A HISTÓRIA DE “LISBOA CIDADE TRISTE E ALEGRE” – A ARQUITETURA DE UM LIVRO

Exposição patente em Lisboa, no Museu da Cidade – Palácio Pimenta, ao Campo Grande, de 13 de abril a 2 e dezembro de 2018.

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O Museu da Cidade – Palácio Pimenta, ao Campo Grande, apresenta uma exposição, fundamental para compreender a génese e o processo de criação de um dos mais importantes livros de fotografia portugueses, sem dúvida o mais conhecido e influente: “Lisboa Cidade Triste e Alegre”, de Victor Palla e Costa Martins.

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A exposição, com curadoria de Rita Palla Aragão, neta de Victor Palla, e design de Carlos Bártolo, mostra o livro e a história da sua génese, criação e divulgação, bem como a evolução e influência que a obra teve, recorrendo ao precioso espólio da família, bem como alguma outra que recolheu para o efeito. O avô guardou e a família conservou vasta documentação da sua múltipla atividade e, também, da edição do livro.

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Para Rita Palla Aragão, a família apercebeu-se da importância da obra quando ouviu que um exemplar do livro em leilão na Christie’s, em Londres, em 2007, fora arrematado por cerca de 14.000 €. Era o livro do avô assim tão valioso? Aquele livro que todos conheciam e que havia lá em casa?…

Conheciam o livro, participaram na exposição na Ether, em 1982, ficaram a saber que era o único livro de fotografia português que tinha sido referenciado no 1.º volume do Photobook de Martin Parr e Gerry Badger (Phaidon, 2004)…

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António Bracons, Joana Sousa Monteiro, diretora do Museu de Lisboa  e Rita Palla Aragão, 2018

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Refere o Museu de Lisboa:

Livro de culto sobre Lisboa, considerou-se fundamental dedicar-lhe uma exposição na cidade que o inspirou e à qual os autores consagraram esta obra, que assim descreveram na apresentação:

(…) o retrato da Lisboa humana e viva através dos seus habitantes – de dia, de noite, nos seus bairros, na Baixa, no Tejo – revelação ora alegre ora triste, mas sempre terna e sentida, da vida de uma cidade. Talvez por isso fosse mais adequado chamar-lhe «poema gráfico» – até porque o arranjo das imagens e a própria composição do livro têm, no seu grafismo, o fluir, a alternância de ritmos, as ressonâncias de uma obra poética.”

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Folha de sala

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Entramos no Pavilhão Preto. O hall apresenta-se como que uma capa, o rosto.

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Através de um conjunto de fotografias impressas sobre telas a toda a altura, construindo um percurso, entramos no livro, entramos na Lisboa, triste e alegre, sobretudo através da presença de crianças e adultos e idosos, retirados das páginas do livro.

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Na sala contígua lemos uma parte da obra através do seu Índice: FOTOGRAFAR. O Índice da obra é um registo escrito para cada imagem, de sentimentos, comentários, observações, essencialmente de natureza fotográfica, estética, histórica e técnica –, mas também humana, de desenvolvimento do processo criativo e de construção da obra. Na exposição, são mostradas algumas das fotografias e os correspondentes textos.

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Apresentam-se também 4 fotografias vintage.

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A sala seguinte é dedicada às fotografias em si.

Palla e Martins tiraram cerca de 6.000 fotografias, das quais escolheram menos de 2 centenas para a obra.

SELECIONAR.

Do lado direito, temos algumas tiras de negativos (35 mm), as provas de contacto e ampliadas dos mesmos, bem como da imagem selecionada e incluída no livro, tal como a página correspondente do livro onde se insere a referida imagem.

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Do outro lado, diversos exemplos de cortes (crops), da imagem original (negativo integral) para a imagem publicada: em diversos dos exemplos apresentados, é apenas um pequeno fragmento que chamou a atenção dos autores. Se este fragmento foi visto e fotografado com a objetiva que tinham montada ou só seleccionado posteriormente, não sabemos.

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Apresenta-se ainda um fragmento de 3’30” do filme “Olho de vidro – uma história da fotografia”, de António Sena e Margarida Gil, produção RTP/Lisboa, 1982, que fala sobre a obra e onde Victor Palla retornando aos locais de há quase 30 anos antes, encontra pessoas que ainda se lembram da sua presença e, nomeadamente a jovem fotografada, que se recorda do momento e vai buscar o vestido que tinha quando Palla a fotografou, o qual, por alguma razão, conservou.

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A sala seguinte mostra a conceção gráfica do livro. PROJETAR e CONSTRUIR.

Frequentes vezes os autores faziam croquis das fotografias para melhor estudar o grafismo da obra.

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A jovem do vestido

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O formato e paginação foram estudados para tirar o maior rendimento do papel, conseguindo uma maior economia, por um lado, por outro, valorizando graficamente a obra. Surge assim o estudo da maquete, distribuindo na folha as páginas inteiras, os fólios dobrados, as “meias páginas” e a sobra que dará o pequeno retângulo de identificação do fascículo.

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O letering do livro foi também objeto de estudo aprofundado.

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Um excerto manuscrito de uma entrevista:

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Apresenta-se ainda diversa documentação associada, como faturas da Neogravura, a correspondente ao primeiro fascículo datada de 16 de fevereiro de 1959, o que significa que terá sido distribuído nesse mesmo mês.

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A sala seguinte mostra os vários fascículos da obra, bem como a divulgação efetuada pelos autores: DISTRIBUIR.

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São mostradas cópias de cartas remetidas quer para os suplementos culturais nacionais, quer para revistas estrangeiras, como a americana “Aperture”. São também mostrados os poucos reflexos na imprensa portuguesa de então e a entrevista de David Mourão Ferreira aos arquitetos, numa rubrica de um programa de televisão :

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A exposição realizada na Ether em 1982 (ver aqui), onde se apresentam algumas fotografias, a folha de sala, bem como estudos da maquete da exposição, os textos, um artigo no Diário de Notícias de 27.04.1982 e a exposição na Casa de Serralves, no Porto, inaugurada em 14 de maio de 1988, conjuntamente com “Kuan”, de Paulo Nozolino:

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António Bracons, Luís Afonso, revendo-se na inauguração da Ether, há 36 anos e Madalena Lello, autora das 3 fotografias acima, 2018

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A sala seguinte mostra AS EDIÇÕES da obra: a edição inicial, e a edição especial, numerada, de 60 exemplares, com indicação da pessoa a que se destinava: o n.º 1 “À EXM.ª SENHORA / MARIA JOÃO SARAIVA PALLA E CARMO”, bem como a encadernação pela Ether em 1982, com o lettering da capa a amarelo e o carimbo da ether no verso da primeira folha, do lado esquerdo, e a 2.ª e 3.ª edição, fac-simile, pela Pierre von Kleist Editions, 2009 e 2015:

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Esta sala dá acesso a duas outras: na primeira, o texto que José Rodrigues Miguéis escreveu expressamente para o livro, como um prefácio, o único texto em prosa da obra.

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Na sala seguinte, apresenta-se o documentário sobre o livro, realizado por Luís Camanho em 2005, em que ouvimos testemunhos de Alexandre Pomar, João Mário Grilo, Dália Dias, João Palla, Emília Tavares, Jorge Costa Martins, Fernando Lopes, Jorge Guerra, Jorge Molder, Luís Pavão, Margarida Medeiros, José Borego, Manuel costa Cabral, Margarida Veiga, José Sommer Ribeiro, Manuel Valente Alves, Nuno Teotónio Pereira, José Soudo (abaixo), Margarida Gil e Teresa Siza.

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Regressamos à sala das edições: no topo temos duas das câmaras utilizadas pelos fotógrafos nas suas caminhadas por Lisboa e uma fotografia num café onde se revêm nos espelhos.

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Passamos novamente pelas fotografias que criam uma cortina e desembocamos no hall.

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Fechamos o livro.

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No âmbito da exposição foi lançado um catálogo que reproduz as obras expostas e inclui diversos ensaios, pode ver aqui.

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No âmbito da exposição, o Jornal Público e A Bela e o Monstro, efetuaram uma nova edição, em fascículos, idênticos aos originais exceto a capa, com a redução de 15% do formato face ao original. Estes fascículos saíram aos sábados, entre os dias 16 de junho e 28 de julho de 2018.

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Pode conhecer este livro no Fascínio da Fotografia, a edição inicial aqui, o redescobrir pela Ether, aqui e as edições da Pierre von Kleist Editions, aqui.

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Fotografias da exposição de António Bracons.

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