, sob a forma de narrativas pictóricas em Bhupen Khakhar e Mohamed Ben Slama. Pinturas cinzeladas entre Eros e Ágape são para Gérard Garouste, como para Omar Ba, recitativos coloridos sobre as mitologias daqueles, pessoais ou africanas. O imenso Rouge, nus (1994), obra de Gérard Fromanger, faz-nos mergulhar no desejo da pintura e dos corpos que se envolvem e enredam na apostasia carmesim.

A instalação de desenhos de Raymond Pettibon (LOVE), e aqueles de Gonçalo Pena, e aqueles sobre a mesa de Mattia Denisse, e as pequenas pinturas de Jan de Maesschalck, são mosaicos do desejo ou da inquieta urgência da alteridade do corpo e dos sexos, a sua lei e o seu mistério.

Os murais de pintura de Eugene Leroy, nos quais os corpos luminosos se enlaçam e assim resistem sobre a ganga da matéria pictórica, avizinham-se dos desenhos de Pierre Klossowski, que roubam aos espelhos os traços transparentes dos enigmas do amor profano e divino.

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  • Amor secreto, feérico e trágico com as obras de Claude Leveque, nas quais, sob a aparente melancolia das instalações, teatro sem teatro, se revela sempre um manifesto político.

  • Amor de corpo ferido ou triunfante, mesmo se encharcado de sangue, como um coração que bata e resista sob a violência dos conflitos íntimos ou bélicos, como nas pinturas de Miriam Cahn.

  • Amor de êxtase, encoberto pelas lagrimas, que subtende as obras imensas de Paula Rego e de Francis Bacon, nas quais a tragedia não exclui a luz.

  • Amor derrotado, sofrido pelas mulheres no cenário das periferias americanas encenado pelo fotógrafo Todd Hido.

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Todd Hido, #11177-7718, 2013 – #9545-a, 2011

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  • Amor que grita e, no mesmissimo movimento, liberta e enreda, no video Turbulent (1998), obra de Shirin Neshat.

  • Amor sacrílego, das fotografias ardentes dos corpos que, antes de se desfazerem sob a luz, Eric Rondepierre capta.

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Éric Rondepierre, Couple, passant, 1996-1998 – Convulsion, 1996-1998

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  • Amor escondido, na pintura de James Rielly de um casal gay no seu casamento finalmente celebrado.

  • Amor-assemblagem, do qual se descobrem imagens potenciais nas colagens (casamentos) de John Stezaker.

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John Stezaker, Marriage (Film portrait collage) LXXXVIII, 2013 – Untitled, 2015 – Mask (Film portrait collage) CLX, 2005 – Kiss XI, 2013

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  • Amor e a sua espera, que desenha a grafite meticulosa de Jerome Zonder no seu Portrait de Garance.

  • Amor frágil daqueles dois corpos abraçados para toda a eternidade na resina — amor que não concede qualquer idealismo —, na verista e hiper–realista escultura Arden Anderson and Norma Murphy (1972), de John De Andrea. ≪Porque o ser amado se torna uma personagem de chumbo, uma figura irreal que não fala, e a mudez, no sonho, e a morte.≫9

  • Amor epistolar, com a apresentação de cartas de amor pertencentes a coleção de Anne-Marie Springer.

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Além disto, também casais de artistas, por vezes trabalhando em conjunto, se encontram no centro da exposição. Marina Abramović e Ulay, Axel Pahlavi e Florence Obrecht, Gérard Garouste e Elisabeth Garouste, Helena Almeida e Artur Rosa, Lourdes Castro e Manuel Zimbro. Colaboração ou coabitação, eles descobrem-se nas suas obras, realizando-as a quatro mãos ou enquanto primeiros observadores, cúmplices íntimos.

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Marina Abramovic & Ulay, Breathing out / Breathing in, 1978 (vídeo)

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≪No princípio está a relação≫, dizia Martin Buber. A vida partilhada implica, ou exige, uma comunicação, uma partilha que se realiza no diálogo.

≪Foi daí que partimos, do amor enquanto deus, ou seja, como realidade que se manifesta e revela no real. […] Esta mão que se estende em direção ao fruto, em direção a rosa, em direção à fogueira que se acende subitamente, o seu gesto de alcançar, de atrair, de atiçar, esta em solidariedade intima com a maturação do fruto, da beleza da flor, do calor da fogueira. Mas, quando neste movimento de alcançar, de atrair, de atiçar a mão chega longe demais, seja do fruto, da fogueira, da flor sai uma mão que se estende em busca da vossa mão, e neste momento e a vossa mão que congela na plenitude fechada do fruto, aberta a flor, na explosão de uma mão que arde — então, o que se produz nesse momento e o amor.≫10

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A seleção de artistas é internacional porque, se o sentimento do amor e universal, a evocação deste e diversa nas suas manifestações no seio das culturas e civilizações. As perceções do amor são singulares e diferentes no Ocidente, no Oriente, na Asia, na Africa do Norte ou na subsariana…

O amor, a sua partilha e o seu imaginário são provavelmente um dos fundamentos das nossas frutuosas alteridades.

Uma outra dissemelhança inerente ao amor e ao entendimento deste e a perceção sensível e intelectual peculiar as mulheres e aos homens. Viveremos nós a linguagem do amor em conformidade com o nosso género, a nossa sexualidade? Respeitar a paridade entre os artistas, levar a cabo um exercício sobre estas ambiguidades de género, assim como da condição política, e estes mistérios do amor, que se impõem ao feminino-masculino, masculino-feminino, feminino-feminino, masculino-masculino… eram exigências que não poderiam ser ignoradas.

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João Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira, The Wedding, 2017

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As obras e os artistas têm a sua autonomia e não devem ficar presos a uma tese. Em vez de uma tese, devemos focar-nos na questão do motivo do amor e da sua iminência. A diferenciação entre o tema e o motivo do amor e realmente importante: o tema apresenta certa tese, certo conteúdo; enquanto o motivo e aquilo que reúne — o ponto de partida de uma estratégia discursiva, de uma pesquisa em colaboração com os artistas, cujas obras ressoam numa constelação de questões sobre o motivo do amor e sua furtiva imprevisibilidade.

A iminência do desejo, seja esta de que tipo for, encontra-se no centro da exposição. Como e que se manifesta a prática artística no motivo do amor, do intimo e/ou do prazer (ou da repulsa) através de posições artísticas poéticas, icónicas, plásticas, cinematográficas, expressivas, discursivas, performativas, enunciadoras, vocais? Este questionamento torna-se percetível para o visitante por meio dos acordos e desacordos entre as obras.

Imaginou-se Quel Amour!? como um grande panorama, a experiência de uma visão de que podemos apropriar-nos ou a ocasião para que nos percamos nas suas reflexões — já que o amor (a união) e o seu contraponto, a divergência (fragmentação), são precisamente aquilo que ultrapassa qualquer apropriação definitiva.

Estes gestos de amor pela parte dos artistas através das suas obras, expostas como verdade fundamental, não apagam as outras verdades, particularmente a da conciliação que bordeja por entre as aparentes contradições do desejo e do íntimo, da vida e da atração pela morte, da inquietação sexual e do amor maternal ou paternal, da graça divina e da sua transgressão. E por isto que a obra pictórica de Albuquerque Mendes, que explora As Cartas Portuguesas e os seus sudários, procura a divisão entre o eu amoroso e o eu religioso. O vazio de Deus, estando ele ocupado ou não, sem expressão…

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Sophie Calle, Le faux mariage, 1992

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≪Lamento, por amor a ti tão-só, os prazeres infinitos que perdeste. Terás sequer querido gozá-los? Ah!, se os tivesses conhecido, terias percebido sem duvida que são mais afáveis do que aquele de me teres iludido, e terias entendido que e mais jubiloso, e que denota qualquer coisa muito mais tocante, quando se ama violentamente do que quando se é amado.≫11

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Rémi Lange, L’homme a la Moto d’Amour, 2014 – Le fétichiste, 2014 (vídeo)

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Duas entradas, que os visitantes escolhem aleatoriamente, dão acesso a exposição, a imagem das duas portas na Odisseia ou na Eneida — a das ilusões ou a dos sonhos que se realizam, pelas quais Ulisses e Eneia devem passar para sair do Inferno.

O amor é um cão vindo do inferno.12

Conforme a escolha de uma entrada ou da outra, o percurso desdobra-se segundo pontos de vista de sensibilidade e de intelectualidade diferentes. As obras que encontramos nestas duas entradas são, por um lado, Journey to the Moon, de William Kentridge; pelo outro, Wild Woman (Maria Magdalena), de Kiki Smith, com a sua intensa gravidade e com a graça divina de um corpo por fim libertado. Estas duas obras são determinantes para o sentido a conceder a visita; possivelmente, as amadas, os amados, os amigos seguirão percursos opostos, reencontrar-se-ão, perder-se-ão caminhando por entre as obras de Quel Amour!?, e dialogarão como se num banquete…

Ocasionando-se a reunião de obras de artistas contemporâneos e de outros de gerações mais antigas (Monticelli para o seculo XIX; Germaine Richier, Louise Bourgeois, Francis Bacon, David Hockney para o seculo XX), o objetivo foi trazer, transportar o passado, luz e sombra confundidas, para o presente comum. Para a sacerdotisa e profetisa de Platão, Diotima, o Amor e intermediário, intermédio, intermediador.

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Michèle Sylvander, Un jour mon prince viendra, 2012 – Object trouvé n.º 1, 2002 (Da série Mirage, 2002)

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A exposição Quel Amour!? surge à imagem das exuberantes e contrastantes cidades que são Marselha e Lisboa, onde e agora apresentada: o amor mitológico nasce da pobreza e da opulência. Quel Amour!?, tanto pelo seu lugar como pela sua fórmula, foi igualmente imaginada e concebida em e para Marselha e Lisboa, estas duas cidades marítimas.

Se, como escreveu Pierre de Marbeuf, ≪o mar mais o amor são igualmente amargos≫13, aquelas cidades são as que se imaginaram para amarrar estes amores.

≪E então apercebi-me também que estava no ridículo ao prometer-vos fazer convosco a minha parte no louvor de Eros, e ao gabar-me de ser especialista no amor, quando nada compreendia da forma de louvar, seja isto o que for.≫14

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António Bracons, “Quel Amour!?”, 2019

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Notas:

1 J.-B. Pontalis. L’Amour des commencements. Gallimard, coleção Folio, Paris, 1994, p. 70.

2 «O amor leva-se à volta do pescoço, o amor é louco.» [N. do T.]

3 Jack Kerouac. Le Vagabond américain en voie de disparition. Gallimard, Paris, 1969, p. 240.

4 Walter Benjamin. «L’oeuvre d’art à l’époque de sa reproductibilité technique», in Écrits français. Gallimard, Paris, 1991, p. 172.

5 Jodelle, soneto preliminar em Amours, de Ronsard, 1553.

6 Kiki Smith, 2003: «Basically, I think art is just a way to think. It’s like standing in the wind and letting it pull you in whatever direction it wants to go.»

7 Marsílio Ficino. Commentaires sur le Banquet de Platon. Les Belles Lettres, Paris, 1956, p. 166.

8 Guilleragues, As Cartas Portuguesas, 1669, «Carta V».

9 Roland Barthes. Fragments d’un discours amoureux. Éditions du Seuil, Paris, 1977, p. 200.

10 Jacques Lacan. Le Séminaire, VIII, Le Transfert (1960–1961). Éditions du Seuil, Paris, 1991, p. 67.

11 Guilleragues, As Cartas Portuguesas, 1669, «Carta III».

12 Segundo o título do romance de Charles Bukowski.

13 Pierre de Marbeuf (1596–1645), «Et la mer et l’amour».

14 Platão. Le Banquet, 190 a–b. Garnier-Flammarion, Paris, 2001, p. 115.

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António Bracons, “Quel Amour!?”, 2019

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Quel Amour!?, está em exposição no Museu Coleção Berardo, Praça do Império, em Lisboa, de 11 de outubro a 17 de fevereiro de 2019. Esteve exposto em Marselha no musée d’art contemporain de Marseille, de 14 de fevereiro a 1 de setembro de 2018.

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Obras de: Marina Abramović & Ulay, Chantal Akerman, Pilar Albarracín, Albuquerque Mendes, Helena Almeida, Cristina Ataíde, Omar Ba, Francis Bacon, Richard Baquié, Annette Barcelo, Mohamed Ben Slama, Louise Bourgeois, Miriam Cahn, Sophie Calle, Lourdes Castro, Marc Chagall, Daphné Chevallereau, Antoine D’Agata, John De Andrea, Jan De Maesschalck, Jeremy Deller & Cecilia Bengolea, Mattia Denisse, Marlene Dumas, Tracey Emin, Gérard Fromanger, Élisabeth Garouste, Gérard Garouste, Nan Goldin, Todd Hido, Alex Katz, William Kentridge, Bhupen Khakhar, Sanam Khatibi, Pierre Klossowski, Rémi Lange, Eugène Leroy, Claude Lévêque, Sébastien Lifshitz, Mark Manders, Annette Messager, Duane Michals, Adolphe Monticelli, Adrian Narvaez Caicedo, Shirin Neshat, Florence Obrecht & Axel Pahlavi, Gonçalo Pena, Raymond Pettibon, Marc Quer, Paula Rego, Germaine Richier, Raphaëlle Ricol, James Rielly, Éric Rondepierre, Karine Rougier, Chéri Samba, Thomas Sipp, Kiki Smith, Ernesto de Sousa, John Stezaker, Michèle Sylvander, Wolfgang Tillmans, Rosemarie Trockel, João Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira, Joana Vasconcelos, Jean-Luc Verna, Kara Walker, Francesca Woodman, Jérôme Zonder.

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