DAVID GONÇALVES, UMBRA, 2018

Exposição em Lisboa, no Espaço AZ, Travessa da Fábrica dos Pentes n.º 10, de 6 de dezembro de 2018 a 4 de janeiro de 2019.

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David Gonçalves, Umbra, 2016-2018

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David Gonçalves

Umbra

Fotografia: David Gonçalves / Texto: José Carlos Pereira / Design gráfico: Fernando Estevens

Guimarães: Opera Omnia / Novembro . 2018

Português e inglês / 16,4 x 24,0 cm / 48 págs

Brochura / 500 ex.

ISBN: 9789898858351

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UMBRA apresenta um conjunto de vinte e três imagens realizadas entre 2016 e 2018, em cidades na Europa: Lisboa, Porto e Braga em Portugal e Berlim, na Alemanha.

Umbra reflete a decadência e o abandono, a sombra e a penumbra (do latim umbra), numa “reflexão da situação atual do mundo contemporâneo”, da cidade, das vivências. As pessoas estão presentes na sua ausência; não há rostos, quase não há corpos; a cidade à noite, deserta, ausente, através de diferentes cenários: o matadouro, a estrada iluminada, o muro alto, com escritos que mal se percebem, a cortina do palco fechada esconde a cena, a campa com flores, a mão que segura a arma, o candeeiro que ilumina um vazio degradado…

Enquanto prova documental, a fotografia expõe a sua crítica social e política perante um cenário constituído por ruínas e destroços. O combate entre a luz e a sombra resulta num modo de observação particular. A luz escassa revela a fragilidade que rodeia o homem, a escuridão filtra aquilo que é estritamente necessário de se observar. O ato de mostrar apresenta-se como um desvelamento, a necessidade de vislumbrar o medo do homem e o abandono do mundo. A urgência da prática fotográfica manifesta-se na tentativa de evitar a alienação e o esquecimento da história. Reconhecer a realidade presente do mundo corrompido através das imagens.”

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José Carlos Pereira escreve o ensaio “O silêncio das Imagens”:

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Não haverá uma redenção pela imagem, tudo o que pode ser dito se resume à potência da sua enunciação — o silêncio. Quando tudo tende a converter-se na marca do comércio das almas, quando o acto criativo e a sua inadiável resistência são olhados com desconfiança ou funcionalizados à famigerada “criação de valor”, as fotografias de David Gonçalves colocam-nos perante a nudez do mundo. Nada a dizer, pouco a contemplar, apenas o tempo sem remorso ou sacrifício, a assunção do acontecimento sem dor, o vazio sem predicação possível — a suspensão do peso, a suspensão do juízo, uma ruína ausente, objectos a que sentimento algum poderá corresponder. Do artista não vem a meditação moral da perda, ou ferida, tudo isso é rarefeito pelo disparo, pouco resta, apenas o som imediato do animal morto ao cair no chão da savana, ou o zunido do mosquito electrocutado no instante em que se dirige para a luz.

O essencial retoma o seu lugar, não origina a imagem como duplo, aparece inteiro, não é modelo ou intervalo, sequer sombra imanente. Haverá uma sombra nestas imagens, antes ou depois delas, embora a distância e a ausência trilhem o caminho possível para um real sem duplo. O claro-escuro que nelas vemos é apenas a matéria do próprio real — não é a sua representação — não é possível representar o que, por si, se pode escutar sem artifício, menos ainda documentá-lo. Não é possível documentar o real, essa é a ilusão de um tempo cuja obsessão em reter a memória pelo arquivo o entrega às portas da morte.

Estas imagens não olham para nós, não esperam a misericórdia de quem as vê, não gritam, exibem apenas o tempo sem véu, trazem a verdade das coisas no anonimato do papel impresso. Ao não acolherem o eco difuso da queda da arte na estética (ou, pelo menos, em firme resistência à predominância estésica na experiência dos objectos), as imagens de David Gonçalves acolhem a força originária do que está aí, do que não consente doutrina, do que se ergue em absoluta fidelidade a si mesmo, sem reflexo ou indulgência a uma avulsa curadoria do olhar.

O que está no mundo, e raramente vemos, ou escutamos, é apenas uma superfície negra, a mesma que concede a profundidade e a autenticidade às coisas modeladas pela luz, captadas pela máquina indiscreta de David Gonçalves. O resto são modos de ganhar a vida (para alguns, perdê-la!) por entre objectos que brilham, e que teimam em encenar o mundo como um jogo de damas. Na melhor das hipóteses, a verdade como oração (a verdade… a palavra que instala o horror!) habita o ínfimo espaço entre as casas claras e escuras do tabuleiro do jogo, isto é, o palco daquilo a que vulgarmente chamamos vida.”

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David Gonçalves, Umbra, 2018

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“Umbra” de David Gonçalves está em exposição em Lisboa, no Espaço AZ, na Travessa da Fábrica dos Pentes n.º 10, de 6 de dezembro de 2018 a 4 de janeiro de 2019 e em Torres Novas, no  Museu Municipal Carlos Reis, na Rua do Salvador, 10, de 16 de fevereiro a 14 de abril de 2019.

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David Gonçalves nasceu em 1990.

Vive e trabalha em Lisboa. Fotógrafo. Mestrado em Critica, Curadoria e Teorias da Arte, na Faculdade de Belas-Artes, Universidade de Lisboa, no qual se encontra a realizar o Doutoramento em Ciências da Arte.

Já expôs em Lisboa (Portugal) e Liège (Bélgica).

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Pode conhecer melhor o trabalho de David Gonçalves aqui.

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