VALTER VINAGRE, SOB O SIGNO DA LUA, 2018

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Valter Vinagre

Sob o Signo da Lua

Fotografia: Valter Vinagre / Textos: António Guerreiro e Joaquim Moreno / Design: João Faria / Drop

Porto: Dafne Editora / Julho . 2018

Português e inglês / 17,5 x 24,6 cm / 240 pp.

Cartonado

ISBN: 9789898217431

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Sob o Signo da Lua, na lua cheia de agosto – entre o final de julho e o início de agosto –, nos anos pares, milhares de pessoas de vários países e culturas rumam às margens do lago que é a Albufeira da Barragem Marechal Carmona, em Idanha-a-Nova. “Juntam-se no Boom Festival, com uma sensualidade psicadélica ao som da música trance. Valter Vinagre acompanhou esses encontros mágicos, retratando o lugar e os seus habitantes, as suas construções, desejos e sonhos. Este livro fixa a convulsão desses momentos numa ordem possível, propondo a redescoberta dos olhares e dos corpos num outro espaço e tempo.”

Além da música e de múltiplas atividades, diversas seitas ou religiosidades desenvolvem-se, aglutinam seguidores, que regressam a cada edição, criam ambientes de vivência, de culto, de transe. “Sob o Signo da Lua” mostra o espaço, a paisagem, o ambiente do festival, mas também e sobretudo, as pessoas, a vivência livre, descontraída, da música, do culto pagão, do transe. É este espectro pagão que cativou Valter Vinagre. Como ele refere:

O meu eixo de trabalho em Sob o Signo da Lua assentou num cruzamento em relação aos espaços escolhidos para o projecto – Boom Festival e outros, o retrato dos seus “habitantes”, a sua relação com a música e as suas vivências num ambiente de liberdade, respeito e uma certa harmonia. Foi uma viagem solitária, para tentar uma resposta a algo muito simples: o que leva a que alguém regresse edição após edição a um local em que no fundamental nada muda. O espectro pagão da(s) festa(s) foi o meu fio condutor para este projecto realizado em Portugal entre 2002 e 2016.”

Vinagre fotografa de dia e de noite, aqui o flash presente, iluminando o primeiro plano: as pessoas, os rostos, o movimento, o êxtase. Não passa despercebido, mas não é sentido como intruso, há uma cumplicidade que resulta do próprio ambiente, da festa, da descontração, do transe, da euforia.

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António Guerreiro (ensaísta, crítico literário e cronista do jornal Público) no seu ensaio “Iniciação à Festa Pagã”, descreve de forma concreta a realidade e as imagens de Valter Vinagre. Destaco um fragmento:

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O fotógrafo entra num território ocupado por uma “tribo”, uma comunidade de “selvagens” pacíficos, e imerge numa grande festa colectiva, onde se desloca como quem faz observação etnográfica espontânea, sem propósitos científicos. Sabemos que não faz parte da festa, que a festa não é sua e está ali só para observar, porque as fotos mostram que há uma distância irredutível entre o olho da objectiva e aquilo que ele vê. Não é a distância do espião ou do voyeur (essas duas figuras da pulsão escópica: a primeira, por desejo de saber; a segunda, por desejo erótico perverso), mas a do intruso discreto que respeita a festa e os seus intervenientes. Esse respeito está bem marcado: as fotos não revelam nenhuma violência exercida sobre o seu objecto, dão a ver o que se mostra ostensivamente, sem penetrar no que era para permanecer escondido: tudo o que vemos nestas fotos não vai além das cenas criadas, promovidas e consentidas no âmbito da festa, dos seus códigos e regras. Em suma: não há aqui mais voyeurismo do que aquele que é consubstancial à própria fotografia (Susan Sontag vincou a dimensão “pornográfica” da fotografia, na sua relação voyeurista com o mundo). O fotógrafo intruso respeita a acção festiva; e a “tribo” de gente diferente quase parece ignorar o fotógrafo: são muito raras as fotos em que alguém olha para a câmara e mostra que se está a sentir fotografado. Aquela festa, ao contrário de muitas outras que parecem realizar-se para serem duplicadas e difundidas na representação fotográfica, ignora soberanamente o dispositivo da fotografia e da captação de imagens. É uma festa pré-moderna, regressiva, de um paganismo antigo.

É fácil perceber que se trata de um acontecimento festivo de grande dimensão e de carácter comunitário, isto é, fundado num sentimento de pertença a um mesmo ideal, apto à criação de espaços utópicos temporários, de êxtase e comunhão, que se subtraem ao continuum da história e à homogeneidade do espaço social e cultural. A festa que estas fotografias mostram pressupõe uma comunidade dotada de uma linguagem unitária e orgânica. Não conseguimos vislumbrar ninguém que esteja fora dela, que marque uma diferença em relação a ela. Aparentemente, toda a gente participa do mesmo ethos festivo.

Devemos observar que não há uma única fotografia que nos informe que festa é esta e onde e quando ela se dá. Aparentemente, são inexistentes em todo o território da festa inscrições visíveis a nomeá-la. Por isso, se queremos obter essas informações de registo de identidade temos de procurá-las noutro sítio, recorrer ao testemunho extra e privado do fotógrafo, que não o quis inscrever na obra. Ficamos então a saber que é um festival de música electrónica, o Boom Festival, que se realiza todos os anos, no Verão, em Idanha-a-Nova, e atrai gente de todo o mundo. É lícito concluir que a festa não se publicita a si mesma nem publicita o que quer que seja: não é uma festa narcísica nem espectacular, não se olha a si própria na sua excepcionalidade nem se oferece aos outros, aos que estão de fora, como artifício encenado. É visível que a pose e a atitude das pessoas não é a de quem se sente num palco, enquanto elemento activo de um espectáculo, mas a de quem habita o espaço da festa e está em sintonia cronológica com o tempo dela. E habitar significa sentir-se numa casa verdadeiramente sua.

O autor organizou o livro em três secções a que deu nomes gregos: Hipnos (o deus do sono), Eros (o deus do amor) e Machia, que significa “combate”, “batalha” (é o segundo elemento da palavra “tauromaquia”, por exemplo). Estes nomes são plenamente justificados, não são apêndices decorativos e pretensiosos (…).”

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Joaquim Moreno (arquitecto, curador e editor) no seu ensaio “Poliphilo ou o exercício experimental da analogia”, ressalta:

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Imaginar uma coisa noutra, tornar visível a inferência de uma coisa noutra, é uma forma de analogia. Outra forma é traduzir analogia por proporção, por ratio, por uma razão possível entre as coisas e as ideias. Esta segunda forma de analogia é mais uma invenção, uma projecção sobre relações, do que uma descoberta, dedução ou raciocínio. Sonhar Sob o Signo da Lua com A luta amorosa de Poliphilo num sonho não é, evidentemente, nem uma comparação nem um paralelo, é um exercício experimental de analogia delirante; é procurar avidamente relações imaginadas e construir sobre esta confusão fortuita a possibilidade de nos apressarmos lentamente, num estado de quase sonho, sobre memórias visuais de delírios e desejos.

Para esta leitura, ou visão, ou sonho, ou confusão, entre um livro e o outro, importa encontrar Poliphilo na sua luta de amor num sonho, um livro impresso no final do século XV em forma de romance arqueológico ilustrado. O título do livro, Hypnerotomachia Poliphili, combina três palavras gregas para descrever uma luta de amor em sonho, ou, por ordem da analogia neste livro que agora temos na mão, sonho de amor em luta. O nome do protagonista, Poliphilo, é o amor de Polia, ou aquele que ama Polia, é o amor de muitas coisas. O objecto do seu amor coisas é infindável, pode ser, segundo interpretações eruditas, a antiguidade clássica, a arte, o saber, ou todas essas coisas misturadas em muitas combinações. Insistir nesta combinatória delirante, neste sonho de amor em luta devoto de muitas coisas, é certamente uma viagem iniciática, ou mesmo muitas e variadas viagens iniciáticas (…).”

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Este livro destaca-se entre os livros de Valter Vinagre, nomeadamente pela dimensão e corpo. O número de páginas é significativamente elevado face ao de outros projetos, o formato permanece relativamente intimista, pondo em diálogo duas imagens, apresentando apenas uma no fólio, ocupando apenas uma parte ou enchendo o fólio completamente.

A dimensão da obra reflete a dimensão do projeto. Se as séries de Vinagre se desenvolvem ao longo de vários anos, esta é, sem dúvida, das mais longas e extensas: foi fotografada de 2002 a 2016, ao longo de 15 anos, criando uma visão de continuidade, de acompanhamento, de presença. Do reencontrar (ou ver) as pessoas de anos anteriores que regressam, das caras novas. Vinagre conhece algumas histórias, recorda rostos, percebe quem vem pela música e quem vem pela festa pagã, por esta seita, por um êxtase ou por aquele evento.

Como em todas as suas séries em que aborda questões candentes, Vinagre conhece as histórias que são de cada pessoa, dá-nos a conhecer essas histórias por uma imagem, apenas. Não será, necessariamente este o caso, em que a dimensão da festa, não permitirá o conhecimento de cada um fotografado, mas este é o seu testemunho do Boom  Festival e da(s) “tribo”(s) que se move(m) Sob o Signo da Lua.

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Valter Vinagre, Sob o Signo da Lua, 2018

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O livro “Sob o Signo da Lua” foi lançado no Porto, na Feira do Livro, a 11.09.2018 e em Lisboa na Livraria STET, na Rua Acácio Paiva, 20 A no dia 20.09.

Esteve em exposição em Idanha-a-Nova, no Centro Cultural Raiano, entre 24 de julho e final de setembro de 2018 e no Porto, no IPCI – Instituto de Produção Cultural e Imagem, na Rua da Alegria, 940-942, entre 17 de novembro e 21  de dezembro de 2018, no âmbito do MIP – Mês da Imagem do Porto.

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Valter Vinagre (Avelãs de Caminho, 1954) iniciou o seu percurso como fotógrafo em finais dos anos 1980. Do seu percurso salientam-se trabalhos como: Cá na terra (1998), Animais de estimação (2010), Barra das Almas (2013), Posto de trabalho (2015) ou A voz na cabeça (2016). Recebeu o prémio da 6.ª Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira em 1999 com “Corpu insanu” e em 2016 o Prémio Autores da Sociedade Portuguesa de Autores, para o Melhor Trabalho de Fotografia com “Posto de trabalho”.

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Outros trabalhos de Valter Vinagre no Fascínio da Fotografia, aqui.

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