AMADEO DE SOUZA-CARDOSO – FOTOBIOGRAFIA, 2007

Centenário da morte de Amadeo de Souza-Cardoso (Manhufe, 14 de Novembro de 1887 – Espinho, 25 de Outubro de 1918)

 

 

 

Amadeo de Souza-Cardoso – Fotobiografia

Catálogo Raisonné

Fotografia: Amadeo de Souza-Cardoso, Aurélio da Paz dos Reis, AAVV; José Manuel Costa Alves e Paulo Costa (para o livro) / Texto: Catarina Alfaro

Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian / 2007

Português / 24,4 x 29,6 cm / 334 pp.

Encadernação capa leve / 6.500 ex.

ISBN: 9789726351924

 

 

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As fotografias familiares assumem particular importância na história de cada família e na história de cada local, região ou país. De facto, através delas, conseguimos conhecer hábitos, tradições, costumes: o vestuário, o mobiliário, a dimensão das habitações e dos espaços. São, pois, um património precioso.

Parte destas imagens é essencial quando se faz a história de uma pessoa, nomeadamente através de uma “fotobiografia”, na qual, às fotografias da própria pessoa e dos seus familiares e amigos, se juntam paisagens dos locais onde viveu ou passou, de preferência da época e de fotógrafos reconhecidos, bem como outra documentação de relevo na história da pessoa e da sua obra – na qual a fotografia também está presente, em sentido amplo, nomeadamente no processo de reprodução dos referidos documentos ou obras produzidas.

O trabalho de Amadeo é fabuloso e é impossível não gostar da sua obra.

Quando se completam cem anos da morte de Amadeo Souza-Cardoso, trago a sua memória e a sua obra a partir da Fotobiografia editada em 2007 no âmbito do “Catálogo Raisonné” do artista, elaborado pela Fundação Calouste Gulbenkian, composto por vários volumes, como os catálogos das exposições e o fac-simile de edições de obras suas: “XX Dessins” e “La Légende de S. Julien L’Hospitalier”, numa grande ação de estudo e de dar a conhecer a obra de Amadeo, como reflete a tiragem da 1.ª edição do catálogo (6.500 exemplares).

A Fundação Calouste Gulbenkian dedicou um grande empenhamento ao estudo da obra e da vida de Amadeo de Souza Cardoso, tendo organizado, entre outros eventos, uma exposição retrospetiva da sua obra: “Amadeo de Souza-Cardoso – Diálogo de Vanguardas”, que reuniu uma seleção de obras de Amadeo de Souza-Cardoso (180) em articulação com obras de artistas internacionais seus contemporâneos (80), exposta de 14 de novembro de 2006 a 14 de janeiro de 2007, na sede da Fundação, em Lisboa, acompanhada de um notável catálogo e a exposição “Amadeo de Souza-Cardoso”, que esteve patente em Paris, no Grand Palais – galeries Nationales, de 20 de abril a 18 de julho de 2016, no âmbito da comemoração dos 50 anos da Fundação.

 

Esta Fotobiografia recolhe um vasto espólio sobre Amadeo de Souza-Cardoso, inúmeras fotografias, incluindo algumas tiradas por Amadeo, sobretudo da sua famíllia. Incluem-se, naturalmente algumas de amigos e de locais por onde passou, nomeadamente de Paris, de Aurélio Paz dos Reis.

A fotobiografia está estruturada cronologicamente incluindo no separador de início de cada ano uma fotografia a página inteira.

 

Não posso deixar de registar uma breve nota biográfica, tendo por base a disponível no site da Fundação.

 

Amadeo nasceu na quinta dos seus pais em Manhufe, no concelho de Amarante, a 14 de Novembro de 1887. Cresceu entre nove irmãos, no seio de uma família de abastados proprietários rurais. Passou a sua infância entre a casa de Manhufe e as estâncias de veraneio na praia de Espinho. Aí conheceu Manuel Laranjeira, cuja amizade foi determinante para incentivar a prática do desenho, que Amadeo desenvolveu depois em Lisboa, no âmbito dos estudos preparatórios de Arquitetura na Academia de Belas-Artes de Lisboa. Estávamos em 1905.

A viagem para Paris, em Novembro do ano seguinte, na companhia de Francisco Smith, não tinha data de regresso marcada. Financiado pelos pais, Amadeo instalou-se no Boulevard Montparnasse e tratou de preparar o concurso à École des Beaux Arts. Contudo, o ambiente parisiense reforçou a sua inclinação para o desenho e a caricatura, contribuindo para afastá-lo de vez do campo da Arquitetura. Particularmente influenciado pela ilustração que circulava na imprensa francesa, Amadeo não tardará a dedicar-se ao desenho e à pintura.

Os primeiros anos de estadia em Paris ficaram marcados pelo convívio com outros portugueses emigrados. O estúdio que alugou no 14, Cité Falguière converteu-se num espaço de tertúlias e boémia com a presença assídua de artistas como Manuel Bentes, Eduardo Viana (…),Emmérico Nunes, Domingos Rebelo e Smith.

O final de 1908 e o início do ano seguinte trazem importantes alterações à vida de Amadeo: conhece Lucia Pecetto (1890-1989), com quem casará em 1914, e começa a frequentar as classes da Academia Viti, do pintor espanhol Anglada-Camarasa (1871-1959). Muda então o seu atelier para a rue des Fleurus num espaço contíguo ao apartamento de Gertrude Stein. Estas alterações terão contribuído para (…) um corte de sentido plástico (…).

O nível de exigência e de comprometimento com o trabalho que já então ia produzindo remetem-no para uma esfera sem paralelo na pintura dos portugueses, porque Amadeo mergulha plenamente nas pesquisas do modernismo internacional em desenvolvimento em Paris. É nesse contexto de investigação formal que, em 1910, o veremos entusiasmado com as pinturas dos “primitivos” flamengos (numa estadia de três meses em Bruxelas). É neste período também que o veremos aprofundar a sua amizade com Amedeo Modigliani (1884-1920).

Em 1911, Amadeo muda outra vez de estúdio. Instala-se próximo do Quai d’Orsay, na rue du Colonel Combes. Em Outubro realiza neste espaço uma exposição com Modigliani. Esta não seria, contudo, a primeira exposição da sua obra. Alguns meses antes, Amadeo apresentara um conjunto de seis pinturas no Salon des Indépendants. Volta a expor neste Salão no ano seguinte e em 1914. De igual modo, mostra o seu trabalho no Salon d’Automne entre 1912 e 1914. Entretanto, o seu círculo de amizades e conhecimentos estende-se e internacionaliza-se. Conhece Umberto Boccioni (1882-1916), Gino Severini (1883-1966), e Walter Pach (1883-1958), que mais tarde o convidará a participar no Armory Show. Está também em contacto com Juan Gris (1887-1927), Max Jacob (1876-1944), Sonia e Robert Delaunay, Brancusi (1876-1957), Archipenko (1887-1964), Umberto Brunelleschi (1879-1947) e Diego Rivera (1886-1957), entre outros.

(…)

O interesse de Amadeo pelo desenho consolida-se neste período com a preparação do manuscrito ilustrado da Légende de Saint Julien l’Hospitalier de Flaubert e pela publicação do álbum XX Dessins (…)

Amadeo esforçar-se-á também por mostrar a sua pintura fora do circuito parisiense (…), entre as quais a célebre Exposição Internacional de Arte Moderna de 1913, também conhecida como Armory Show, que mostraria pela primeira vez a moderna arte europeia nos EUA (Nova Iorque, Chicago e Boston). Amadeo apresenta um total de oito obras, ao lado de Braque (1882-1963), Matisse, Duchamp (1887-1968), Gleizes (1881-1953), Herbin e Segonzac (1884-1974). Três das suas telas foram compradas pelo colecionador de Chicago, Arthur J. Eddy, o qual, ao publicar Cubist and Post-Impressionism (1914), cita e reproduz algumas das obras do pintor português, destacando-o pelo seu colorido. (…) Em Setembro de 1913, já depois de outra mudança de estúdio (que o leva a instalar-se em Montparnasse, na rua Ernest Cresson), estará representado no I Herbstsalon de Berlim, organizado pela Galeria Der Sturm. Amadeo já havia trabalhado com esta galeria berlinense em Novembro de 1912, data em que pela primeira vez expôs no seu espaço. (…)

Em 1914, (…) para passar o Verão em Portugal, como era habitual, (…) Amadeo regressa a Manhufe, onde será surpreendido pelo deflagrar da Guerra que o impedirá de regressar a Paris.

A estadia forçada de Amadeo em Portugal não foi sinónimo de apatia criativa. Se ainda em Paris a sua obra explorara os domínios da abstração e, depois, enveredara por vias de compromisso expressionismo, o exílio em Portugal acabará por constituir-se como um momento de plena maturação da sua pintura, que se aproximará então de muitas das questões equacionadas no domínio da colagem.

Em 1915, o isolamento de Amadeo em Amarante foi quebrado pelo contacto com Sonia e Robert Delaunay, que a Guerra fizera também, inesperadamente, aportar a Vila do Conde. Por esta via, o círculo das suas relações recupera Eduardo Viana e alarga-se a Almada Negreiros. (…) através de Almada, Amadeo entra em contacto com o grupo dos “Futuristas” lisboetas, reunidos inicialmente em torno da revista Orpheu.

(…)

Em Dezembro de 1916, Amadeo promoveu, primeiro no Porto e depois em Lisboa, uma mostra em que reuniu sob o título de Abstraccionismo 114 pinturas. (…) importa destacar o protagonismo de Almada Negreiros e Fernando Pessoa na sua defesa pública. Ambos o reconheceram como o pintor mais significativo do seu tempo. Mas não deixaram de ser manifestações excêntricas e isoladas.

Amadeo morreu em Espinho em [25 de] Outubro de 1918, vítima da epidemia de pneumónica que deflagrou nesse ano. Tinha apenas 30 anos.

 

 

 

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Amadeo de Souza-Cardoso – Fotobiografia. Catálogo raisonné, 2007

 

 

Pode ler a versão mais completa da biografia de Amadeo de Souza-Cardoso no site da Fundação Calouste Gulbenkian, aqui.