“O LONGE E AS IMAGENS” OU REFLEXÕES SOBRE A IDENTIDADE – 2

A exposição O LONGE E AS IMAGENS está patente em Lisboa, no 5d Creative Hub, na Rua 2 da Matinha, Lote A, piso 5 D, de 15 de setembro a 3 de outubro de 2018. Na finissage, lançamento do catálogo (18:00 – 22:00).

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A exposição ‘O Longe e as Imagens’ apresenta 17 projetos, dos quais dois em filme, dos alunos da Pós-Graduação em Discursos da Fotografia Contemporânea, ano 2017-2018 da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

Nesta publicação e na anterior faço uma apresentação dos diferentes projetos, nesta com o texto de João Seguro da folha de sala, na anterior, com o de Rogério Taveira.

Estas séries são reflexões profundas e muito interessantes, mostrando algumas novos caminhos da fotografia portuguesa. Poderíamos dizer que são reflexões sobre a identidade, através de diferentes abordagens.

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Cartaz da exposição

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Na folha de sala, João Seguro assina uma

BREVE NOTA ACERCA DO LONGE E DAS IMAGENS

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Da sua longa e profícua relação com as imagens e com a fotografia Roland Barthes explica, num texto particularmente interessante, que “(…) a imagem (fotográfica) não é a realidade mas pelo menos é o seu perfeito analogon, e é exatamente esta perfeição análoga que, ao senso comum, define o fotográfico. É então desta forma que pode ser visto o estatuto especial da imagem fotográfica: é uma mensagem sem um código; e desta proposição um importante corolário deve ser delineado: a mensagem fotográfica é uma mensagem contínua.”1.

É precisamente aqui que aprovamos a organização do fotográfico de Barthes, pois sabemos desde há muito, que nunca a fotografia ou o fotográfico se substituíram ao real, e a definição de real tem muitas nuances que, não sendo novas, evidenciam hoje, mais que nunca, não a falência dos sistemas de representação, mas acima de tudo um questionamento muito agudo dos sistemas de organização do conhecimento, que ao fim de séculos conduziram à construção de um edifício conceptual alicerçado nas noções de realidade e racionalidade.

Talvez possamos então assumir que, numa época em que tais edifícios de suposta racionalidade estão a ser desmontados, a fotografia e o fotográfico possam regressar a uma posição de candura para com a sua verdadeira natureza humana, re-colocando o olho do fotógrafo na posição central de uma intrincada teia de relações de subserviência ao medium e às suas progressões tecnológicas, de forma a poder assumir outra vez, a notável (e eventualmente questionável) proposição de Flaubert, quando assume repetidas vezes através dos seus personagens o lema “Eu sou um olho”2.

Numa altura em que a propagação de dispositivos tecnológicos nos parece fazer crer que a democratização do fotográfico é uma realidade, parecemos resistir e contradizer esse impulso que aceita a progressão histórica da fotografia como um subproduto de avanços tecnológicos que a desviam da lógica de aproximação do humano ao mundo que habita. A noção da fotografia como uma expressão dessa relação ecológica com um mundo tangível, que existe algures fora do corpo humano, do seu aparelho sensível, mas ainda assim, delimitado pelos seus alcances sensoriais, parece pouco a pouco deixar de ser uma prioridade do trabalho fotográfico tal como entendido pelas as lógicas de produção do nosso tempo. Não obstando totalmente essa lógica tecnocrática que a fotografia tem assumido, ela é (foi) aliás o motor de arranque da cultura fotográfica desde a sua pré-história, mas comparativamente, a uma época que questiona os seus edifícios de racionalidade, também as práticas fotográficas parecem querer disputar essa hipótese que nos diz que a sobrevivência do fotográfico existe no reconhecimento das lógicas do dispositivo3, e que as lógicas criativas devem sair das brechas deixadas a descoberto pela mera sobre-exploração técnica da fotografia.

A presente exposição apresenta trabalhos desenvolvidos durante dois semestres de uma pós-graduação em discursos de fotografia e, olhando para o conjunto de autores e de propostas que foram desenvolvidas durante este período, podemos dizer que o sentido de que cada individualidade autoral advém precisamente de uma auto-consciência que diz que – cada um é um olho, no sentido mais físico que um olho pode ser – não fosse esta uma das prerrogativas do existencialismo que parece perpassar todos os trabalhos apresentados.

É por isso que obras como as que Fernanda Mafra, Mariana Oliveira, Eugénia Burnay, Ma Haiquan, Alfredo Pontes, Matilde Calado, Paula Ferreira, Miguel Carvalho, Rafaela Alves, Rafael Pires, Inês Lima, João Viegas, Rita Antunes, Rodolfo Gil, Thais Carneiro, Celine Diaz e Kacau Oliveira, nos apresentam agora, não poderão ser endereçadas ao presente se não entendermos a prática da fotografia como um exercício de recentramento naquilo que é essencial ao humano, na sua busca por um sentido na sua relação com as múltiplas aporias do real.

A resposta estará eventualmente nessa credulidade ingénua, nesse golpe de magia, que nos permite, como diria Walter Benjamin num texto de profunda revelação poética, “retirar o aguilhão ao próprio movimento e transformar o golpe de vento num sussurro e a rápida passagem dos pássaros no deslizar das aves migratórias.”4. Querendo com esta simples constatação dizer que a fotografia existe para estabelecer as hipóteses de aproximação e afastamento que cada época, e cada indivíduo, precisam de construir para que a(s) distância(s), (que é, ou são, talvez as mais importantes características da fotografia relativamente à estrutura profunda que define cada época), continuem a ser os elementos que determinam a intensidade das formas de mediação que a técnica sozinha não pode impor.

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1 BARTHES, Roland; The Photographic Message, in IMAGE MUSIC TEXT; Fontana Press, Harper Collins Publishers, Lonsres, 1977, pág. 17. “Certainly the image is not the reality but at least it is its perfect analogon and it is exactly this analogical perfection which, to common sense, defines the photograph. Thus can be seen the special status of the photographic image: it is a message without a code; from which proposition an important corollary must immediately be drawn: the photographic message is a continuous message.”

2 A este respeito ver o importante texto de Martin Jay, “Dialectic of Enlightment” in JAY, Martin; Downcast Eyes – The Denigration of Vision in Twentieth-Century French Thought; University of California Press, Berkeley e Los Angeles, 1994, pág 112.

3 AGAMBEN, Giorgio, Giorgio Agamben: «What is an the Apparatus» in What is an Apparatus and Other Essays; 2009.

4 BENJAMIN, Walter; O Longe e as Imagens, in Imagens de Pensamento, Assírio e Alvim, Lisboa, 2004, pág. 246-247. (Trad. António Barrento).

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MATILDE CALADO, QUANDO FOR TARDE

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Ainda antes de nos conhecermos, quando somos pequeninos, a única coisa que queremos é ser reconhecidos e amados. “Quando For Tarde”, uma ficção observacional, retrata um lugar comum sobre o amor e a persistência em correr atrás de alguém, uma reflexão sobre a utopia antiga de que o príncipe encantado chegará para preencher todos os nossos vazios emocionais da vida.

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MIGUEL CRUZ DE CARVALHO, LIGHT GEOMETRIES S008

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Miguel Cruz de Carvalho

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A série Light Geometries S008 tem como ideia central a busca de algo que não está visível. Aqui, a fotografia deixa de ser entendida como uma forma de captar a realidade do espaço onde existimos e o aparato tecnológico que a suporta assume-se como aquilo que realmente é: algo que permite manipular e construir realidades. Neste contexto, a máquina fotográfica reclama para si o papel de dispositivo de distorção da realidade, através do qual se exploram os limites daquilo que geralmente entendemos como fotografia.
Assim, as formas reais que nos envolvem estilizam-se, distorcem-se e configuram novas representações, novos jogos de cores, luzes e sombras, capazes de expressar novas ideias e conceitos, provocando como que uma necessidade de reinventar para eles uma explicação que os enquadre no espaço e no tempo e que a sua essência nos remeta novamente para imagens e ritmos do espaço que nos envolve.

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PAULA FERREIRA, METÁFORA

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Paula Ferreira

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Em “Metáfora”, a dificuldade contemporânea de relação entre indivíduo e espaço é explorada visualmente por meio de paisagens interrompidas por carros.

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RAFAEL RAPOSO PIRES, URBE

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Rafael Raposo Pires

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O trabalho mostra detalhes de uma cidade documentando a improvisação, manutenção ou a falta dela. Tanto locais públicos como espaços privados são usados para reflectir sobre o modo de criação, ocupação e modificação do espaço urbano. É valorizada a observação de situações caricatas que desafiam a norma.

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RAFAELA ALVES, (IN)COMPLEXO

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Rafaela Alves

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O meu corpo. Um tecido translúcido. Um estado metamorfoseado. Um complexo incompleto.
Esta série de imagens procura a exploração do corpo e da mente através da análise pessoal da identidade e das emoções. Teve a auto-reflexão, questionamento e consciencialização como processo na vontade de se pensar. Conceitos como expansão e contenção, insegurança e timidez funcionam como representação da artista na tentativa de compreender a sua própria identidade.

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RITA ANTUNES, REMINISCÊNCIAS D’ELA

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Rita Antunes-Avó

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Num mural de fotografia intimista dou a conhecer algumas facetas da minha avó… Toda a sua multiplicidade de expressões, sentimentos, espaços e objetos que ajudam a definir um pouco a sua identidade, ao mesmo tempo que nos fornecem pistas sobre um “Eu”… Um “Eu” que vive de memórias e realidades fragmentadas; Um “Eu” que convive com a doença de Alzheimer há mais de 10 anos.

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RODOLFO GIL, OUTUBRO

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Rodolfo Gil-Outubro

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Uma narrativa acerca da intimidade, na passagem dos dias no espaço que se habita.
Esta série de 12 imagens, a preto e branco, compreende fragmentos de histórias, ficções, onde se levantam questões (nunca inteiramente reveladas), projetando a imaginação sobre o que acontece no interior, evidenciando a dimensão psicológica do local e do ambiente quotidiano. Cruzam-se, aqui, passado e presente, desvelando silêncios e dissidências, num lento passar do tempo.
Segundo Georges Perec, em The Species of Spaces, “ao pensarmos e construirmos produção artística sobre as coisas banais e rotineiras do dia-a-dia, estamos, no fundo, a falar daquilo que somos e do modo como vivemos”.
O óbvio, a rotina, a desarmonia e a incapacidade de comunicação, que nos acompanham e submergem, (e o que podem significar), são o ponto central deste trabalho.

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THAÍS CARNEIRO, FACE

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Thaís Carneiro, Face

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O rosto não é uma imagem, mas um complexo de sinais e de forças que o puxam para dentro e para fora de si. O retrato constrói uma singularidade paradoxal: dá a forma humana uma identidade, mas descodifica-a para além do traduzível. Essa série de imagens busca restituir, numa imagem invisível, o modelo visível. As faces disformes e em movimento, questionam a rigidez inevitável as quais tentamos projetar e assegurar nossas realidades, como num esboço perfeito do que é realmente vivente: a mutação do espírito.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2018.

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Os aspetos da exposição são de António Bracons; as fotografias individuais, dos respetivos autores. Os textos são dos autores, retirados da folha de sala.

Pode ver os restantes projetos aqui.

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