GORDON MATTA-CLARK, SPLITTING, CUTTING, WRITING, DRAWING, EATING…, 2017

Exposição de 14 de outubro de 2017 a 7 de janeiro de 2018, na Culturgest, em Lisboa.

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Gordon Matta-Clark

Splitting, Cutting, Writing, Drawing, Eating…

Fotografia: Gordon Matta-Clark / Texto: João Ribas, Delfim Sardo

Lisboa: Culturgest / 2017

Português e inglês / 18,0 x 25,0 cm / 220 p.

Brochura

ISBN: 9789727691104

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Este livro foi editado por ocasião da exposição “Splitting, Cutting, Writing, Drawing, Eating…” (Dividindo, cortando, escrevendo, desenhando, comendo…), sobre a obra de Gordon Matta-Clark, um dos artistas mais importantes da década de 1970, cuja obra continua a influenciar significativamente arquitetos e artistas plásticos, exposta na Fundação de Serralves, no Porto, de 5 de maio a 3 de setembro de 2017 e na Culturgest, em Lisboa, de 14 de outubro de 2017 a 7 de janeiro de 2018.

A exposição e o livro correspondente debruçam-se “sobre os aspetos gestuais, formais e sociais da conceção de arquitetura de Matta-Clark, ou nas suas palavras, de “fazer espaço sem o construir.” (…) explorar o singular sentido de Matta-Clark “dos vazios metafóricos, lacunas, espaços  abandonados, lugares que não foram construídos.” A apresentação (…) está concebida à volta de uma série de verbos construtivos e destrutivos que definem a conceção do arquitetural do artista: cortar, separar, inclinar, partir, escrever, construir, desenhar, etc.”

A exposição apresenta alguns dos mais significativos projetos desenvolvidos por este arquiteto nova-iorquino, nomeadamente em edifícios – como Splitting ou Cutting – em que intervém em edifícios devolutos prestes a ser demolidos, cortando literalmente de alto a baixo e horizontalmente, fazendo rodar uma parte relativamente ao restante, quer abrindo determinadas formas nos edifícios: como se um cone recortasse parte do edifício, por exemplo, ou retirando como que uma “fatia” em “toda” a altura. Estas intervenções são devidamente estudadas e elaboradas, antes de aplicadas “à obra”.

A obra resultante, efémera, permanece até à demolição do edifício, fica registada nos estudos, fotografias e filmes feitos – que são apresentados na exposição, bem como algumas publicações que reproduziram as intervenções.

Em “Eating”, o filme realizado foi filmado por Robert Frank.

O livro editado reproduz estudos, esboços e fotografias, do Gordon Matta-Clark Archive no Centro Canadiano de Arquitetura (CCA), bem como algumas peças da coleção da Fundação de Serralves.

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Gordon Matta-Clark, Bronx Doors, Bronx Floors, 1973. Prova de gelatina e sais de prata Gelatin silver print. Col. Coll. Fundação de Serralves — Museu de Arte Contemporânea, Porto. Aquisição em Acquisition 1998.

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Na folha de sala, escreve Delfim Sardo (as fotografias não integram a folha de sala):

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Gordon Matta-Clark (Nova Iorque, 1943-1978) foi um dos mais marcantes artistas norte-americanos da sua geração, apesar da sua curta carreira. Arquiteto de formação com estudos realizados em Cornell (onde foi colega de Dan Graham) desenvolveu uma obra complexa, na qual a relação com o espaço urbano e o ativismo social se cruzam.

Utilizando os mais diversos processos, desde a escultura à intervenção direta em edifícios devolutos, o desenho, a performance no espaço público, Gordon Matta-Clark é um artista que não se deixa espartilhar em classificações ou tipologias, facto a que não é alheia a sua origem: filho do artista chileno Roberto Matta e da artista norte-americana Anne Clark, com formação francófona e longas permanências na Europa, sempre lhe foi inerente o cruzamento cultural.

Das suas intervenções em edifícios e espaços abandonados que convertia em esculturas à escala da cidade, não resta nenhum exemplo, vivendo somente nos registos fotográficos e fílmicos que foi realizando, bem como nos desenhos de projeto, anotações e correspondência. A sua influência, pela forma como desenvolveu uma crítica arquitetónica ligada à prática artística é, no entanto, muito maior do que o legado físico da sua obra e só pode ser compreendida através do material autobiográfico cruzado com as obras de arte, numa réplica da sua forma voluntariosa, lúdica e orgânica de entender a arte.

A presente exposição, resultado da colaboração entre a Culturgest e a Fundação de Serralves, apresenta extensa documentação sobre a obra de Gordon Matta-Clark a partir do arquivo do Centro Canadiano de Arquitetura, em Montreal, onde se encontra o espólio do artista, aí depositado pela sua viúva, Jane Crawford.

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Iniciando com a memória do restaurante Food, que o artista concebeu e dinamizou em Nova Iorque em 1971 como um projeto artístico comunitário, a exposição percorre alguns dos seus projetos mais emblemáticos como Splitting (1974), Conical Intersect (1975) e Office Baroque (1977), terminando com A W-Hole House, projeto extensamente documentado realizado em Génova, em 1973. Para além do arquivo oriundo do CCA, a exposição reúne filmes do artista e trabalhos fotográficos pertencentes à Coleção de Serralves, bem como desenhos gentilmente cedidos pela Fundação Helga de Alvear e fotografias da Coleção Teixeira de Freitas.

A obra de Matta-Clark é aqui apresentada como uma sucessão de ações sobre o mundo (separar, cortar, escrever, desenhar, comer) expressas nos diversos suportes que o artista utilizou. A exposição mergulha nos textos, cadernos de anotações, desenhos, filmes e fotografias de Gordon Matta-Clark para desatar a complexa meada do seu legado, no qual a arte, a arquitetura e um prazer omnívoro pela vida se entrelaçam.

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O Restaurante Food

O Soho de Nova Iorque era, no início da década de 1970, uma zona da cidade quase abandonada e objeto de uma política de realojamento de artistas promovida pelo município. É também o dealbar do processo de gentrificação que se verificaria nos anos seguintes. A comunidade artística do Soho necessitava de lugares onde se reunir e o Restaurante Food, ocupando um antigo restaurante devoluto, foi, durante um breve período de tempo, um lugar de encontro da comunidade artística, revelador também da importância da alimentação, quer em sentido literal, quer metafórico, na obra de Gordon Matta-Clark. Para além do sentido comunitário e participativo – o Food foi pioneiro na democraticidade de ter a cozinha aberta e de convidar artistas para cozinhar e partilhar –, trata-se de um projeto performativo, no seguimento de outras ações coletivas que Matta-Clark desenvolveu, quer ainda em Cornell, como Tree Dance (1970), como posteriormente em Nova Iorque (a performance Pig Roasted, em Brooklyn, do mesmo ano.

Na exposição encontra-se documentação sobre Food, nomeadamente o filme realizado com a colaboração de Robert Frank, o icónico fotógrafo americano.”

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Gordon Matta-Clark, Splitting, 1974

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Splitting e Bingo/Ninths, 1974

Splitting, de 1974, é um dos mais marcantes projetos de intervenção realizados por Matta-Clark sobre edifícios devolutos. Realizado numa vivenda pertencente aos galeristas Holly e Horace Solomon e que estava destinada a ser demolida, consistiu na realização de um corte transversal completo na casa, que ficou assim dividida por uma fenda que aumenta à medida que se avança na estrutura. Na exposição esta intervenção encontra-se documentada, através de fotografias e filme, contraposta ao filme de registo de Bingo/Ninths, do mesmo ano, na qual a parede de uma habitação foi retirada, um nono de cada vez, para revelar a estrutura.”

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Gordon Matta-Clark, Conical Intersect, 1975

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Conical Intersect, 1975 e Office Baroque, 1977

Conical Intersect é uma das mais marcantes intervenções de Gordon Matta-Clark na Europa, realizada nos terrenos que albergariam o Centro Georges Pompidou na zona de Beaubourg, em Paris. Mais uma vez aproveitando a eminente demolição dos edifícios nos terrenos que viriam a albergar o futuro museu desenhado por Renzo Piano, Gordon Matta-Clark perfurou os edifícios a partir de uma complexa geometria cónica, produzindo uma espécie de “teatro de rua durante a sua criação”, nas suas próprias palavras. Na exposição esta obra encontra-se documentada através de desenho e fotografia, sendo notável a forma como as montagens fotográficas replicam a própria ação tridimensional sobre os edifícios.

Office Baroque, realizado em Antuérpia a convite do curador Florent Bex durante as comemorações dos 400 anos do nascimento de Rubens, é um dos mais ambiciosos projetos de Matta-Clark pela grande complexidade do desenho, motivada, aliás, pela imposição por parte do município, de não haver alterações à fachada do edifício.

Em exposição encontra-se, também, um conjunto de cadernos de anotações e desenhos do artista, correspondência particularmente significativa dos seus pontos de vista sobre arte e arquitetura e um conjunto de desenhos que permitem compreender o processo criativo de Matta-Clark.”

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Gordon Matta-Clark, Conical Intersect, 1975

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Os Art Cards (cartões de arte), 1970 a 1978

Durante toda a sua vida artisticamente ativa, Matta-Clark transportou consigo pequenos cartões nos quais ia tomando anotações, escrevia pequenos aforismos ou meras reflexões, por vezes irónicas ou meramente crípticas, sobre arte, arquitetura ou a vida quotidiana. Estes cartões constituem testemunhos vivos do pensamento de Matta-Clark e permitem reconstruir a sua poética, ligando-se ao projeto da Anarquitetura, o grupo de artistas, arquitetos, músicos e coreógrafos que realizou uma exposição na galeria autogerida no número 112 de Spring Street no Soho nova-iorquino e de que só existe testemunho num artigo publicado na revista Flash Art em 1974. A possibilidade de uma arquitetura orgânica e sem projeto desprende-se dos cartões de arte desde o seu início.

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Day’s End, 1975

As docas foram um lugar economicamente decadente e progressivamente ocupado de forma clandestina pela comunidade homossexual de Nova Iorque durante a década de 1970. Numa dessas docas (Pier 52), Gordon Matta-Clark desenvolveu, também de forma clandestina, um dos seus projetos mais visíveis, retirando um enorme segmento de um edifício abandonado.

Este caráter clandestino veio a valer-lhe um longo processo judicial que se foi arrastando pelos tribunais, tendo vindo a ditar novas estadias prolongadas na Europa.

A documentação sobre o projeto Day’s End apresentada inclui um filme e troca de correspondência que relata as vicissitudes pessoais que Matta-Clark conheceu pelo desenvolvimento desta intervenção. Ainda em relação a Day’s End, são apresentadas imagens de Alvin Baltrop, fotografo que documentou os Piers e a comunidade homossexual na década de 1970, por vezes incluindo a intervenção de Matta-Clark, e de Emily Roisdon que, muito mais recentemente, fotografou o mesmo espaço.

Na mesma sala encontram-se duas obras do mesmo período, Bronx Floors (1972/73), que resultam da retirada de segmentos de chão de habitações abandonadas ou ocupadas por populações marginais ou socioeconomicamente desfavorecidas, fator que o compeliu a lidar com estes exemplos de negligência urbana e Substrait, um filme complexo e experimental que resulta da colagem de vários segmentos em 16mm e Super 8mm sobre as caves e os subterrâneos, à semelhança do que viria a realizar em Paris posteriormente.

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Intraform, 1973 e Cut Drawings, 1974-1976

Os Cut Drawings de Gordon Matta-Clark são versões condensadas e programáticas da sua prática nos edifícios, quase sintéticos da forma como o corte, a separação, o desenho e a marca são estruturantes do seu trabalho. Em exposição, os seis desenhos cedidos pela Coleção Helga de Alvear (Cáceres) confrontam-se com as quatro fotografias da série Intraform, realizadas em Itália, projeto para o qual produziu os primeiros Cut Drawings e que viriam a ser apresentados na Galleriaforma, de Génova, em 1973, conjuntamente com A W-Hole House, exibida na sala seguinte.

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A W-Hole House, 1973

A exposição encerra com a apresentação de extensa documentação do projeto A W-Hole House, que Gordon Matta-Clark efetuou e apresentou em Génova. O projeto é particularmente complexo porque parte da disseção meticulosa e rigorosa de um pequeno edifício de escritórios, seccionado a partir da estrutura interna em cruz, progressivamente subdividida, definindo uma perspetiva panorâmica que seria fundamental em projetos posteriores como Office Baroque.

A obra é ainda particularmente complexa pelo vazio interno que define e pela maneira como lida com o telhado da casa, também ele seccionado e replicado no desenho escavado apresentado no chão.”

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Pode ler sobre a exposição nos sites da Fundação de Serralves aqui e da Culturgest aqui.

 

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