NUNO MOREIRA, SHE LOOKS INTO ME, 2018

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Nuno Moreira

She looks into me

Fotografia: Nuno Moreira / Prefácio: M. F. Sullivan / Posfácio: Jesse Freeman / Texto: Adolfo Luxúria Canibal

Lisboa: Autor / Janeiro . 2018

Português e inglês / 22,0 x 28,0 cm / 84 págs., não numeradas

Brochura / Em caderno separado, de 12 págs., o texto de Adolfo Luxúria Canibal, em português e inglês (restantes textos apenas em inglês) / 200 ex.

ISBN: 9789892080932

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Nuno_Moreira_She_Looks_Into_Me-2018 (1)

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She looks into me

The unknowing heart

To see if I love

She has confidence she forgets

Under the clouds of her eyelids

Her head falls asleep in my hands

Where are we

Together inseparable

Alive alive

He alive she alive

And my head rolls through her dreams.

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Ela olha para mim

O coração desconhecido

Para ver se eu amo

Ela tem confiança que ela esquece

Sob as nuvens das suas pálpebras

A cabeça fica adormecida nas minhas mãos

Onde estamos

Juntos inseparáveis

Viva vivo

Ele está vivo, ela está viva

E a minha cabeça passa pelos seus sonhos.

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Paul Éluard

(Tradução livre de António Bracons)

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Silêncio.

O silêncio domina as imagens, as fotografias, os rostos, os gestos.

O amor não precisa de palavras.

Ela olha para mim,

Ser [Being]

Ela é, eu sou,

Desconhecidos ou não,

Espera, aguarda, acolhe,

Um gesto, um carinho,

Um abraço.

Tornar-se [Becoming]

Dar-se, acolher,

Acarinhar, cuidar,

Estar simplesmente, em silêncio, com o outro,

Em comunhão,

Não são precisas palavras.

Inconveniente [Unbecoming]

O silêncio isolado,

Sózinha, sozinho,

Lado a lado, sem nada para dizer,

Frente ao vazio,

Frente à morte,

Em silêncio.

A minha cabeça passa pelos seus sonhos.

Restam umas flores tristes.

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“She looks into me” [Ela olha para mim], um livro que se debruça sobre as relações entre as pessoas, com a ideia de tragédia e de relações humanas, “A forma como o pensamento filosófico ocidental está tão dependente da tragédia como gancho justificativo para o desencadear de acções.”, refere.

O livro abre logo na primeira página com um poema de Paul Éluard, “She looks into me”, que resume em palavras o poema fotográfico que se segue. Este é dividido em três partes, após um prefácio (de texto e fotográfico): I – Being [Ser], II – Becoming [Tornar-se], III – Unbecoming [Inconveniente], meticulosamente elaborado nas formas patentes nas imagens e na sequência e dimensão das mesmas.

Um livro sobre as pessoas, as relações, o silêncio: “a procura do silêncio, a comoção do silêncio.” (ALC).

Os textos são também primorosos na leitura que fazem da obra: quer o prefácio de M.F. Sullivan, quer o posfácio de Jesse Freeman. Em separado, num pequeno caderno, o texto de Adolfo Luxúria Canibal, é como um conto, um romance, não fosse a sua reduzida dimensão. É o único texto que se regista também em português.

“Num gesto lento, muito lento, como quem aproxima os contornos à imagem, procurando não perder a forma nem a essência, ela encara-me e olha para mim”, escreve Adolfo Luxúria Canibal. O modo como ela olha é o modo como devemos ler este livro.

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Sobre ele, diz-nos o Autor:

O que é trágico também é maravilhoso porque nos permite avançar.

“She Looks into Me” é uma série de imagens íntimas que possuem uma profunda reverência por um tempo antigo, quando o mistério da vida e o mistério da morte estavam intimamente relacionados.

Concebido de uma maneira próxima ao teatro, este livro explora a ideia de que a representação humana – com todas as suas limitações inerentes – pode evocar mais do que o que realmente é retratado na sua frente.

Olhar algo é inegavelmente muito diferente de olhar para algo e esta é a génese desse novo trabalho que empresta o título de um poema do poeta surrealista Paul Éluard.

A partir de uma necessidade de simplificação de forma / conteúdo, o autor leva o leitor a uma relação de consciência entre cada imagem coreografada para abordar uma esfera do imaterial e através de nuances subtis e evocativas, fala sobre aspetos simbólicos da psique humana e sobre como nos relacionamos nalgum momento das nossas vidas.”

 

 

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Nuno Moreira, She looks into me, 2018

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Do ponto de vista estético, as imagens de “She Look into me” estão próximas do universo do seu anterior livro, “ZONA” (pode ver aqui), mas foram criadas de modo completamente diferente: “ZONA” foi fotografado num dia, numa sala, com um modelo; “She looks into me”, foi pensado ao longo de dois anos, fotografado num ano, com atores, em estúdio. A análise dos resultados permitiu ajustar, construir, como se se tratasse do ensaio de uma peça. Seguindo um guião que elaborou, foi encenando e registando, até encontrar o que melhor servia a narrativa.

Nuno Moreira partilhou com o Fascínio da Fotografia este processo.

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Um processo, motivações

Após a conclusão de Zona (foi publicado no final de 2015), pouco tempo depois de voltar do Japão, no verão de 2015, Nuno Moreira começou a trabalhar nesta série.

A verdade seja dita, parece difícil identificar uma origem exata para esta nova série, porque não há uma. As coisas apenas se desenvolvem e crescem a partir de um depósito de ideias maturadas, emoções e formas digeridas… As coisas que me ajudam a encontrar âncoras são, na maior parte dos casos, o trabalho real que eu continuo a fazer diariamente, e isso é de uma natureza mais gráfica, com fotomontagem, design e desenho.

Pode parecer disjunto, mas para mim o espaço para interpretar a minha fotografia-trabalho vem de uma origem bastante abstrata: escrita e colagem.
(…)

É uma prática não-verbal de articulação de conceitos internos e colocá-los no papel bem em frente aos meus olhos, o que funciona muito bem para mim.”

Para Moreira, “menos é mais, e essas restrições empurram o trabalho para diferentes níveis de interpretação (a maior parte das vezes).”, pelo que sente-se “mais confortável trabalhando em espaços fechados – como o estúdio”.

O projeto foi-se definindo, fazendo “eco de algum tipo de verdade interior”, nos “ciclos em que todos nós vivemos – seja em termos de história que se repita, ou relacionamentos que caem nos mesmos padrões – outro aspeto que eu desejei explorar com esta nova série.”

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Sobre ensaios e trabalhos de estúdio

Continua Moreira:

“Tive a sorte de encontrar Mafalda B. – o ator principal desta série – enquanto trabalhava numa outra peça de teatro em Lisboa. Ela é uma jovem atriz que entendeu, sem esforço, as nuances do meu trabalho e teve um equilíbrio perfeito entre “estar presente” e “estar longe” ao mesmo tempo.

Para estas imagens, eu estava a procurar uma qualidade visual que vai buscar as influências da escultura (em termos de pose) e da tragédia grega (em termos narrativos), uma espécie de distância emocional que, ao mesmo tempo, é muito concreta e humana. Uma espécie de “movimento interrompido”. Um momento, “o que acontece entre as ações”.

Nem todos os artistas têm um certo peso e uma atmosfera lânguida para a sua presença, mas, felizmente, com a Mafalda senti que era algo natural.

Eu dava-lhe pequenas instruções e, depois de alguns segundos, encontrando o personagem que estaríamos “lá”, nessa zona, muito rapidamente, para começar a trabalhar e a ajustar a cena.

Obviamente, ter conhecimento de teatro dramático e poder discutir o niilismo de Artaud, o romantismo de Virginia Woolf, o absurdo de Camus ou o drama nos filmes de Bergman é certamente uma grande vantagem e facilita o diálogo!”

O modo de fotografar foi um novo processo,

“muito diferente de tudo o que já fiz no passado, porque havia um tempo deliberado entre cada sessão.”

“Desta vez, desejei fazer as coisas de maneira diferente. Construí um estúdio a partir do zero e depois de começar os ensaios e fazer testes, [entre sessões de fotografia] faríamos pausas de uma ou duas semanas e continuávamos de onde saíamos.

De vez em quando eu veria os negativos e fazia ajustes em termos de direção. Mais tensão, menos luz, ângulos diferentes, etc.” (…)

Tive tempo para pensar cuidadosamente sobre o que fotografar em cada dia, o que os atores trazem, e isso levou a uma abordagem geral diferente com as coisas sendo tomadas a um ritmo diferente e com uma vibração diferente todos os dias (…)”

Trabalhar nesse tipo de ritmo lento deu tempo para o trabalho respirar e deu-me espaço para entender como os resultados podem ditar o caminho. Eu respondi para onde as imagens estavam a levar-me… Apenas seguindo os sinais e respeitando a atmosfera do que se estava a formar e materializar na minha frente.”

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Sobre o título

Sobre o título, Moreira encontrou-o por sorte num poema de Paul Éluard. Sabia que iria buscar o título a uma linha de um poema. Num domingo, sentado no escritório, deparou com o texto e sentiu que era este.

Não essas palavras, mas o que está acontecendo entre essas palavras. O poema é breve, lírico e muito evocativo.

Não está muito longe, tem espaço suficiente para a imaginação, para a primavera… Encaixa-se perfeitamente nas imagens. (…)

Além disso, faz uso de opções gramaticais que eu associo muito com a maneira como me aproximei a essas séries. O verso poderia ser: “Ela olha-me” [She looks AT me], mas é “Ela olha para mim” [She looks INTO me].

E essa escolha de palavras faz toda a diferença no mundo.”

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Sobre a edição e a publicação

Na verdade, para Nuno Moreira, só com o tempo e com o processo de edição, o projeto ganha coesão: “Ver as mesmas imagens uma e outra vez em diferentes escalas e com uma sequência diferente realmente muda a perceção inicial.” Por outro lado, escutar outras opiniões é importante para o processo, seja para as acarinhar ou recusar.

“Quando comecei a editar SHE LOOKS INTO ME, senti imediatamente que havia uma estrutura muito circular e dramática para essas imagens (novamente: uma reminiscência da tragédia / mitologia grega) e, embora um ciclo possa ser feito em muitas direções, eu sempre vi como um fluxo visual de consciência que não é lógica, mas depende de mecanismos subtis que recompensam o leitor atento.

A fotografia, pelo menos para mim, não é apenas sobre fotografia, é mais sobre a criação de um espaço de racionalidade e narrativas lineares. Eu sinto mais gratificante deixar que as interpretações sejam livres e é por isso que eu recebo e-mails de leitores dizendo que gostam de voltar aos meus livros de vez em quando, porque eles mudam e, naturalmente, o livro também…”

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Para conhecer melhor o trabalho de Nuno Moreira ou comprar o livro, aqui.

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