FRANCISCO DE HOLANDA: “DO TIRAR POLO NATURAL” A UM OLHAR PELO RETRATO EM PORTUGAL

500/501 anos do nascimento de Francisco de Holanda (Lisboa, 6 de setembro de 1517/1518 (?) – Lisboa, 19 de junho de 1585).

Exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, na R. das Janelas Verdes, em Lisboa, de 29 de junho a 14 de outubro de 2018.

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António Bracons, Francisco de Holanda – Diálogo “do tirar polo natural”, manuscrito em papel (cópia), c. 1825

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Francisco de Holanda nasceu em Lisboa em 6 de setembro de 1517, cidade onde veio a falecer em 19 de junho de 1585. Foi um dos mais importantes vultos do renascimento em Portugal: distinguiu-se como humanista, ensaísta, historiador de arte, arquiteto, escultor, desenhador, iluminador e pintor.

Notabilizou-se ainda como historiador de arte, sendo considerado dos primeiros e maiores críticos da Europa do seu tempo. A sua paixão pelo classicismo reflete-se no seu tratado “Da Pintura Antiga” (1548-1549), que divulga o essencial da obra de Miguel Ângelo e do movimento artístico em Roma na segunda metade do século XVI. Dedicada ao rei D. João III, que lhe concedeu bolsa para estudar naquela cidade, para onde foi em 1538 e por 3 anos, a obra só viria a ser publicada cerca de 3 séculos depois. O manuscrito encontra-se na Real Biblioteca de Madrid.

Escreveu também o primeiro ensaio sobre urbanismo na Península Ibérica: “Da fabrica que falece a cidade de Lisboa”, e livros de desenhos como “De Aetatibus Mundi Imagines”, “Antigualhas” e “Livro de debuxos”, com desenhos das principais praças fortes da Europa e respetiva apreciação.

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De entre os seus escritos, o texto sobre o retrato: “Do tirar polo natural”, foi o mote e o pretexto para a exposição “Do tirar polo natural: inquérito  ao retrato português”, evocativa do 5.º centenário do seu nascimento, que se apresenta no Museu Nacional de Arte Antiga, na R. das Janelas Verdes, em Lisboa, de 29 de junho a 14 de outubro de 2018 (inicialmente até 30 de setembro).

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Esta exposição mostra o retrato português da Idade Média aos nossos dias, procura “refletir sobre o que é um retrato e o que ele pode, de que impulso surge e quais os seus limites.”, referem os comissários Anísio Franco, Filipa Oliveira e Paulo Pires do Vale, acrescentando:

Num tempo de fluxo incessante de produção e circulação de retratos fotográficos e fílmicos, numa sociedade organizada em redor da imagem mas que, paradoxalmente, a destrói, pelo excesso, é fundamental interrogar a vida das imagens e, em particular, qual o papel do retrato na nossa cultura.

(…)

Cruzando obras de épocas muito diferentes, apresentamos o retrato em redor de três categorias paradigmáticas: como dispositivo afetivo, como formador da identidade pessoal e como estratégia do poder. Sabemos, também, à partida, que esta é uma exposição falhada: porque haverá sempre retratos ausentes que poderiam ter sido escolhidos, e porque um retrato transporta sempre algo de falha ao ser constituído por uma ausência.

O retrato é um apelo. Olhamo-lo e somos olhados de volta. Oferece-se e interpela-nos – assim nos deixemos incomodar.”

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Helena Almeida, “Ouve-me”, 1979 – Fernando Lemos, “Alexandre O’Neill / A mesma ideia”, 1949-1952 – João Cutileiro, “Retrato da mãe do artista”, 1964 –  Fernando Lemos, “Reunião Directório”, 1949-1952 – Autor desconhecido, “Retrato de Grupo: António Ramalho, Brak Lamy, Columbano Bordalo Pinheiro, Bettencourt Rodrigues, Raoul Mesnier du Ponsard e Mariano Pina”, 1882 – “Seleção Portuguesa de Futebol de 1966”, “Campeonato Mundial de Futebol de 1966”, edição da Agência Portuguesa de Revistas, 1966 – Fernando Lemos e Carlos Relvas (diversas fotografias) – Julião Sarmento, “Self-portrait (DNA) [Autoretrato (DNA)]”, 2018 – Helena Almeida, “A Casa”, 1979 – Susana Mendes Silva, “Phantasia [Fantasia]”, 2007 – Manuel Botelho, “214. esc-tum” e “215. esc-tum”, 2016-2018 – Jorge Molder, da série “Pinocchio”, 2009 – António Júlio Duarte, “Crânio”, 2009 – Alfredo Cunha, “Revolução de 25 de Abril de 1974”, 1974 – Kiluanji Kia Handa, “Redefining the power III [Redefinir o poder III]” da série “75 com Miguel Prince”, 2011 – Vasco Araújo, “Álbum”, 2008 (instalação) – Fernando Calhau, “Destruição”, 1976 (projeção) – Susana Sousa Dias, “48”, 2010 (projeção) – Helena Almeida, “Ouve-me”, 1979 (átrio)

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Ocupando o espaço das galerias de exposições temporárias, no piso térreo do Museu, esta exposição faz um percurso pelo retrato na arte portuguesa, da Idade Média até à atualidade, com um testemunho da presença romana (no território que é hoje Portugal) .

Pintura, escultura, desenho, cerâmica, vídeo, fotografia, e ‘graffiti’ (“6 de maio”, 2018, parede esculpida em baixo relevo, de Alexandre Farto / Vihls).

O contraponto entre as diferentes representações e técnicas destaca as obras expostas e realça as semelhanças e diferenças resultantes do passar do tempo, nomeadamente na escultura, onde para diferentes técnicas se põe em paralelo os primeiros séculos e o período contemporâneo. São também sublinhados os conceitos que Francisco de Holanda destacou há quase meio século, relativos ao retrato.

Entre as várias peças – a que o fantástico catálogo dá relevo – permito-me aqui realçar a fotografia.

No átrio, acessível a todos, projeta-se Helena Almeida: “Ouve-me”, de 1979, com imagem de Monteiro Gil, que também vimos na exposição “O Outro Casal”, na Fundação Arpad-Szenes Vieira da Silva (aqui), o que mostra a diferente visibilidade e espaço de uma mesma peça.

No interior, logo ao entrar temos Fernando Lemos (“Alexandre O’Neill / A mesma ideia”, 1949-1952) e mais à frente, João Cutileiro (“Retrato da mãe do artista”, 1964). Fernando Lemos regressa com “Reunião Directório”, 1949-1952, na sala mais especialmente dedicada à escultura um conjunto de fotografias suas intercaladas com fotografias de Carlos Relvas.

Junto, de autor desconhecido, “Retrato de Grupo: António Ramalho, Brak Lamy, Columbano Bordalo Pinheiro, Bettencourt Rodrigues, Raoul Mesnier du Ponsard e Mariano Pina”, 1882, ferrotipo e “Seleção Portuguesa de Futebol de 1966”, “256 fotografias coloridas à mão” sob a forma de cromos, da coleção “Campeonato Mundial de Futebol de 1966”, edição da Agência Portuguesa de Revistas, 1966.

Julião Sarmento apresenta uma árvore genealógica, “Self-portrait (DNA) [Autoretrato (DNA)]”, de 2018.

Num triângulo, a “Cabeça de Homem”, de Domingos Sequeira, “A Casa”, 1979, de Helena Almeida e “Mulher-Cão”, de Paula Rego, 1994: olhares e expressões semelhantes em diferentes técnicas e tempos. Próximo, “Phantasia [Fantasia]”, 2007, de Susana Mendes Silva, uma sequência de 8 imagens.

Na última sala do primeiro núcleo, Manuel Botelho apresenta duas imagens de retratos tumulares, através dos túmulos: “214. esc-tum” e “215. esc-tum”,  de 2016-2018 e na parede de fundo, 3 fotografias de Jorge Molder, da série “Pinocchio”, 2009: auto-representação como máscara de cera, máscara funerária.

No segundo núcleo, onde se cruza o retrato com o poder, a primeira fotografia é de continuidade com aquela série: António Júlio Duarte: “Crânio”, 2009. Uma imagem que tem como base a radiografia: os ossos, recordando que, mais tarde ou mais cedo, todos morremos. Duas imagens de Alfredo Cunha da “Revolução de 25 de Abril de 1974”, 1974, mostram a retirada dos retratos de Marcelo Caetano, ex-presidente do Conselho e de Salazar: o retrato como afirmação, honra, poder. Três fotografias de Kiluanji Kia Handa, “Redefining the power III [Redefinir o poder III]” da série “75 com Miguel Prince”, 2011.

Vasco Araújo apresenta “Álbum”, 2008, uma instalação composta de uma mesa onde estão embutidos 13 álbuns de fotografia. Sem fotografias. As fotografias que tiveram foram retiradas. Fica assim uma ausência de memória.

Integram-se ainda 2 filmes: “Destruição”, 1976, de Fernando Calhau, ocupando a sua projeção a parede de fundo da sala e na sala adjacente, num pequeno ecrã, projeta-se “48”, 2010, de Susana Sousa Dias.

Saímos para o átrio. Ao fundo Helena Almeida apela: “Ouve-me”.

A essência do retrato.

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Esta exposição confronta o retrato nas diferentes formas, através dos tempos, por diferentes olhares. Não parece haver, na essência, uma grande diferença: o retrato mostra o homem e a mulher. O poder. E a pessoa comum.

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António Bracons, Aspeto da exposição (referências ao texto de Francisco de Holanda) – Alexandre Farto / Vihls, “6 de maio”, 2018 – Escultura (paralelismo entre materiais e épocas), 2018

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O diálogo “do tirar polo natural”, transcrito por Monsenhor Gordo em 1790 (fls 184 a 212 v; Academia de Ciência de Lisboa, ms. Azul 650), presente na exposição, pode ser lido em anexo à tese de doutoramento de Raphael Fonseca: «Francisco de Holanda: “Do tirar polo natural” e a retratística», págs. 155 a 184, aqui.

A tese de doutoramento de Teresa Lousa, “Francisco de Holanda e a ascensão do pintor”, Faculdade de belas Artes da Universidade de Lisboa, 2013, pode ser consultada aqui.

O estudo de José Stichini Vilela, “Francisco de Holanda, Vida, Pensamento e Obra”, Lisboa, 1982, pode ser lido aqui.

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Pode ler o texto do Dr. José Souto Moura na revista Brotéria (08.09.2018) sobre esta exposição aqui.

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