VARELA PÈCURTO, COIMBRA VISTA POR MIGUEL TORGA, 1991

111 anos do nascimento de Miguel Torga, Adolfo Correia da Rocha (São Martinho de Anta, Sabrosa, Vila Real, 12 de agosto de 1907 — Coimbra, 17 de janeiro de 1995)

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Varela Pècurto

Coimbra Vista por Miguel Torga

Fotografia: Varela Pècurto / Texto: Tomaz Ribas

Coimbra: INATEL – Delegação de Coimbra / Março . 1991

Português / 16,1 x 23,0 cm / 52 p., não numeradas

Brochura / 1.000 ex.

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De todos os cilícios, um, apenas,

Me foi grato sofrer:

Cinquenta anos de desassossego

A ver correr,

Serenas,

As águas do Mondego.”

Miguel Torga

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Coimbra é uma cidade pela qual tenho um carinho especial. Lá estudei e quando se é estudante de Coimbra, isso marca de forma especial. Pelo menos, no tempo em que eu andei em Coimbra: ainda se construía a A1, ao tempo quase nenhum estudante tinha carro e, portanto, vinha-se a casa de família poucas vezes por semestre. O tempo de aulas e os fins-de-semana eram passados na cidade, as pessoas encontravam-se – pela mesma origem, ou amigos, ou porque ligados a algum associativismo, na Associação Académica ou noutro espaço ou instituição.

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Nesse tempo, o otorrinolaringologista – “Médico Especialista Ouvidos Nariz e Garganta” – Adolfo Correia da Rocha, tinha o seu consultório no 1.º andar do antigo edifício do Largo da Portagem que contornava para a Couraça da Estrela, uma janela quase ao canto, que dava para o Largo, para a estátua de António José de Almeida e para o Mondego. Daria ainda uma ou outra consulta, mas o escritor, mais que o médico, era quem ocupava o consultório: aí escrevia, recebia amigos ou quem o quisesse encontrar, recebia a correspondência… Era o consultório de Miguel Torga.

Escreve Tomaz Ribas nesta obra:

(…) vêm-me à memória as quantas vezes em que, ao passar no Largo da Portagem, o via estático e sonhador, o olhar distante, na janela do seu consultório. Realizaria dentro de si aquilo que num dos seus romances [Portugal] o levou a escrever: “À direita, a fachada lívida do Banco de Portugal, com o relógio no topo a marcar as horas sonolentas; à esquerda, a velha ponte de ferro a transpor a fita branca do areal por onde o Mondego serpeava minguado e preguiçoso; em frente, a verde perspetiva do horizonte rural, pasto bucólico de imaginação…”

(…)

Porque desde sempre a amou, Coimbra – e a sua tão lírica e bucólica região – tem sido para Miguel Torga quase uma paixão; ama-a porque a descobriu em todos os seus aspetos, porque a tem vivido e sentido. Coimbra – poderíamos dizer – é para Miguel Torga, em muitos aspetos, o brasão de Portugal e das gentes portuguesas. No seu impressionante livro “Portugal” – obra fundamental para o ‘entendimento’ do nosso País – Torga testemunha (…) “Coimbra é uma linda cidade, cheia de significação nacional. Bem talhada, vistosa, favoravelmente colocada entre Lisboa e o Porto (…)

Mais do que razões sociais, foram razões geográficas que a fadaram. Uma terra de suaves colinas, de verdes campos, banhada por um rio plano, sem cachões, a meio de Portugal, tinha necessariamente de ser a cidade espiritual, universitária, da pequena pátria lusa. Também a nossa alma é de suaves relevos, de frescas paisagens, e banhada por uma corrente doce de amor e conciliação. Nenhuma outra terra como Coimbra testemunha tão completamente, na sua pobreza arquitetónica, na sua graça feita de remendos e pitoresco, nos seus recantos sujos e secretos, os limites da nossa capacidade criadora, a solidão da nossa alma, e o camponês com que nascemos para tirar efeitos cénicos do próprio gosto de erguer uma videira.”

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Miguel Torga: Miguel, de Cervantes e Unamuno; torga, a planta rasteira e resistente que cresce entre as rochas no seu Trás-os-Montes. Gosto da sua escrita. Humana. Terra-a-terra. Conhecedor profundo do âmago do país e das suas gentes. O Portugal! E os seus Diários! E a Criação do Mundo! E… quantos outros!

Conheci Torga numa boleia com o Padre Valentim, então diretor da já extinta Gráfica de Coimbra, onde Torga imprimia os seus livros, em edições de autor, sempre em edições de autor: miolo dobrado mas não guilhotinado, capa em cartolina branca impressa tipograficamente, sem imagens, sempre o mesmo grafismo, sóbrio, humilde, perfeito.

Ia eu imprimir o meu primeiro portfólio, a Gráfica ficava na Palheira, a uns 5 Km, e os transportes da cidade para lá não eram muitos, o Padre Valentim disponibilizava-se com simpatia para a boleia.

Recordo-me de Torga, grande, um pouco encurvado, o rosto e a voz serena. Chamou-me a atenção os pés: as botas pretas, grandes, de um homem com bases sólidas, bem ligado à terra. O seu andar desempenado, apesar de ter mais de 80 anos – estávamos em janeiro ou fevereiro de 1990 – seguro, confiante. Trazia na mão um livro relativamente estreito para a altura que tinha. Havia-o recebido na véspera. Era, se não me falha a memória, uma edição checoslovaca de “A Criação do Mundo” (?).

– É a melhor editora que eles lá têm. – explicou.

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Saindo do consultório de Torga e virando à direita, a dois passos, ficava a Hilda, ainda em pleno Largo da Portagem, a casa de fotografia fundada no início dos anos 1950, do fotógrafo Varela Pècurto (inicialmente com outros sócios; encerrou na década de 2000), um dos fotógrafos que mais registou a cidade de Coimbra – e toda a Região Centro – ao longo de mais de 50 anos, na sua paisagem, pessoas, vida do dia-a-dia.

Pècurto é também um homem simples, humano, amável. Fotografou também, como não podia deixar de ser, Miguel Torga.

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Algumas das suas fotografias do autor e da cidade estão reunidas neste pequeno livro, escolhidas pelo escritor em colaboração com o fotógrafo, a par de trechos da obra de Torga. Estão retratos do escritor, vistas no seu e desde o seu consultório, a cidade, imagens mais antigas do Mondego, no tempo em que era percorrido pelas barcas serranas e em que noras tiravam a água para irrigar os campos, que Torga presenciou… A quase totalidade das vinte imagens é de Coimbra, a última, de Lisboa.

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Varela Pècurto, Coimbra Vista por Miguel Torga, 1991

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Este livrinho foi editado por ocasião da exposição homónima – da qual é como que o catálogo – que esteve patente no Teatro da Trindade, ao Chiado, em Lisboa, em Março / Abril (?) de 1991, organizada pela Delegação de Coimbra do INATEL, prevendo-se então que a exposição viria a ter itinerância (desconheço se foi mostrada noutros espaços).

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