EMÍLIO BIEL, FOTÓGRAFO E EDITOR NO PORTUGAL DE OITOCENTOS

180 anos do nascimento de Carlos Emílio Biel (St. Annberg, Saxónia, Alemanha, 18 de Setembro de 1838 – Porto, 14 de Setembro de 1915)

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Emílio Biel

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Karl Emil Biel nasceu em St. Annberg, na Saxónia, hoje Alemanha, a 18 de Setembro de 1838.

Em 1857 vem para Lisboa, onde trabalha na casa alemã Henrique Schalk, representante de diversas firmas alemãs comercializando “ferragens, objectos de ferro, zinco e cobre, botões, colchetes e tecidos de veludo e seda” (Paulo Baptista, p. 110). Dedica-se também à fotografia. Conhece o Rei Consorte D. Fernando II, filho mais velho do príncipe Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, nascido em Viena, esposo da rainha D. Maria II. A língua e origem comum terá sido um factor de aproximação e Emílio Biel virá a adquirir a honra de Fotógrafo da Casa Real.

Três anos depois de chegar a Lisboa muda-se para o Porto, onde dirige a filial que a firma Schalk abre nessa cidade. Quatro anos depois, estabelece-se por conta própria, sendo representante de outras marcas, como a Coats & Clark, a Benz e a Schuckert & Co (motores). Em 1865 monta uma Fábrica de Botões de duraque, seda e metal, na Rua da Alegria, n.º 372.

Em 1865, ano em que tem lugar é inaugurado o Palácio de Cristal e tem lugar a Exposição Industrial do Porto, torna-se proprietário da “Photographia Fritz” (ou em 1874?), de Joachim Friedrich Martin Fritz, na R. do Almada 122, no Porto, tornando-se o seu estabelecimento fotográfico. É aqui que vai funcionar a sociedade que estabelece com Fernando Joan Martin Niels Brütt a 22 de Agosto de 1876, dando origem a uma das maiores e mais profícuas casas fotográficas do país. Mais tarde, a “E. Biel & Cia” muda-se para o Palácio do Conde do Bolhão, na Rua Formosa, n.º 342, na mesma cidade.

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Verso de fotografia.

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Carlos Relvas, introduziu em Portugal a fototipia, processo fotomecânico de impressão criado em 1856 por Louis Alphonse Poitevin e aperfeiçoado por Joseph Albert. A matriz era obtida em placa de vidro, através de uma camada de emulsão fotossensível de bicromato de gelatina, impressionada por cópia por contacto com o negativo fotográfico: a gelatina torna-se mais insolúvel nas zonas transparentes da imagem e a tinta era mais facilmente absorvida nestas áreas transparentes. O processo permitia imprimir cerca de 500 exemplares com boa qualidade (a gelatina vai-se degradando com a impressão). Relvas adquiriu o processo, tendo-o distribuído a Emílio Biel e a Domingos Alvão, ambos do Porto – os que mais o desenvolveram – e a outros fotógrafos.

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Verso de bilhete postal ilustrado.

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Emílio Biel instala assim uma oficina de fototipia, a qual será responsável por um conjunto notável de edições, não se podendo esquecer os bilhetes postais ilustrados: na idade do ouro destes, Emílio Biel dispunha assim já de uma elevada sensibilidade artística e dos meios técnicos que lhe permitiram ser um dos principais editores, produziu cerca de 500, “dos quais pelo menos cerca de metade dizem respeito à cidade do Porto”.

Biel integra a Comissão que preparou a participação da cidade do Porto na Exposição de Paris de 1878 e contribuiu para as comemorações do Tricentenário de Camões, em 1880, no Porto, no âmbito das quais edita uma luxuosa edição de “Os Lusíadas”, com um profundo estudo de José Gomes Monteiro e de J. da Silva Mendes Leal,  impressa em Leipzig, na Typographia Giesecke-Vefrient, sendo as fototipias impressas por Biel. Esta edição foi “a melhor, a mais completa, a mais nítida, a mais notável” que até então se publicou, de acordo com Magalhães Lima.

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Edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, de Emílio Biel, 1880

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Seguem-se diversas edições onde a fotografia abunda, imagens de grande qualidade estética e técnica e excelentemente impressas, adquirindo experiência e sendo reconhecida como uma importante editora de fototipias em Portugal. Em 1883, edita o “Álbum da Exposição Distrital de Aveiro -1882”, da autoria do historiador e crítico de arte Joaquim de Vasconcelos (Porto, 1849 – Porto, 1936), de acordo com José Augusto França, o fundador da História da Arte em Portugal. Joaquim António da Fonseca de Vasconcelos foi conservador e diretor do Museu Industrial e Comercial do Porto e marido de Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1851 – 1925), a primeira mulher a lecionar numa universidade portuguesa, a de Coimbra. Será o início de uma colaboração longa e frutuosa.

Paralelamente com o trabalho de estúdio da Casa Biel, Emílio dedicou-se à fotografia paisagística e de grandes obras de engenharia. Em 1882 terá iniciado o levantamento documental e fotográfico da construção do caminho-de-ferro em Portugal, e do Porto de Leixões, em Matosinhos, tarefa desenvolvida até cerca de 1892.

Pela natureza do seu trabalho, muitas das imagens da Casa Biel foram publicadas numa das mais importantes revistas do século XIX, “O Ocidente”. Não sendo tecnicamente possível então imprimir fotografia, mas gravura, os gravadores utilizavam fotografias como base para abrir as gravuras. Foram assim publicadas as vistas das linhas de caminho-de-ferro, então ainda em construção, que incluía túneis e pontes, como, por exemplo, o “Tunnel do Loureiro e da Murta”, estas entre 1882 a 1885, o que nos permite datar a sua realização. Foram também publicadas imagens do Vale do Douro e tantas outras.

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Emílio Biel, Álbum do Caminho de Ferro do Douro e “Tunnel do Loureiro e da Murta”

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Emílio Biel, “Tunnel do Loureiro e da Murta”, reproduzido como gravura na Revista “O Occidente”, n.º 180, de 21.12.1883.

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Além da já referida revista “Occidente”, foi colaborador fotográfico na revista “Illustração Portugueza” (1884-1890), no semanário “Branco e Negro” (1896-1898) e ainda na revista “Tiro e Sport” (1904-1913).

Biel editou os álbuns dos “Caminhos de Ferro do Douro, Minho e Beira Alta”, que não estão datados. Estes terão sido produzidos para a empresa dos Caminhos de Ferro (recordo-me nos anos de 1980 ver algumas destas imagens em molduras de alumínio com acrílico a decorarem carruagens de comboios inter-regionais e inter-cidades (?) de 2.ª classe, pelo menos) e, com certeza, também, para venda ao público. “Estas vistas representam a visão oitocentista da ideia de progresso técnico, introduzido pelo Fontismo, expressa no comboio, nas obras como pontes, túneis, viadutos e estações.”, como refere Ana Bárbara Matos.

Biel edita o “Album Phototypico de vistas e Costumes do Norte de Portugal”, de cerca de 1900, que inclui com 21 fototipias a sépia; para além de vários álbuns de temática religiosa e tantos outros.

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Emílio Biel, Album Phototypico de vistas e Costumes do Norte de Portugal, c. 1900

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Entretanto, Biel faz sociedade com dois fotógrafos, pelo que a Emílio Biel & C.ª era dividida em duas secções: a secção de indústrias gráficas, que englobava as actividades relativas à fotografia, fototipia e litografia, de que era sócio o fotógrafo Fernando Brutt e a secção de publicações, de que era sócio o fotógrafo José Augusto da Cunha Moraes, para quem Biel já havia impresso “A Affrica Occidental. Álbum Photographico e Descriptivo da Affrica Occidental”, em 1885 e de que era editor David Corazzi, de Lisboa, que é “a primeira grande produção da Casa Biel (Paulo Baptista).

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Anúncio da publicação de “A Arte e a Natureza em Portugal”

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Faz também o levantamento do país, através das suas principais cidades e vilas e da sua monumentalidade, dando origem à publicação “A Arte e a Natureza em Portugal”, que edita em fascículos formando 8 volumes, entre 1902 e 1908. Esta obra, notável pela dimensão e abrangência mostra todo o país. Permite-nos hoje ver como era o país há mais de cem anos e como mudou. A seu tempo, olharemos melhor para esta obra. (Reproduzo centrado na página, dada a extensão do fólio, para melhor visão das imagens, dado que o verso das imagens não é impresso; apenas quando a fototipia vem na sequência do texto, a página imediatamente anterior é impressa a texto).

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Emíllio Biel &Cia, “A Arte e a Natureza em Portugal”, 1902 – 1908

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Outra edição é “O Douro: principaes quintas, navegação, culturas, paisagens e costumes”  de Manuel Monteiro, editada em 1911.

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Manuel Monteiro, O Douro: principaes quintas, navegação, culturas, paisagens e costumes, 1911, Emílio Biel & Cia – Editores (rosto).

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Casa em 14 de setembro de 1880 com Edith Katzenstein (1858-1882), filha de Edouard Katzenstein, banqueiro e cônsul do Império Alemão no Porto, de quem tem uma filha, Else.  Edith faleceria de pneumonia a 17 de outubro de 1882. «Segundo Tomás Moreira, “Tendo estado casado durante escassos dois anos, Biel teve ainda três filhos extra-matrimoniais que legitimou e que sem[pre] viveram consigo: Júlio Emílio Biel, Emílio de Almeida Biel e João Biel.”» (CPF), e que desde 1897, a Júlio, engenheiro ligado a eletricidade e motores  e João, desde 1910, veio a delegar a gestão de parte das suas firmas.

Como se não bastasse esta atividade, que para ele seria apaixonante, para demonstrar a sua personalidade, Emílio Biel teve ao longo de toda a sua vida um espírito empreendedor. Foi o responsável pela construção de uma Central Hidroelétrica no Corgo, Vila Real e instalou a luz eléctrica em Vila Real.

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Emílio Biel, “Cascata no rio Corgo, Villa Real”, em “A Arte e a Natureza em Portugal”.

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Foi administrador da Empresa das Águas do Gerês, concessionário da linha férrea americana, o primeiro elétrico no Porto, que fez a carreira da Praça da Batalha às Devesas (1890?), introduziu a primeira instalação de luz elétrica no Porto, em 1885, tendo eletrificado as primeiras instalações fabris do Porto, as fábricas de moagem de J. H. Andresen, em Gaia e a Fábrica de Tabacos de Miguel, Augusto Fonseca & Cardoso, bem como o seu atelier fotográfico e a sua oficina de litografia a vapor, que assim podiam trabalhar em horário alargado. Também a sua casa, na R. da Alegria tinha luz elétrica. Instalou o primeiro telefone. A par deste interesse pela inovação tecnológica, Biel também se dedicou à horticultura e à floricultura. Foi possuidor de uma coleção de borboletas, que se encontra hoje no Museu de Zoologia da Universidade do Porto, considerada uma das maiores do mundo.

Emílio casou em 14 de setembro de 1880 com Edith Katzenstein (1858-1882), filha de Edouard Katzenstein, banqueiro e cônsul do Império Alemão no Porto, de quem tem uma filha, Else.  Edith faleceria de pneumonia a 17 de outubro de 1882. «Segundo Tomás Moreira, “Tendo estado casado durante escassos dois anos, Biel teve ainda três filhos extra-matrimoniais que legitimou e que sem[pre] viveram consigo: Júlio Emílio Biel, Emílio de Almeida Biel e João Biel.”» (CPF), vindo a elegar a gestão de parte das suas firmas, desde 1897, a Júlio, engenheiro ligado a eletricidade e motores, e ao João, desde 1910.

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Emílio Biel falece a 14 de Setembro de 1915. No ano seguinte, com a entrada de Portugal na Grande Guerra, a colónia alemã foi forçada a abandonar o país em cinco dias e os seus bens foram confiscados. A casa E. Biel & C.ª foi também alvo de confiscação e os seus bens vendidos em hasta pública. Fernando Brutt, embora alemão, tinha nascido em território dinamarquês antes da anexação à Confederação Germânica, arrematou o estabelecimento fotográfico. O espólio da cassa ascendia então a cem mil negativos.

A outra parte, segundo as herdeiras, foi adquirida por compra pela “Companhia Portuguesa Editora, Lda” (sucessora de antigas livrarias do Porto), de José Augusto da Costa. Foram herdeiras de José da Costa, Maria Eugénia Samaritana Pedrosa da Costa Simões e a Margarida Madalena Macedo Costa Soares.

Em 1982, e após negociações com o IPPC (Instituto Português do Património Cultural), as quais foram infrutiferas, a parte que coube a Eugénia da Costa (cerca de 400 chapas, fototipias e outros documentos em papel), foi vendida em leilão, pelas Galerias Vandoma.”,

de acordo com o referido no site do cpf – Centro Português de Fotografia, aqui.

Muitas chapas de vidro (negativos), fototipias e documentos em papel, perderam-se ou foram destruídos, e uma parte dispersa-se por vários colecionadores e arquivos.

Parte do espólio da Emílio Biel & Cª, encontra-se no Arquivo Histórico Municipal do Porto, no Centro Português de Fotografia e noutras instituições.

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Pode conhecer melhor a vida e a obra de Emílio Biel, aqui e aqui.

É fundamental para conhecer Emílio Biel, o estudo, tese de mestrado, de Paulo Artur Ribeiro Baptista, “A Casa Biel e as suas edições fotográficas no Portugal de Oitocentos”, Lisboa: Edições Colibri, 2000; no Fascínio da Fotografia, aqui.

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