JOÃO MARTINS, UM RETRATO DE PORTUGAL

120 anos do nascimento de João Martins (Cidade da Praia, Cabo Verde, 23 de Outubro de 1898 — Lisboa, 1972)

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João Martins, Portugal.

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João Martins, a fotografia e o cinema

João de Freitas Martins, mais conhecido por João Martins, nasceu na cidade da Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde, em 23 de outubro de 1898, filho de Maria Felismina D’ Ornelas Pinto Coelho, cabo-verdiana e do capitão António Tiago Martins, oficial do exército de origem madeirense. Cerca do ano de 1900 a família instala-se em Lisboa.

Terá sido com o seu padrinho, António Joaquim Ribeiro, um dos organizadores da I Exposição Nacional de Fotografia, em 1899, que João Martins teve contacto com a fotografia. Terá sido ele – ou um tio (?) – que lhe ofereceu uma câmara Kodak, era ainda muito jovem. Começa a estudar fotografia e instala em sua casa um laboratório. Dedica-se à fotografia desde 1916. Participa em concursos organizados pelo Diário de Notícias e pela Kodak, obtendo vários prémios; colabora com as revistas Ilustração e Magazine Bertrand.
Em outubro de 1925 casa com Rosalina Moreira de Freitas Martins, com quem terá dois filhos, Pedro, nascido em 1927 e Maria de Lurdes, nascida em 1929.

Até 1931, trabalhou como repórter em “O Século Ilustrado”, “Notícias Ilustrado” e “Flama”. Colabora também com a “Vida Mundial Ilustrada”, “Portugal Ilustrado”, “revista ABC” e “National Geographic Magazine”.

Em 1931 conhece Leitão de Barros e inicia a sua carreira de fotógrafo de cena, na Tobis, tendo trabalhado com realizadores como Jorge Brum do Canto, Leitão de Barros, Artur Duarte e Manuel Guimarães. Foi diretor de fotografia em vários filmes, como “A Morgadinha dos Canaviais”, realizado por Caetano Bonucci e Amadeu Ferrari, de 1949. João Martins terá sido “quem mais pôs a fotografia ao serviço do cinema português“, de acordo com Vitória Mesquita e José Pessoa (In: Fotografias de João Martins: Os putos. Lisboa: Instituto Português de Museus, 1997).

Em 1954 recebe o Prémio de Melhor Fotografia, S.N.I., pela fotografia no filme “Episódio Pastoril” e, em 1958, ganhou uma medalha de prata no Salão Internacional de Munique.

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João Martins e os Salões de Fotografia

João Martins foi um dos iniciadores e dos maiores entusiastas do salonismo internacional, participando desde 1937 e foi júri pelo menos no I Salão Nacional de Arte Fotográfica.

O salonismo – a participação em salões de fotografia – um género de concurso, regra geral com duas fases: seleção para admissão de provas para exposição e prémios entre os admitidos – em que cada candidato pode apresentar uma ou várias fotografias, conforme o regulamento de cada salão, era a forma habitual de mostrar e divulgar fotografia, sobretudo entre os anos 1930 e os anos 1970, um pouco por todo o mundo, particularmente na Europa, América e Ásia, sendo realizados mais de uma centena de salões anualmente.

O salonismo levou ao aparecimento de muitas Associações, Clubes ou Grupos de Fotógrafos, sobretudo de amadores, mas incluindo também profissionais: era um espaço de encontro, de partilha de saberes e formação, de mostrar fotografia, de análise crítica e era também a entidade que agregava as diversas participações de cada associado para enviar para um determinado Salão e que recebia da organização do salão para devolução aos sócios, reduzindo custos, por um lado, por outro, conseguindo maior divulgação e participações.

Em Portugal há a destacar como principais associações o Grupo Câmara, de Coimbra, fundado em 1949, o Foto Club 6X6, fundado em Lisboa, em 1950, sendo João Martins um dos fundadores e a Associação Fotográfica do Porto (A.F.P.), surgida em 1951. Merecem ainda citação o Grupo de Amadores de Fotografia de Santarém, a Secção Fotográfica do Clube dos Galitos, de Aveiro e o Grémio Português de Fotografia (G.P.F.), de Lisboa, este fundado em 1931, bem como a Associação Fotográfica do Sul, em Évora.
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João Martins publicou artigos sobre fotografia em diversas revistas, como a Objectiva (1937-1945), Fotografia (1954-1955), tendo tido uma presença praticamente constante no Boletim do Grupo Câmara (1951-1959), a partir do n.º 8-9 (Set.-Dez. 1951) debruçando-se, para além de questões relativas ao salonismo, à estética das imagens e ao cinema. A sua posição sempre foi de valorização da fotografia, escrevendo sobre fotógrafos e júris dos salões, defendendo a novidade e a atualidade nas participações, nomeadamente criticando os fotógrafos que sistematicamente apresentam as mesmas imagens aos vários salões, ao longo de vários anos, e os júris que as aceitam, alertando para as direções dos Clubes e para a sua importância nessa exigência. Analisa também os temas das imagens e alerta para o cansaço de alguns, apelando a novos olhares e temas.

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O Portugal de João Martins

João Martins fotografa a sua Lisboa, regista as crianças pobres dos seus bairros.

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Os Putos. Alfama anos 30, pelo fotografo João Martins.

Os Putos. Alfama anos 30, pelo fotografo João Martins-1

João Martins, Crianças

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Mas grande parte das suas imagens têm como objeto a paisagem, o mar e o património português.

Já em 1934, a monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico, a Praia do Sol, da Costa da Caparica, é ilustrada com fotografias de João Martins.

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João Martins, Guia de Portugal Artístico, Praia do Sol, da Costa da Caparica, 1934

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João Martins, Costa da Caparica. Entrando no mar, Edição: Casa da Bíblia – Acção Bíblica, postal ilustrado.

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No seu olhar sobre Portugal, a pesca do bacalhau, grande aventura marítima, em que os homens partem para o mar por longos períodos, também passou pelo seu olhar:

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Joao_Martins-Panorama (2)

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João Martins, “Partem os bacalhoeiros”. In: Revista Panorama 14.04.1943, pp 26-28.

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Talvez das imagens mais conhecidas de João Martins e das que sejam mais definidoras da sua obra, são as que integram as edições de Frederic P. Marjay, impressos e distribuídos pela Livraria Bertrand, constituindo a Coleção Romântica: álbuns fotográficos editados na década de 1950 e 1960, em várias línguas, integrando um primeiro texto de enquadramento, depois a parte fotográfica, no geral impressa em heliogravura, e a identificação das fotografias e fotógrafos. João Martins é o autor de um número significativo das imagens em obras como “Portugal Romântico” (1956), “Porto…” (1956), “Portugal e o Mar” (1957) e sobretudo em “Portugal do Fado” (1960), entre outras (fotografias no início).

Embora estes álbuns fossem na linha dos álbuns promocionais e ‘turísticos’, sobre os países, que então se editavam na Europa, e estas fotografias se encontrem nessa linha, são imagens que registam o património, a paisagem, os hábitos e as tradições, o mar e os navios, num olhar pleno de beleza e orgulho.

Como refere Isabel Dantas dos Reis em “João Martins: convições por imagens”:

Tendo em conta os altos níveis de iliteracia e analfabetismo dos portugueses, a imagem era, sem dúvida uma importante forma de comunicação, bem como um poderoso instrumento de propaganda. O novo regime  – cuja duração foi praticamente coincidente com a actividade de João Martins enquanto fotógrafo – não demorou a aperceber-se e aproveitar esse facto. João Martins terá sido um dos que mais contribuiu para o imenso caudal de imagens que então se produziu, participando activamente na ‘tipificação e emergência de cunho vincadamente nacional’[6], subserviente aos intentos da propaganda do Estado Novo.

(…) João Martins revelou-se assim um homem de fortes valores e convicções, que tentou conciliar e usar como base para a sua grande paixão que era a fotografia. Na realidade, ele apenas confirmou que qualquer manifestação artística depende do seu criador, que por sua vez depende dos seus conceitos, que por sua vez surgem como resultado da sua vivência.”

[6] TAVARES, Emília – A fotografia ideológica de João Martins, 1898-1972, Porto: Mimesis, 2002, «Colecção Escritos», p. 24

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João Martins, afastar-se-á progressivamente do cinema e do movimento fotográfico salonista para se tornar “num fotógrafo de estúdio convencional” entre os anos 1955 e 1965. Cria em Paços de Arcos o estúdio “JOMARTE” em sociedade com a sua irmã Maria Eugénia.

Fotografou toda a sua vida; faleceu em 1972, de enfarte.

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Pode conhecer melhor a vida de João Martins na Wikipédia, aqui; no site do CPF, aqui.

Pode ler o texto de Isabel Dantas dos Reis, “João Martins: convições por imagens”, aqui.

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