A GRANDE GUERRA: AS FOTOGRAFIAS DE ARNALDO GARCEZ NA FILATELIA PORTUGUESA

Centenário do Armistício da Grande Guerra (11 de novembro de 1918)

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Há cem anos, às 11 horas do dia onze de novembro de 1918, era declarado o Armistício. Terminava a I Guerra Mundial.

Já aqui escrevi sobre Arnaldo Garcez, aquando da emissão do inteiro postal comemorativo do Centenário da Grande Guerra, a I Guerra Mundial, de 1914-1918.

Arnaldo Garcez Rodrigues (Santarém, 18 de outubro de 1885 – 5 de agosto de 1964) foi repórter fotográfico. Casou em 1920, em Cherburgo, França, com Marcele Margueritte Alphonsine Marneffe, de quem tem 3 filhos. Regressa a Portugal em 1921 e no ano seguinte abandona o fotojornalismo, talvez pela necessidade de estabilidade. Em 22 de fevereiro de 1923, funda a casa Garcez, Lda, no Chiado, dedicada à fotografia: venda de máquinas fotográficas e laboratório, vindo a editar diversas publicações técnicas. Esta casa foi uma referência no comércio fotográfico em Lisboa e influenciou muitos fotógrafos.

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Arnaldo Garcez

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Como repórter fotográfico, foi o único português contratado pelo Exército e a ter autorização para fotografar as tropas portuguesas na Grande Guerra, desde a preparação na Divisão de Instrução em Tancos, em 1916, até à frente de batalha, nos desfiles da vitória, na homenagem ao soldado desconhecido e na inauguração dos Padrões da Grande Guerra.

Arnaldo Garcez foi um dos primeiros fotógrafos “repórter de guerra” português. Tinha o cargo de Alferes equiparado e fotógrafo de guerra.

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 Arnaldo Garcez é o 2.º da direita. In: Arnaldo Garcez. Um repórter fotográfico na 1ª Grande Guerra, Porto: CPF, 2000

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A Grande Guerra começou em 28 de julho de 1914, na sequência do assassinato do arquiduque Francisco Fernando da Áustria, herdeiro do trono da Áustria-Hungria, um mês antes, e prolongar-se-ia até 11 de novembro de 1918.

Portugal enviara contingentes para África, em 1914, defendendo as então Colónias de Angola e Moçambique. Mas a possibilidade de Portugal vir a participar na Grande Guerra, na Europa, começa a concretizar-se e o contingente português começa a sua preparação na Divisão de Instrução em Tancos.

Conforme já referi, em França, Garcez registou o quotidiano das tropas, os treinos militares, os batalhões e as baterias deslocando-se para as frentes de batalha, o quotidiano das tropas, os seus diferentes serviços, a vivência dos soldados nas trincheiras e nos postos da retaguarda, as visitas e receções oficiais, as guardas de honra, as “Damas Enfermeiras” da Cruz Vermelha, o desfile do Exército Português nos Campos Elísios, em Paris, no 14 de Julho de 1919, as entregas de condecorações e a evacuação dos civis. Ainda o panorama da destruição, mas não o sofrimento humano, “naturalmente impedido pelos objectivos do seu trabalho e pela necessidade de não desmoralizar as populações que no país nada sabiam sobre o sofrimento dos seus parentes.”, como regista António Pedro Vicente.

Assinado o Armistício, Arnaldo Garcez fotografa a participação de batalhões nacionais nas festas da vitória em Paris, Bruxelas e Londres, em Julho de 1919, regista os cemitérios onde repousam os restos mortais dos militares portugueses e os monumentos erigidos em honra dos que tombaram na guerra.

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Assinalando o centenário da Grande Guerra, os CTT – Correios de Portugal lançaram 4 emissões comemorativas. Em todas elas estão presentes as fotografias de Arnaldo Garcez.

As pagelas emitidas pelos CTT, relativas às emissões, identificam, no geral, os autores das imagens e a sua proveniência. De algumas, contudo, apenas é referida a proveniência e não o autor da fotografia. De algumas, segundo outras fontes credíveis, como o jornal “Público” ou o “Lusojornal”, é Arnaldo Garcez.

Vejamos as emissões filatélicas e as fotografias de Garcez.

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Portugal na Grande Guerra

A 9 de março de 1916 a Alemanha declara guerra a Portugal, na sequência do apresamento de todos os navios alemães e austro-húngaros então na costa portuguesa, efetuada a pedido da Grã-Bretanha. É esta a data que marca a entrada de Portugal na Grande Guerra.

Comemorando o facto, os Correios de Portugal emitiram no dia 8 de março de 2016 um inteiro postal – Portugal na Grande Guerra 1914/1918 – com a taxa “N20g”, correspondente ao porte do primeiro escalão nacional. Teve uma tiragem de 4.000 exemplares, sendo o design de António Magalhães. As duas fotografias são de Arnaldo Garcez: a imagem principal, a de maior dimensão, do lado esquerdo, representa militares nas trincheiras, é um fragmento da fotografia identificada como “Portugueses na frente de batalha, 1917” (Referência do Arquivo Histórico Militar, PT/AHM: PT/AHM/FE/CAVE/AG/A11/0197), a imagem do selo, Tenente redigindo documentos, 1917” (Ref.ª PT/AHM/FE/CAVE/AG/A11/0017).

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 Inteiro postalPortugal na Grande Guerra 1914/1918”.

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Arnaldo Garcez, “Portugueses na frente de batalha” (fragmento do inteiro postal emitido pelos CTT)

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Fotografia: Arnaldo Garcez, “Portugueses na frente de batalha”, 1917. (PT/AHM/FE/CAVE/AG/A11/0197)

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Arnaldo Garcez, “Tenente redigindo documentos”, 1917 (PT/AHM/FE/CAVE/AG/A11/0017)

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Portugal na Primeira Guerra Mundial – Exército Português

A 30 de Janeiro de 1917 a 1.ª Brigada do CEP, comandada pelo general Gomes da Costa, embarca no Tejo em 3 vapores britânicos. Chegam ao porto de Brest três dias depois, a França a 2 de fevereiro, e no dia 8, à Flandres francesa. A 23 de fevereiro, parte para França um segundo contingente do CEP.

Portugal participa com as várias armas. Em 30 de junho de 2017 é lançada uma emissão filatélica comemorativa da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial: a Aviação Militar (0.50 €), a Marinha (0.63 €) e o Exército (0.85 €).

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Emissão: Portugal na Primeira Guerra Mundial

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Neste último selo, representa-se do lado esquerdo, em destaque, Aníbal Augusto Milhais, o soldado “Milhões”, o português mais condecorado da I Guerra Mundial, phot. Fernandes, 1918, o qual se destacou na Batalha de La Lys.

Do lado esquerdo “Dois militares junto a edifício, estando um a escrever, França, 1917” (PT/AHM/FE/CAVE/AG/A11/0553), fotografia de Arnaldo Garcez tal como a fotografia do centro, “Instrução em França” e a do lado direito, “Portugueses nas trincheiras, perto de Neuve Chapelle, França, 25.06.1917” (identificada pelo jornal Público e Lusojornal, a pagela dos CTT identifica de “Alamy / Fotobanco.pt”).

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Selo relativo ao Exército Português

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A fotografia do lado esquerdo:

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Arnaldo Garcez, Dois militares sentados junto a edifício estando um a escrever, 1917 ,0553

Arnaldo Garcez, Dois militares sentados junto a edifício estando um a escrever, 1917 (PT/AHM/FE/CAVE/AG/A11/0553)

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A fotografia do lado direito:

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Arnaldo Garcez, Portugueses nas trincheiras, perto de Neuve Chapelle, França, 25.06.1917

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Arnaldo Garcez, Portugueses nas trincheiras, perto de Neuve Chapelle, França, 25.06.1917. Col. Bibliothèque de Documentation Internationale Contemporaine

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Centenário da Batalha de La Lys

Portugal irá participar na violenta Batalha de la Lys, a 9 de abril de 1918, o último grande combate travado pelo Exército português. Teve lugar na região de Lille, entre Armentièries e Béthune, e resultou no sacrifício de milhares de homens, estimando-se as baixas em cerca de 7.500 militares, entre mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros, mais de um terço dos efetivos portugueses na Flandres. A data que ficou a assinalar o Dia do Combatente: a bravura e coragem das tropas portuguesas ultrapassou “as extraordinariamente difíceis condições do terreno e de meios próprios, e o poderio do inimigo com que foi confrontado”, participou “numa derrota tática dos Aliados, a que se seguiu uma vitória estratégica final” (General Joaquim Chito Rodrigues, pagela da emissão).

Quando se comemora o centenário da Batalha, os CTT emitem uma emissão comemorativa, composta por um selo (E 20 g) e um bloco (2,00 €).

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Selo comemorativo do Centenário da Batalha de La Lys.

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Bloco comemorativo do Centenário da Batalha de La Lys.

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A fotografia do selo, “Militares Portugueses nas Trincheiras, França, 1917”, é de Arnaldo Garcez, pertencente à Coleção do Arquivo Histórico Militar (Ref.ª PT/AHM/FE/CAVE/AG/A11/0219).

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Arnaldo Garcez, Militares nas Trincheiras, 2017,PTAHMFECAVEAGA110219

Arnaldo Garcez, Militares nas Trincheiras, 1917 (PT/AHM/FE/CAVE/AG/A11/0219)

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Do mesmo modo, a fotografia do selo do bloco, “Rotina nas trincheiras em Neuve Chapelle, 1917”, esta pertencente à coleção da Liga dos Combatentes (identificada pelo jornal Público).

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Arnaldo Garcez, Rotina nas trincheiras em Neuve Chapelle, 1917.

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As restantes fotografias reproduzidas no bloco são “Tropas portuguesas em abrigo, França, 1917”, Coleção da Liga dos Combatentes (poderá ser de Garcez ?), “Militares junto a posto de ajuda regimental perto de Neuve Chapelle, 25.06.1917”, col. Imperial War Museum, que foi capa da Illustração Portuguesa n.º 603, de 10.09.1917.

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Fotógrafo inglês desconhecido, Militares junto a posto de ajuda regimental perto de Neuve Chapelle, 25.06.1917. Col. Imperial War Museum

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Capa da revista Illustração Portuguesa n.º 603, de 10.09.1917.

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A última fotografia é de um grande foto-jornalista português, Joshua Benoliel, “Um tambor em marcha”, partida para França, 1917, publicada no jornal “O Século”, no artigo “Mais tropas para França”.

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Joshua Benoliel, Um tambor em marcha, 1917

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Centenário do Armistício da Grande Guerra

Finalmente a Guerra termina: às 11:00 de 11 de novembro de 1918 foi o Armistício.

A 9 de agosto de 2018, nova emissão dos CTT – Correios de Portugal, assinala o Centenário do Armistício da Grande Guerra, composta por um selo (0,91 €) e um Bloco (1,50 €). O selo, com a tiragem de 105 mil exemplares, reproduz o Cabo “Sementes”, como era alcunhado, e o bloco o momento em que “uma menina se dirige às tropas do CEP na Parada da Vitória em Paris, a 14 de Julho de 1919”, Dia Nacional da França, são ambas fotografias de Arnaldo Garcez, coloridas por Jorge Henrique Martins, da Liga dos Combatentes e pertencentes à coleção daquela entidade (a pagela dos CTT não identifica o autor da fotografia que ilustra o bloco).

O design dos selos, tal como da emissão anterior, é do atelier Design&Etc / Hélder Soares.

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Selo comemorativo do Centenário do Armistício da Grande Guerra.

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Arnaldo Garcez, Cabo “Sementes”

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Bloco comemorativo do Centenário do Armistício da Grande Guerra.

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Arnaldo Garcez, Parada da Vitória em Paris, a 14 de Julho de 1919. Fotografia colorida por Jorge Henrique Martins / Liga dos Combatentes.

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Bibliografia

Arquivo Histórico Militar. Álbum A11, de Arnaldo Garcez. Pode ver aqui.

CTT, Pagelas das emissões.

Sousa, Jorge Pedro, A Grande Guerra. Uma crónica visual – Parte I. Odivelas: Editora Média XXI, 2013.

Vicente, António Pedro, Arnaldo Garcez. Um Repórter Fotográfico na 1ª Grande Guerra. Porto: Centro Português de Fotografia, 2000

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A biografia de Arnaldo Garcez no Fascínio da Fotografia, aqui e sobre o inteiro postal, aqui.

Fotografias de Arnaldo Garcez e de outros fotógrafos, sobre a Grande Guerra, no jornal Público, aqui.

Fotografias de Arnaldo Garcez no Lusojornal, aqui.

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Atualizado em 11.11.2019, com o acrescento de algumas fotografias.

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