GÉRALD BLONCOURT, OS PORTUGUESES EM FRANÇA (E EM PORTUGAL)

Morreu Gérald Bloncourt (Bainet, Haiti, 4 de novembro de 1926 – Paris, 29 de outubro de 2018)

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Gérald Bloncourt, Emigrantes portugueses em França, 1954-1970

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Gérald Bloncourt nasceu em Bainet, no Haiti, a 4 de novembro de 1926, filho de mãe francesa e pai guadalupenho. No ano seguinte a família muda-se para Jacmei, no sul da ilha e em 1936 para a capital, Port-au-Prince, depois de um ciclone tropical devastar a região.

Pintor e gravador, Bloncourt participa na fundação do Centre d’Art Haïtien, em 1944. Em 1946, na sequência de envolvimento político, é expulso do Haiti. Depois de algum tempo em Martinica, parte para Paris. Faz formação para professor de desenho, tem vários trabalhos, até que inicia uma carreira de repórter fotográfico, que desenvolve paralelamente à luta contra a ditadura haitiana e continuando sempre a pintar e a gravar.

Assumiu o jornalismo como compromisso social, foi editor de fotografia do jornal de esquerda “L’Humanité”.

Bloncourt retrata a a chegada da primeira grande vaga de emigrantes portugueses a França, nas décadas de 1950 e 1960. Regista a sua chegada, o acolhimento precário nos “bidonvilles” dos arredores de Paris: enormes bairros de lata, com condições de habitabilidade deploráveis, construídos junto das obras de construção civil. Um deles é o de Champigny-sur-Marne, o primeiro que fotografou.

a abordagem não foi fácil: “Quatro portugueses viram-me e apanharam-me. Pensavam que eu era um polícia. Prenderam-me e meteram-me lá num edifício feito de tábuas. Havia lama por fora, mas lá dentro era asseado e tínhamos de tirar os sapatos.”

Enquanto o fotógrafo aguardava, descalço, os portugueses “foram buscar o chefe”: “Quando o chefe chegou, disse-me “Que estás aqui a fazer?” Eu conhecia-o. Era um militante sindicalista da Renault que era o chefe do bairro de lata. Abraçámo-nos, bebemos uma garrafa de Porto e depois pude voltar”, lembrava.

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“Era uma forma de escravatura moderna. Havia lama no inverno, era frio. Eram barracas feitas com tábuas, bocados de chapa. Era uma vida difícil, muito rude. Os homens iam trabalhar para as obras, as mulheres ficavam com as crianças”, recordou, o fotógrafo à Lusa, em abril de 2015.”,

Regista o jornal Observador.

Fascinava-o os grandes descobridores que os portugueses haviam sido e queria perceber as razões que levam milhares de “descendestes destes grandes descobridores” a partir para França. Em 1966 vem a Portugal.

“Conheci resistentes contra Salazar e – como eu próprio fui resistente contra a ditadura do meu país – quis lá ir. Fui a Portugal na época de Salazar, fiz toda a rota da emigração, de Lisboa passando pelo Porto, Chaves e aquela região. Fui mesmo detido pela PIDE uma vez. Eu tinha metido rolos para eles na mala e eles encontraram-nos. Mas eu tinha colado nas costas um par de meias com os rolos de fotografias importantes que consegui salvar e que estão hoje publicadas e expostas”, contou.”

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Gérald Bloncourt, Portugal: Lisboa, Porto e Chaves, 1966

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Assim que soube da Revolução dos Cravos , vem a Portugal e regista a euforia.

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Gérald Bloncourt, Portugal, finais de abril a 2 de maio de 1974

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Gerald_Bloncourt 1974

Gerald Bloncourt, no regresso a Paris após a Revolução dos Cravos, 2 de maio de 1974

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As suas fotografias foram testemunho de uma realidade difícil e ajudaram a melhorar as condições dos nossos emigrantes. Estas fotografias fazem parte dos arquivos da Cité Nationale de L’histoire de L’immigration, em Paris, e do Museu das Migrações e das Comunidades, de Fafe. Em Portugal, pudemos ver as suas imagens no Museu Berardo, em Lisboa, em 2008, na exposição “Por uma vida melhor”.

O seu arquivo tem mais de 200 mil imagens.

Curiosamente poucas pessoas o procuraram encontrando-se nas suas fotografias. Uma delas, a menina da boneca, fotografada em 1969, no Bidonville em st. Dennis, Maria da Conceição Tina Melhorado, que soube da fotografia só em 2010… (Pode ler a história aqui.)

Em 1988 é nomeado Cidadão de Honra de Nova Orlães, nos Estados Unidos, em 1994 recebe o Primeiro Prémio pelo conjunto da sua obra no 2.º salão de Arte Contemporânea de Le Mée, e em 2008, também pelo conjunto da sua obra, a Medalha da Ville de Paris (vermeil). Em 2011 é condecorado Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres (França) e em 2015 Chevalier de la Légion d’Honneur. A 11 de junho de 2016 foi condecorado Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, durante as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (10 de junho), em Paris.

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Paulo Novais-LUSA-Marcelo Rebelo Sousa-Gerald Bloncourt-2016-10-11

Paulo Novais / LUSA, Marcelo Rebelo Sousa condecora Gerald Bloncourt com a Ordem do Infante D. Henrique, Paris, 11.06.2016

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Gérard Bloncourt faleceu em Paris, a 29 de outubro de 2018, quase a completar 92 anos.

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Pode conhecer melhor a sua obra através do seu blog “L’immigration portugaise”, aqui e do seu site, aqui.

Pode ler o artigo do jornal “Observador”, aqui.

Pode ler o artigo de Joana Amaral Cardoso, no jornal Público, aqui.

A reportagem sobre a sua vida aquando da condecoração como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, na RTP, aqui.

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