ENCONTROS DA IMAGEM 2018. O BELO E A CONSOLAÇÃO. EXPOSIÇÕES – 1

Exposições em diversos locais, de 21 de setembro a 28 de outubro de 2018

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“O Belo e a Consolação”

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A condição humana está marcada pela finitude e pela insatisfação. Perante o desconcerto do mundo, o ser humano indaga sobre o sentido da existência e busca a harmonia e a serenidade. Vivemos numa procura incessante e ansiamos pelo alívio da dor e do sofrimento. Estamos obcecados pela felicidade e pelo prazer, mas sentimos dificuldade em encontrar a consolação.

Cultivamos a singularidade e a liberdade, mas valorizamos a pertença e a segurança. Individualidade e sociedade são complementares e antagonistas: na família, na comunidade, nas instituições. Por outro lado, a memória molda-nos enquanto pessoas, num ciclo de constante transformação, condicionando a nossa compreensão das coisas e a visão do futuro.

Numa época de pressas e de dispersão, a aceleração e a mecanização provocam vertigem, confusão e desorientação. O desassossego da vida contemporânea provoca fragmentação e indiferença. Necessitamos de encontrar um antídoto para a inquietude hiperativa que nos consome e nos afasta da natureza e de nós mesmos. Será que a reconciliação com o mundo passa pela contemplação estética? Podemos aspirar a uma salvação pelo Belo?

O Festival Encontros da Imagem, propõe uma reflexão sobre o “Belo e a Consolação”. A edição 2018, vai decorrer entre os dias 21 de setembro e 28 de outubro. “

A Direção

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Apresento as exposições desta 28.ª edição dos Encontros da Imagem, através de uma ou duas imagens de cada autor e da sinopse do seu projeto. Nesta primeira publicação apresento uma parte das exposições. Na segunda, apresento os Fotógrafos Emergentes.

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Marcia Michael / The object of my gaze

Braga: Museu da Imagem

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© Marcia Michael 1

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Na procura por uma história matrilinear, na minha série The Study of Kin (2009), encontrei-me numa viagem pelos arquivos britânicos, à espera de encontrar um vislumbre das vidas de uma família negra na Grã-Bretanha por volta do século XIX.

Nesta nova série, The Object of My Gaze (2015-2017), onde existe uma necessidade de compreender não só o meu legado, como mas também os meus antepassados, eu questiono sobre a minha história matrilinear. Eu percebi que para recuperar uma pertença eu tinha que ir aos arquivos e procurar o que estava ausente, silenciado e escondido; Eu precisava de uma história para motivar a minha busca, e a minha mãe, que era o único arquivo no qual eu podia confiar, tornou-se no veículo através do qual eu iria descobrir e recuperar narrativas históricas (re-imaginadas).

O vídeo intitulado Remembering You Remember Me (2016) é um diálogo que faz referência à capacidade que uma mãe tem para reconstruir e recuperar o passado, e que ela, através de mim, consegue renovar a história utilizando uma nova visão do futuro.

O vídeo como um todo, produz uma renderização polivocal que expressa uma incorporação de histórias. Restabelece uma linguagem que é então usada para vocalizar uma contra-narrativa de existência e uma metodologia de escuta; que aumenta a necessidade das filhas darem ouvidos à mãe.

A série fotográfica Partus Sequitur ventrem (a criança herda a condição da mãe) utiliza a chamada e resposta que foi estabelecida no vídeo Remembering You, Remembering Me (2016). As imagens do corpo da minha mãe e também do meu próprio, apresentam o diálogo da matrilinhagem, o apelo à compreensão histórica. Estas imagens visam expandir e reformular a representação estereotipada da capacidade da mãe preta ser ao mesmo tempo criadora e marco da história, enquanto é exibido um diálogo íntimo que simultaneamente confirma e testemunha um passado histórico e o futuro da estética negra sobre o corpo negro.

Os auto-retratos intitulados ‘I am now you – mother’, revelam a possibilidade de percorrer a minha linha matrilinear de forma a recuperar uma narrativa visual e auditiva da minha história matrilinear. Expondo o passado através de mim mesma, e permitindo-me reinscrever as suas histórias dentro do seu cenário – eu sou capaz de declarar que a história encontrou uma forma de transcender o tempo e tornar-se visível. Isto serve para que possamos acreditar não apenas no que é sentido, mas naquilo que agora é visto.

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Erika Štěpánková / Free bodies

Jakub Ra / Manifeste

Klára Jakešová / Parasitic Influences

Richard Janeček / Free check for happiness (version 2.0)

Veronika Čechmánková / Lejdy Karneval

Exposição Fake Me, FAMU – Escola de Filme e TV da Academia de Artes Performáticas de Praga. Curadoria: Václav Janoščík

Braga: Nova Galeria do Largo do Paço

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O que queremos da arte? O que eu espero de ti? O que pensamos das gerações mais antigas e das gerações de jovens artistas? Como é que eles vêem o seu futuro, como é que eles formam as suas possibilidades e identidades?

A nossa exposição não reúne apenas estudantes de fotografia da FAMU. Mas também um grupo específico de artistas ligados não só pela sua condição, mas também pela forma como comunicam entre si.

Na primeira sala, somos confrontados com o disfarce, a artificialidade das nossas identidades com projetos baseados em reproduções com máscaras típicas e estereótipos (Veronika Čechmánková), e o conceito de avatares e identidades virtuais (Erika Štěpánková).

A outra sala apresenta as várias formas com as quais lidamos na construção e desconstrução do nosso eu. A moda assume grande importância em termos da nossa identificação (Jakub Ra). Mas temos ainda uma linha de emergência aqui, que espirituosamente subverte a relação homem-máquina (Richard Janeček).

Finalmente, a tensão entre o falso e o real, a máscara e o eu, entre mim e o meu ego, desenrolam-se sob o disfarce de material duro e macio. Plásticos e espuma moldável, e molde em estrutura de aço dos objetos de Klára Jakešová.

Os artistas presentes desafiam as suas perspetivas de identidade e comunidade. Ao invés de refletir ou envolver-se com a crítica dos problemas atuais, tentam articular os seus próprios problemas com a monitorização, consumismo, representação on-line do eu, ou a sua relação com as tradições ou papéis.

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Tamara Wassaf / Del Sentimento de no estar del todo

Braga: Nova Galeria do Largo do Paço

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© Tamara Wassaf 1

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Tamara Wassaf apresenta-nos este ensaio fotográfico com um título que tira de «La vuelta al día en 80 mundos» de Julio Cortázar. Da rápida leitura da obra, vemos como o argentino dialoga sobre avanços musicais, de vanguardas artísticas ou até de formas de vida, com os Estados Unidos muito influentes na época. Depois da publicação póstuma de coletâneas  de obras dele, construiu-se uma análise radicalmente diferente: o que realmente estava a criar era um discurso identitário latino-americano. É com certeza o mesmo que nos traslada a autora neste trabalho: servindo-se de alguns artifícios estéticos vai experimentando formas e seres tentando externalizar-se e corporizar-se fora dela procurando um discurso próprio e universal. Nesse processo de “coisificação” do seu corpo procura possibilidades identitárias no cotexto feminino explorando a noção de ‘retrato expandido’ para indagar além do corpo, descarnando-o e fazendo-o pregas no espaço.

Tamara trabalha desde o conceito contemporâneo de ‘Paisagem intimista’, uma paisagem simbólica que apaga os limites entre a realidade e a representação. É por isso que escolhe espaços concretos que lhe servem como testemunhas íntimas da relação corpo-entorno. As localizações onde fotografa ajudam-na a criar essa Paisagem e a construir um relato atual nostálgico situado em muitos tempos possíveis, movendo-se simultaneamente entre a memória e o anelo. Como o seu compatriota escritor, a autora é «uma dessas crianças que desde o começo levam consigo uma adulta, de forma que quando a amostrinha chega verdadeiramente a adulta acontece que também esta leva consigo uma criança […] isto manifesta-se no sentimento de não estar todo em qualquer das estruturas, das teias que arma a vida e nas que somos à vez aranha e mosca.» Imagem após imagem percebemos o jogo da multiplicidade de formas de habitar um espaço vazio à medida que a autora vai debulhando as ideias contrapostas corpo-ausência, através de objetos para fotografar a identidade que procura num pulo por se enraizar e se definir, pois a condição de emigrante de Tamara é condicionante na sua obra e faz-se palpável na habitação dos espaços, se calhar tentando arraigar-se e estar. De uma vez por todas.

Curadoria: Vítor Nieves

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Ivan da Silva / #nextluk

Braga: Nova Galeria do Largo do Paço

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© Ivan da Silva 1

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© Ivan da Silva 2

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Em #nextluk, Ivan Da Silva aborda o fenómeno da massificação da auto-representação na cultura popular contemporânea, evidente, a título de exemplo, na vulgarização da partilha de selfies nas redes sociais. Da Silva selecionou aleatoriamente uma conta de Facebook, apropriando-se das imagens de perfil do utilizador, constituídas exclusivamente por selfiese cujo número atingiu a centena no momento de finalização da recolha. São estes cem auto-retratos a matéria-prima de #nextluk que o autor submete a uma técnica de impressão datada dos primórdios da fotografia, a Cianotipia, destituindo-os da sua volatilidade aparente no ambiente cibernético e cristalizando-as enquanto objetos de direito próprio.

A materialização das imagens digitais combinada com um dispositivo expositivo tendencialmente cénico, lembrando algumas das primeiras mostras dos minimalistas dos anos 1960, resulta num ensaio visual no qual são evocadas algumas das questões e receios inerentes à disseminação desregulada, mas, surpreendentemente, consensual de fotografias de natureza privada. O confronto físico com a impressão em grande formato desse olhar que se avalia a si próprio, tal como um circuito fechado de vigilância, sublinha o processo de auto-representação e a sua inevitável ligação com a construção da auto-imagem e do próprio self. Em #nextluk a padronização que regula o gesto da auto-representação é clara e amplificada pela repetição e pela monocromia. Se todas as épocas possuíram os seus códigos visuais para a representação do eu, Da Silva propõe que no século XXI nos representamos sob o signo de narciso: cada imagem é fruto da contemplação dos ecrãs que nos devolvem o nosso melhor sorriso.

A exposição prolonga-se para lá do espaço físico através de um perfil homónimo no Instagram, onde podemos visualizar as imagens originais. Contudo, esta reaproximação ao ecossistema natural das fotografias está longe de nos devolver o sentido do real abalado pela reflexão espoletada em #nextluk. Pelo contrário, o olhar de narciso questiona agora a sua própria pertinência e com ele a pertinência das práticas fotográficas quotidianas e a sua possibilidade enquanto documento ou simples ficção.

Texto por Vera Marmelo

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Alfonso Almendros / To Name a Mountain

Prémio de Fotografia Contemporânea da Galiza

Braga: Casa dos Crivos

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© Alfonso Almendros 2

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Na primavera de 1863, o paisagista Albert Bierstadt, iniciou a segunda viagem pelas Montanhas Rochosas com o seu amigo, o escritor Fitz Hugh Ludlow.

A história diz que durante a viagem, o pintor ficou deslumbrado com a visão de uma enorme montanha. Nesse instante realizou um esboço onde uma tempestade escura e acinzentada cruza um horizonte imaginário de picos gigantescos. Bierstadt intitulou o seu trabalho de “A storm in the Rocky Mountains, Mount Rosalie” em homenagem à esposa do seu parceiro de expedição. O trabalho resultante foi interpretado como uma representação da tormenta emocional em que Bierstadt se encontrava, e a montanha, até então sem nome, passou a chamar-se Monte Rosalie em honra da mulher que Bierstadt secretamente amava.

A fama de Bierstadt foi efémera. A sua obra parece falar sobre o desejo, mas sempre através do excesso e da transgressão do verdadeiro e do razoável. A sua conceção sobre a beleza parece oscilar entre o sublime e o preconceituoso. Não será uma ousadia e uma frustração, em partes iguais, tentar alcançar um pico elevado? Apesar disso, o ato de dar nome a uma montanha é um feito carregado de poesia. Fala-nos sobre o desejo de posse e permanência. Recorda-nos, através da criação, a memória daqueles a quem amamos.

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João Paulo Serafim / A Invenção da Memória

Braga: Museu Nogueira da Silva

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© João Paulo Serafim 1

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© João Paulo Serafim 2

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“A Invenção da Memória” parte de um levantamento significativo e exaustivo de espaços ligados à cultura – “depósitos de memória”, nas palavras do artista – que se tornam numa espécie de readymades improváveis, tranformando-se em espaços heterotópicos. Suportes como a vitrine ou molduras, que servem como separadores entre o mundo real e o mundo imaginário do museu, são apenas marcadores de objetividade, que garantem  “distanciamento”  ( como afirmava Bertold Brecht sobre o teatro) e assinalam que estamos num outro mundo de artifício, de imaginação.

Um primeiro grupo de imagens fotográficas de dimensões variáveis leva o espetador a visitar diferentes espaços e momentos da “vida” de um museu. A peça Museum Vocabulary, constituída por texto projectado num acrílico, dá-nos definições sobre conceitos de museologia. Por fim “Catalogue des catalogues” é uma instalação que mostra e oculta simultaneamente um conjunto de catálogos de museus colecionados ao longo do tempo, prolongando dessa forma um gesto de acumulação.

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Anna Fox / Resort 1

Braga: Juno

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Resort 1 é uma série de fotografias a cores, muito saturadas, representando a minha visão do aspeto contemporâneo de Butlin, um campo de ferias Inglês, muito típico, situado em Bognor Regis. Por observação e registo das evoluções mais recentes do campo, este trabalho analisa as novas formas de proporcionar um ambiente de lazer para consumo publico. Anteriormente um homem do circo, Billy Bultin abriu o primeiro campo de férias Bultin em meados dos anos 30 do século passado. Este foi desenhado de modo a oferecer ferias divertidas e a um preço acessível a famílias inglesas comuns. A marca tornou-se incrivelmente popular e, em meados dos anos 60, já se tinha expandido a mais nove locais no Reino Unido. Posteriormente, nos anos 70 e 80, quando pacotes de férias baratos se tornam disponíveis – para a europa e por vezes mais longe – a marca Butlin começou a decair e sete campos foram fechados definitivamente, Os três campos restantes, em Bognor Regis, Minehead e Skegness são hoje propriedade da Bourne Leisure que reinventou a marca Butlin como nova experiência de ferias, oferecendo não só pausas para famílias, como, separadamente, fins de semana só para adultos. As fotografias para Resort 1 foram feitas entre 2009 e 2011 e têm como objetivo registar e comentar o novo conceito da experiência de Butlin para famílias.

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Adrián Portugal / Aguadulce

Braga: Juno

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Aguadulce (água doce), a praia mais popular de Lima, tem água salgada. O que parece uma contradição, pode ver-se como um sinal de que as coisas aqui funcionam numa lógica diferente: a lógica de um território livre, como o mundo às avessas dos antigos carnavais.

Cada um será aquilo que quiser ser e levará de recordação um retrato num cruzeiro nas Bahamas, ou rodeado de animais na selva amazónica. Frente a cenários de fantasia, a areia é terreno fértil para o amor, e a água para a liberdade. Os sonhos e recordações dos banhistas desfilam perante os nossos olhos em forma de tatuagens, que respiram na pele dourada pela mistura do sol e da água salgada de Aguadulce.

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Sérgio Couto / Instalação Vídeo ei_archive

Braga: Gnration

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© Sérgio Couto 1

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© Sérgio Couto 2

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A conversão do arquivo digital do Encontros da Imagem – Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais num magma de pixéis passíveis de reordenação e recomposição é o ponto de partida para a instalação visual que ocupa a sala de entrada do GNRation. Esta prática de fronteira entre as artes visuais, performativas e criação gráfica surge como uma possibilidade de ensaio de novas ferramentas, processos de criação e leitura do universo imagético.

Para a presente edição dos Encontros da Imagem o convite da instalação leva a uma experiência em ambiente policromático de imagem digital que traduzem um apurado trabalho de reconfiguração de pixéis retirados de um atlas de imagens do arquivo do festival. Uma proposta de arqueologia digital que desenvolve sequências ficcionais e reconfiguram a nossa perceção das imagens, do seu contexto e intencionalidade. Diluem-se hierarquias, tipologias e índices de referenciação para construir um quadro de experiência cromática, desenraizada e, também por isso, poética.

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Alfredo Cunha / 1996 – 2018 O Tempo de Braga

Braga: Museu D. Diogo de sousa

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A superfície da História do mundo é a política, os poderes, pequenas e grandes decisões, as guerras, desastres e conflitos. Nesta História regressiva que confirma o percurso fotográfico de Alfredo Cunha reconstitui-se, como momentos decisivos, aquele caminho internacional que também nos coube como mensagem e alerta e, mais focados e mais minuciosos, os sobressaltos que o nosso país foi vivendo, desatando a mudança do todo social.

Nesta exposição, encontramos o tempo de Braga, 1996-2018 . Fotografou aqui com a lógica de sempre, intensamente e de forma a encontrar os símbolos e ícones da cidade, hoje ele diz…já não sou jornalista, pretende apenas adaptar-se a nova realidade,  hesita entre a fotografia directa e o humanismo fotográfico, já em termos de neo-documentalismo subjectivo .

Fotografar e testemunhar o seu tempo, o nosso tempo,! E isso é Jornalismo.

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José Bacelar /  À Sombra de Deus

Braga: Museu D. Diogo de Sousa

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© José Bacelar 2

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© José Bacelar 1

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Num sopro de luz renasço na penumbra de cada pedra sagrada. Dessas que muram a minha identidade. Revolvo-me indivisível. Atalho-me em narrativas nascidas antes de todos os séculos, nesta cidade que é minha. São fragmentos vividos e sonhados do sítio onde cresci. Sou parte de Braga tal como sou parte de qualquer outra cidade. Vivo uma miragem de sombra revisitada, nesta luz que é minha.

Por vezes é só o reflexo. O que verdadeiramente habita a essência, vive num prenúncio de fé, neste acreditar tão cheio que se faz e que se olha em fragmentos. Sou ateu e creio em nós, humanos.

Quem me dera para lá desta quimera. São os impiedosos e incautos degraus que se projetam, mais ou menos ambíguos. Os que me levam e os que me trazem.

Braga, cidade dos Arcebispos, cidade onde cresci e onde tenho das mais ternas e profundas memórias, cidade conservadora e jovem, onde tudo acontece, sempre, à sombra de deus.

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Ana Galan / Viv(r)e La Vie

Braga: B-Lounge Biblioteca Geral do Campus de Gualtar – Universidade do Minho

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Viv(r)e la vie! É uma série fotográfica “in process”, de casais de perfil com uma paisagem rural com fundo, e presta homenagem às pessoas que celebram a vida, continuando a viver “o momento”.

Representa casais que se encontram para dançar. As fotografias dão visibilidade a casais de uma certa idade, de pessoas que praticamente não têm vida social, mas que não deixaram de viver a vida plenamente. Tais como nas paisagens de coníferas, a série recria a representação do poder da força vital, da imortalidade.

A artista deu início ao projeto em Espanha em 2010 e continuo-o na Filadélfia, EUA em 2011, em Hãmenkyro, Finlândia e em Leyte, Filipinas, em 2012, devido às residências da artista.

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Raquel Calviño / El Poder De La Sombra

Braga: Convento de São Francisco de Real

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© Raquel Calvino 2

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“Há um ponto no espaço onde amor e dor se encontram”

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Neste projeto autobiográfico, reflete-se sobre o nosso mundo interior onde os aspetos inconscientes da nossa personalidade emergem em relação aos outros, como uma imagem espelhada.

Através de vários “alter egos”, o espaço, a paisagem utilizada como metáforas; mostram-se pequenas parcelas do inconsciente que nos envolvem a todos por serem sentimentos universais: o amor, o desamor, o abandono, a solidão, o desejo, a paixão.

Mostra a sombra que todos trazemos dentro e que nos permitirá ser quem somos, integrar a nossa própria sombra permitirá conviver com a nossa luz e com a nossa escuridão.

“Naquele tempo fazia fotografia de rua até que fui a casa da minha mãe e me apareceu a figura da minha avó na memória, como uma presença que habitava as paisagens dos quartos interiores que eu comecei a fotografar.”

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Eu pensei para mim: “lábios vermelhos … cabelo na almofada”.

Lembrei a recriminação que lhe causava a morte, por me converter numa viúva nova e mulher madura para os outros. E tive que aprender a relacionar-me, despida, com eles.

Fui desejada, amada e abandonada. Uma e outra vez. Sempre chegava o final. E em todo o final existe abandono, dor, saudade. Uma situação que se repetia uma e outra vez. E aprendi que toda a duração é determinada.

Algumas vezes fui omnipotente e outras dominada. Um dia, ele reparou na falta de verniz numa das minhas unhas. E ficou em silêncio.

Passado algum tempo soube que a minha pele era território, o lugar onde se encontrava comigo. “

Texto por Xabier Fernandez

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José Alves / Oestriminis

Braga: Convento de São Francisco de Real

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O mito é uma estrutura complexa de factos diluídos em histórias que compõem o imaginário plural e individual. Histórias formadas pela experiência humana acumulada e a sua relação com o ambiente envolvente, encerrando em si a memória do passado e uma expectativa de futuro. Um inconsciente coletivo que permanece latente através das gerações, intrínseco aos rituais, práticas e lendas. De boca em boca, de ciclo em ciclo. A identidade de um povo é construída sobre essa rede de contos e moldada ao longo do tempo. Mais do que uma fronteira comum, o noroeste da Península Ibérica partilha um genoma comum desde a antiguidade. O mito permeia fronteiras e territórios, através das pessoas. Vaguear por estes territórios, que um dia foram as terras do extremo do mundo, Oestriminis , torna-se o reencontro com um passado distante de costumes tribais. Essa consciência permite-nos olhar mais amplamente para as questões de identidade e divisões contemporâneas, diferenças e semelhanças. O tema é o mito, os elementos são os vestígios. Pistas deixadas nos ritos ainda hoje praticados, nas pessoas que os vivem e propagam. Lendas e crenças que se mostram como a pedra basilar da cultura. Mais do que uma visão etnográfica para catalogar o território, a proposta é a de uma visão interpretativa, na qual, como no próprio mito, a linha entre o real e o imaginário se torna difícil de discernir e facilmente cruzada. Além do que existe atualmente, é uma busca pelo que já existiu também, a busca por uma origem, uma raiz.

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Miguel Vieira Pinto / Ley de Vida

Braga: Convento de São Francisco de Real

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© Miguel Vieira Pinto 1

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Existe muito mais para além das difíceis condições de vida, da dificuldade de inclusão social, habitualmente colocadas em evidência. Existem pessoas com sonhos.

Data de há mais de quarenta e muitos anos as primeiras presenças das pessoas de etnia cigana em Ovar.

Iniciado em 2012, este projecto documental segue de perto diversas comunidades, aprofundando a relação, através da fotografia, da escrita e da memória. Ley de Vida desenvolve-se com a participação dos fotografados e na partilha entre documentarista e documentado, através da criação de uma zona comum, de um diário da viagem, da família, da música das diversas partes do projecto.

Miguel Vieira Pinto

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Mati Álvarez Rodríguez, Javier Álvarez Soto, Emilio Araúxo, Emilio Cendón González, Daniel Díaz Trigo, Federico García Cabezón, Carolina Martínez Rodríguez, María Meseguer, Vítor Nieves, Carme Nogueira, José Paz, Sara Sapetti, Alba Vázquez Carpentier e Marta Villoslada / Ocultações e Inexistências

Curadoria: Xosé Lois Vázquez e Vitor Nieves

Tibães, Braga: Mosteiro de Tibães

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© Esposição Coletiva _Ocultações e Inexistencias_ Alba Vázquez Carpentier

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A beleza que nos atrai é intensificada pela ética mas, paradoxalmente, a «maldade» possui um dos graus máximos de atração: basta pensar na devastação de um incêndio – pela mão de um pirómano ou acidental – ou nas ruínas de uma catástrofe – natural ou bélica-. Nessas situações de agressão avassaladora, quando nos apanha como agredidos, encontra o seu lugar ou consolação: um analgésico contra a dor da perda irreparável. O belo e a consolação pertencem à esfera do observador e simultaneamente do observado. Mas quando o que acontece não permite «consolação» e se torna «non bello», é negado por ocultação: é enviado para as «periferias» sejam geográficas ou íntimas, para que seja esquecido e para que não nos incomode. Nesta dialética que une as esferas de observadores e observados num todo perverso e cínico, inscreve-se a proposta de curadoria desta exposição.

  1. O lugar de lugares, a cidade, abriga no centro mais antigo ou nos novos centros circundantes, as sedes económicas, políticas, jurídicas, mercantis e religiosas. As atividades que não se consideram atrativas estética ou moralmente são expelidas para fora dos limites da cidade. Também ocultadas, fora da vista, continuam a ser estruturas funcionais mas sem o status canónico do belo.

A ação produtiva gera o mesmo resultado centrífugo que o ser criador. No centro produtivo só cabe um pequeno grupo, e o resto, das camadas pobres, vai-se estabelecendo como pode até chegar ao limite da margem e da marginalidade. Em geral, a distância física é económica; o confinamento decreta a inexistência de alguns aspetos da vida social; blinda-nos perante a comunidade ou os lugares.

Mas não só: a prática automática das regras decorrentes do dentro-fora  [centro-periferia] exacerba-se como garantia da estabilidade, decretando inclusivamente a inexistência de certas práticas privadas ou íntimas [o assédio laboral, o maltrato na família…]

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  1. A aproximação à fealdade pode ser feita tentando indagar como está o nosso conflito ético com as regras dentro-fora de lugar, e para isso nada melhor do que procurar no oculto, no inexistente, no que as regras consideram pouco decoroso, seja dentro de casa ou fora dela, no âmbito privado ou social, edificado ou paisagístico. Talvez possamos começar a enviar quase tudo ainda mais além do que para fora.

Essa foi a intenção da proposta “ocultacións e inexistencias” que fizemos a um grupo de sete fotógrafas e sete fotógrafos: que a partir da reflexão artística conseguissem revelar novas formas de indagar o estado da questão.

Esta exposição foi censurada pela patrocinadora, ex-conselheira nacional da habitação e solo da Governo da Galiza, ação na qual interveio ativamente a sua equipa de colaboradoras diretas que mediaram como censuradoras e porta-vozes. O feito ocorreu exatamente no dia 23 de abril de 2007 às 12:00 horas. Tratava-se de impor a remoção das fotos de uma das autoras, tanto no catálogo como na própria exposição, remoção à qual o curador se opôs frontalmente. Foi o culminar do projeto expositivo, a sua «não celebração», e demonstrou a pertinência do mesmo.

A exposição foi produzida pela Difusora de letras, artes e ideias, SL no II Foro Internacional do Feísmo com o tema «Construir um país: a rehumanización do territorio» realizado em Ourense, na Galiza, nos dias 4, 5 e 6 de maio de 2007.

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AAVV / Exposição de Memória Outono Fotográfico 1983-2017

Tibães, Braga: Mosteiro de Tibães

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© Exposição de Memória - Outono Fotografico1

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O Outono Fotográfico é o festival galego de fotografia que reúne criadores e criadoras desde o ano de 1983 e contribuiu para que a fotografia contemporânea entrasse fortemente na Galiza. É o festival mais antigo da península e o segundo mais antigo do mundo.

Nos seus 35 anos de existência, foi criando uma sala de exposições expandida que hoje abrange espaços expositivos na Galiza e no norte de Portugal. Cada ano propõe um tema para reflexão autoral que constitui o fio condutor das exposições.

Estrutura-se em 5 secções:

Secção oficial. Valoriza trabalhos fotográficos de autoras e autores galegos e internacionais selecionados por curadores especializados do mundo da arte contemporânea e da fotografia.

Outono Aberto. É a secção mais democratizadora do festival, na qual qualquer pessoa que regista um projeto fotográfico consegue expor.

Histórias da fotografia galega. A cada ano recupera-se o trabalho de fotógrafas e fotógrafos históricos, especialistas em restauro, arte e documentação.

Inter secção. Projetos de classificação complexa, tanto pelos métodos utilizados como pelo conteúdo.

Campus de Outono. É a escola do festival com workshops, Master Class, apresentações e debates, com presença em diferentes vilas e cidades.

No OF atribui-se o Prémio Galiza de Fotografia Contemporânea à melhor série apresentada, com a produção de uma exposição itinerante e a edição de um livro. É um dos prémios mais valiosos da Península.

Na XXXV edição do OF em 2017, inauguraram-se 88 exposições de 280 artistas em 66 espaços expositivos de 22 localidades da Galiza e Portugal. Somaram-se 85 entidades colaboradoras: 31 privadas e 54 públicas.

Após 35 anos, os números falam por si: 2.035 exposições nas quais participaram 6,093 autores e 243 eventos formativos. O OF esteve em média em 25 localidades por ano.

Cada edição, nomeadamente nas últimas 7, aumentou as relações internacionais através de intercâmbios com festivais e instituições fotográficas especialmente com países lusófonos: em Portugal [Porto, Lisboa ou com os Encontros da Imagem de Braga, com a qual a colaboração está instituída], no Brasil, [Paraty em Foco no Rio de Janeiro ou Encontros de Agosto em Fortaleza]; com o Goa Photo da Índia, ou Festival de Fotografia de Cabo Verde. Com festivais em Espanha [FotoNoviembre de Tenerife, GetxoFoto de Euskadi, ArtPhoto de Barcelona]; ou do resto da Europa [Ireland Photo, Format ou Circulations no Reino Unido].

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Catherine Ballet / Strangers in the light

Barcelos: Teatro Gil Vicente

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© Catherine Balet_1

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Esta série fotográfica é a uma exploração da complexa relação entre o homem e a tecnologia nos diversos campos da vida. Refere-se às novas posturas das figuras contemporâneas conectadas e absorvidas pela luz branca digital, e à forma como os telemóveis criam uma nova abordagem à rápida e leve fotografia móvel, criando a sua própria estética e afetando a nossa cultura visual.

As fotos desta série são iluminadas exclusivamente com luz de dispositivos, intensificando a sensação de chiaroscuro do século XXI. Este brilho tecnológico cria uma estética que sugere ligações às pinturas clássicas e aos antigos mestres desta disciplina Investiga uma reflexão sobre a futura histórica que foi imposta pela invenção dos dispositivos. Questiona a capacidade de omnipresença que a tecnologia oferece, abrindo-se a um novo espaço de tempo numa realidade condensada algures entre o passado, presente e futuro, e onde a rapidez se tornou prioridade, alterando a abordagem ao tempo e à memória.

“Strangers in the Light” é uma série de 70 fotografias que foi publicada em formato livro pela editora Seidl em 2013

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Dominika Gesicka / This is not a real live

Barcelos: Salão Gótico da Câmara Municipal de Barcelos

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© Dominika Gesicka 1

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© Dominika Gesicka 2

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Há um lugar onde ninguém nasce e ninguém morre. Claro que é possível morrer em qualquer lugar, mas não é possível ser enterrado aqui, pois foi descoberto que os corpos neste lugar não se decompõem. Também não é possível nascer aqui, pois as mulheres grávidas têm que regressar ao continente para dar à luz. Não há gatos, nem árvores, nem semáforos. Não há parque de diversões, mas há uma companhia de circo. No inverno, é completamente escuro, mas no verão o sol nunca se põe. O lugar é chamado de Longyearbyen, e é a maior povoação e centro administrativo de Svalbard. É também a cidade mais setentrional do mundo. Embora seja difícil considerá-la o melhor lugar para se viver, muitas pessoas apaixonam-se por ela à primeira vista. Algumas pessoas vieram para aqui por apenas duas semanas e permaneceram por cinco ou mais anos, mas não muitos decidiram ficar aqui permanentemente. Por vezes fica-se com a impressão de que as pessoas que aqui estão, tentam escapar de alguma coisa; que este é apenas um retiro. Isto não é vida real.

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Bruno Silva / Interlude

Guimarães: Espaço B-Lounge, Biblioteca Geral do Campus da Universidade do Minho

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© Bruno Silva 2

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Interlude (interlúdio), na música é um pequeno trecho destinado a preencher o espaço entre dois actos ou partes de uma grande composição. Já no sentido figurado, é um lapso de tempo que interrompe alguma coisa; um intervalo, interregno.

Estabelecendo uma ligação com a fotografia, este trabalho é feito precisamente entre dois outros trabalhos que tenho vindo a desenvolver mas que no fundo se interseccionam.

Interlude não é a rua, é na rua. Onde nada acaba e tudo começa.

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Eduardo Brito & Rui Hermenegildo / 5 p.m Hotel da Gloria

Guimarães: Espaço B-Lounge, Biblioteca Geral do Campus da Universidade do Minho

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© Eduardo Brito e Rui Hermenegildo 2

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Ao minuto 52 da longa metragem The Passenger (Michelangelo Antonioni, 1975), David Locke, sob a pele de David Robertson, abre uma agenda: um grande plano mostra que a 11 de Setembro de 1973, às 5 p.m., há um encontro marcado no Hotel de la Gloria, em Osuna. É para lá que se destina o caminho de Locke, é no Hotel de la Gloria que o filme irá confluir no célebre plano sequência de sete minutos, o antepenúltimo do filme. Osuna é uma cidade a 89 quilómetros de Sevilha, conhecida, entre vários atributos, pela sua cripta ducal, referida por Lorca em Jogo e Teoria do Duende em 1933. Porém, Antonioni decidiu filmar Osuna e o seu Hotel de La Gloria – especificamente contruído para o filme – em Vera, a 363 quilómetros de Osuna. Ao decidir filmar Osuna em Vera, Antonioni transformou a primeira cidade num lugar duplamente imaginário: se já o era na ficção que dá corpo ao filme, passa a sê-lo enquanto cinema feito. Locke viaja até ao Hotel de la Gloria, em Osuna, concebido e realizado em Vera. 5 p.m., Hotel de la Gloria é um trabalho de Eduardo Brito e Rui Hermenegildo feito em Osuna, a partir do referido plano antoniano. Através da imagem fotográfica, este plano cinematograficamente é convocado na sua localização e movimento imaginários em Osuna: assim se relocalizando, enquanto fotografia e ficção sobre ficção, no lugar par aonde o cinema o remete. 5 p.m., Hotel de la Gloria é, portanto, uma deriva pela impossível materialização (ou imaginação) de um ligar, de um encontro marcado na grande ilusão do cinema.

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Cloete Breytenbach / Angola War 1967 – 1982

Porto: Mira Forum

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ANGOLA WAR é um documentário de fotografias tiradas entre 1967 e 1982 por Cloete Breytenbach, um fotógrafo de imprensa sul-africano que foi autorizado a acompanhar Jonas Savimbi e a UNITA, e a SADF em várias ocasiões durante o conflito. Ele foi o único fotógrafo de imprensa sul-africano autorizado a estar tão perto da frente ativa. Apesar destas fotografias terem sido tiradas de um dos lados da guerra (UNITA e da SADF), elas formam um importante documentário desta guerra histórica que afetou a vida de milhares de pessoas em Angola, Portugal, África do Sul e Cuba. Estas fotografias nunca foram exibidas antes. Cloete está agora nos seus 80 anos de idade e ainda vive na África do Sul. Ele estará presente na exposição.

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Pode ler o artigo de Ana Marques Maia no jornal Público sobre esta exposição, aqui.

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Brian Griffin / The workers

Porto: Galeria do Instituto de Produção Cultural e Imagem

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Depois de ter trabalhado extensivamente para Rosehaugh Stanhope, fotografando a construção do complexo Broadgate na cidade de Londres, Brian Griffin foi contratado para fotografar um aspeto do Broadgate à sua escolha. Na época ele estava de luto pela perda do seu pai, vítima da poluição industrial. Ele acredita que sempre tratou o trabalhador com dignidade e, nesta ocasião, fotografou o trabalhador como se tratasse de um cavaleiro a ser velado numa qualquer catedral.

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As restantes exposições dos Encontros da Imagem – os fotógrafos emergentes – no Fascínio da Fotografia, aqui.

Mais informação sobre as exposições e outros eventos nos Encontros da Imagem aqui.

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