AUGUSTO BRÁZIO, NA PENUMBRA

Exposição na Galeria das Salgadeiras, na Rua da Atalaia, 12 a 16, em Lisboa, de 25.11.2017 a 27.1.2018.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2018

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No sábado, dia 27, foi a finissage da exposição “Na Penumbra”, de Augusto Brázio, na Galeria das Salgadeiras, na Rua da Atalaia, 12 a 16, em Lisboa, integrada nos Dias do Desassossego 2017, uma iniciativa da Casa Fernando Pessoa e da Fundação José Saramago.

Não tendo ainda visitado a exposição, esta foi a oportunidade.

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“Na penumbra” é um “diálogo (possível) com António Osório e Fernando Pessoa, o desassossego de ambos pelo olhar” de Brázio. “Paisagens, lugares, memórias onde se adivinha a presença humana e reina um certo mistério seja num registo mais visual e cinematográfico, ou de forma mais bucólica e etérea.”

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António Bracons, Augusto Brázio, 2018

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Sobre a exposição escreve Ana Matos, na folha de sala:

Dizia Constable sobre as obras de William Turner que estas eram como “visões etéreas, pintadas com vapor colorido”, o que, à época, não teria sido completamente lisonjeador, dadas as suas diferenças artísticas. Ambos, no entanto, ficaram conhecidos como símbolos do Romantismo, cujas idiossincrasias muito sinto presentes em “Na penumbra” de Augusto Brázio, não só pela sua ligação à literatura, como na invocação da Natureza enquanto assunto central da obra de arte. Augusto Brázio parte da poesia de António Osório e de Fernando Pessoa e deixase desassossegar por ambos nestas suas deambulações pela natureza.

 

“Veleidade, reter avencas, / azáleas, os cactos guerreiros e o mais, / cordame de feitiços.

Ninguém possui a natureza. / Ninguém a comanda / nem entranha ou abriga.

A sua é explosiva casa / de linhagens; o mundo, estufim de Deus, / absoluta ciência e olvidos, / sua escassez.”

— Estufim, de António Osório

 

Nesta exposição encontramos paisagens, lugares, memórias onde se adivinha a presença humana e reina um certo mistério seja num registo mais visual e cinematográfico, ou mais bucólico e etéreo. Um registo “flaneur”, de “homoviator”, muito característico da obra de Augusto Brázio e que aqui se cruza com a errância de dois grandes poetas da nossa cultura, em atmosferas pitorescas, no sentido romântico da palavra, ainda com, pontualmente, imagens que remetem para uma narrativa mais voyeurista. “Na penumbra” coloca-nos como espectadores desta viagem de Augusto Brázio, convida-nos a ver o que se mostra e a descobrir o que se enconde, e a incorporar essa descoberta nos nossos mais íntimos lugares.

 

“Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma”.

— Livro do Desassossego, Bernardo Soares.

 

Regresso a Turner, o pintor da luz, o “virtuoso do Sublime”, para, com a consciência de outros contextos e formalidades, partilhar esta interrogação, sempre tão subjacente no Livro do Desassossego. Diz-se, na crítica artística, que a palavra “pathos” se utiliza para nos referirmos à íntima emoção presente numa obra de arte que acorda outra similar em quem a contempla. Que “pathos é este que Augusto Brázio nos convoca nesta penumbra? Que vemos nós quando contemplamos o “lago mudo” de Fernando Pessoa?

 

“Contemplo o lago mudo / Que uma brisa estremece. / Não sei se penso em tudo / Ou se tudo me esquece.”

— Contemplo o lado mudo, de Fernando Pessoa.

 

Em jeito de resposta, diria que nos faz falta o silêncio, e que, porventura, o poderemos encontrar nesta passagem da luz para a sombra.

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