ADRIANO MIRANDA, “A FOTOGRAFIA COM ASAS”

Prémio Gazeta de Fotografia 2017 do Clube dos Jornalistas.

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No passado dia 19 de junho foram atribuídos os Prémios Gazeta 2017, pelo Clube dos Jornalistas.

Adriano Miranda foi distinguido com o Prémio Gazeta de Fotografia pelo retrato de Manuel Francisco, que foi publicado na primeira página do jornal PÚBLICO, de 17 de Outubro de 2017, e “que se tornou num dos símbolos das populações atingidas pelos incêndios florestais” daquela ano.

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Adriano Miranda

Adriano Miranda, Manuel Francisco, Covelo, freguesia de Ventosa, concelho de Vouzela, 15.10.2017

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A fotografia, na simplicidade do olhar e da expressão, perdido na tragédia de um incêndio que tudo devastou (casa, animais, amigos), revela o Homem na sua essência e a humanidade do olhar de Adriano Miranda.

Recordou a Liliana Borges do seu jornal, o PÚBLICO,

o momento em que a imagem foi registada no lugar de Covelo, freguesia de Ventosa, concelho de Vouzela. “Saímos do carro e vejo o senhor Francisco no meio do fumo, com o seu cajado, com um ar muito perdido”, disse. Manuel Francisco procurava ali um dos amigos, dado como desaparecido e que acabaria por ser encontrado carbonizado no interior de casa dele.

“Olhei para aquela figura e meti conversa com ele. Recordo-me perfeitamente que ia fazer 82 anos no dia seguinte. E perguntei-lhe se o podia fotografar. Ele disse-me muito admirado: ‘Eu? A mim? Mas eu sou tão feio.’ Nunca mais me esqueci desta frase. ‘Não é nada feio’, respondi-lhe logo. E ele lá se colocou imediatamente naquela pose. Não lhe disse nada, não lhe dei orientação nenhuma. E eu fiz umas cinco ou seis fotografias. Quando estava a editar liguei para o jornal e disse ‘escolham a que entenderem, mas eu apostava nesta fotografia’. No outro dia, o telefone não parou de tocar.”

“O enquadramento era banalíssimo. É a substância da fotografia. O ar de abandono, de exclusão, o retrato do Portugal pobre e rural. O cajado, as mãos. Vemos tudo”, interpreta Adriano Miranda. “E depois há também o próprio olhar dele, que é essencial. Não olha directamente para a câmara. Está a olhar para o vazio. Está a olhar o horizonte.”

A imagem correu o país e o mundo. Manuel Francisco tornou-se ali um ícone da tragédia de 15 de Outubro. Foi mostrada numa faculdade de jornalismo londrina e gerou uma onda de solidariedade às vítimas daquela localidade. Curiosamente, todos viram a fotografia menos o próprio Manuel Francisco. Seria só pelo Natal que, quando Adriano Miranda regressou a Ventosa, acompanhado pela mulher e filhos, voltou a encontrar Francisco e lhe ofereceu a edição do PÚBLICO de dia 17 de Outubro de 2017.

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Publico-171017

Jornal PÚBLICO, de 17 de Outubro de 2017, primeira página.

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Esta é a história de uma fotografia, que é (sobre) a história de um homem. Li-a depois de ler a crónica que Adriano Miranda publicou no dia 20, no jornal PÚBLICO: “A fotografia com asas”. Um texto profundamente humano, como a fotografia de Adriano Miranda (estou-me a repetir), Fala desta fotografia do senhor Francisco, mas mais que dela, fala da sua fotografia, fala da fotografia. Do importante papel da fotografia e do fotojornalismo: de  ajudar a mudar o mundo.

Uma  crónica de profunda humanidade, escrito com o coração e de consciência plena. Senti-a assim. Depois de a ler, pedi ao Adriano se podia partilhá-lo neste espaço. Disse-me de imediato: “Claro que sim”.

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A fotografia com asas

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Ensinaram-me a mudar o mundo. A ajudar a mudar o mundo. A fotografia, o fotojornalismo tem também essa função.

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Sozinho. Perdido. Francisco olhava no vazio. A noite tinha sido de luta e de medo. O monstro poupou-lhe a vida. Bailou numa dança frenética e Francisco rezou fechado em casa. Ali estava agora. Na pequena praça com o chafariz esgotado de água. Tudo era cinza. Tudo era caos. Francisco, apoiado no seu cajado, procurava o amigo desaparecido. A má notícia chegaria mais tarde. O amigo morreu.

Eu falei com Francisco. Dei-lhe ânimo. Ele retribuiu com o seu olhar puro. Agradeci as fotografias que lhe fiz. Fiz-me à estrada à procura da tristeza. Sabia que levava Francisco comigo na caixa negra. Não sabia é que o levava para toda a vida. Francisco imortalizou-se.

Quando ontem pela tarde recebi a notícia que tinha ganho o Prémio Gazeta fiquei com suores frios. Ia na rua e apetecia-me gritar. Fiquei feliz. Felicidade só comparável ao  nascimento dos meus dois filhos. Desatei a enviar mensagens para os que mais gosto. Falharam alguns. Mas eles sabem o que esperam de mim. Fotografar é como respirar. Um dia deixarei de o fazer. Fotografar e respirar. Gostava que as fotografias que faço não fossem guardadas em arquivos bolorentos. Fossem lançadas ao mar, plantadas na terra, penduradas em árvores e que dessem frutos. São esses frutos que eu secretamente persigo ao fotografar. Frutos de felicidade e dignidade. Frutos solidários de luta pelos mais pobres, pelos descartáveis deste mundo. Ensinaram-me a mudar o mundo. A ajudar a mudar o mundo. A fotografia, o fotojornalismo tem também essa função. Também. É nisso que acredito.

Este prémio não é meu. É de todos nós que acreditamos e fazemos. Obrigado Francisco. Obrigado a todos os camaradas de viagem. Jornalistas de primeira água. Estou feliz e pronto para continuar a lutar.

E enquanto existirem “xerifes deste mundo” que colocam crianças em jaulas, indiferentes aos seus lamentos, fotografarei sempre. Com asas. Com liberdade.

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Para ti Lucília.”

Adriano Miranda dedica a crónica a Lucília Santos (1946? – 19.06.2018), fundadora e adjunta de direção do jornal PÚBLICO.

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Pode ler no jornal Público: a Crónica de Adriano Miranda, aqui; a notícia Prémios Gazeta 2017, aqui.

 

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