ANOZERO, 2.ª BIENAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE COIMBRA

Kadder Atia, Ernesto de Sousa, Jonathas de Andrade e Henrique Pavão (entre outros) no Colégio das Artes. Múltiplas exposições em 7 espaços para ver até 30.12.2017.

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A Anozero – 2.ª Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra apresenta na cidade do Mondego um conjunto amplo de exposições, numa organização conjunta do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), da Universidade de Coimbra (UC) e da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), com curadoria de Delfim Sardo, coadjuvado por Luiza Teixeira de Freitas.

As exposições, sobre o tema Curar e Reparar, apresentam-se no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, no Convento São Francisco, na Sala da Cidade, no Museu Municipal de Coimbra (Edifício do Chiado), no CAPC – Circulo Sereia, no CAPC – Círculo Sede, na Galeria de História Natural do Museu da Ciência, no Colégio das Artes e na Maternidade Professor Bissaya Barreto, de 11 de novembro a 30 de dezembro de 2017.

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Anozero

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Delfim Sardo e Luiza Teixeira de Freitas, curador e curadora-adjunta, escrevem sobre a Anozero:

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O tema da bienal Anozero, Curar e Reparar, é uma proposta de muitas possíveis entradas.

Curar refere-se a cuidado, à possibilidade de exercer um cuidado que recupera, o que implica necessariamente uma condição de fragilidade, do próprio ou de outro. Há na palavra cura uma doença implícita, mas sobretudo uma prática recuperadora, o exercício de um restauro, ou a restituição de um organismo à sua condição.

Reparar, por seu turno, tem uma miríade de conotações possíveis: em português quer dizer arranjar, consertar, recompor. Quer também dizer aproveitar, compensar, restaurar, tudo processos económicos que implicam uma determinada conservação. Mas, em português, o termo reparar tem ainda um outro conjunto de signicados que implicam tomar atenção, ver com acuidade, atentar, prestar atenção; enfim, uma disponibilidade para o mundo, que advém da possibilidade de focar o que está perante, desacelerar o tempo e não opinar.

Esta teia de ecos foi o mapa que permitiu ir encontrando artistas que, de múltiplas formas, procuravam essa impureza inerente à recuperação de qualquer coisa que, já existindo, seja como um engrama, um problema, uma possibilidade de redenção ou uma deformação, necessitava de ser cosida, suturada, remendada. Enfim, reparada.

A bienal não parte, portanto, do princípio de que a arte cura. Em si, a arte não cura nada. Também não revoluciona, nem rompe, nem corta, mesmo que finja fazê-lo: encena, por muitas formas, esses processos e, no melhor dos casos, propõe-nos que reparemos.

A proposta da bienal foi, portanto, de se situar nos antípodas de um pensamento radical, de uma proposta que se reivindicasse da raiz, da origem ou do apagamento, da limpeza ou de qualquer purismo. Há um bolor moral na radicalidade que foi o ponto do qual esta proposta se pretendeu desviar a partir de um trabalho dos artistas sobre a memória — a própria, a coletiva, a ficção da coletividade. A proposta que construímos parte desse propósito: há qualquer coisa que pode ainda ser arranjada, mesmo que pela exposição de uma ferida.

O segundo ponto de partida da bienal foi a cidade e os seus espaços, para definir uma exposição que atravessasse vários locais, mas mantendo-se uma exposição. A construção de um percurso que partisse da Baixa e subisse até à Universidade, atravessando o circuito patrimonial, que, passando pelos dois edifícios do Círculo de Artes Plásticas, atravessasse o rio e subisse até Santa Clara. E aí, a revelação do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova constituiu um desafio e um fascínio que não podia ser recusado, quer pela qualidade arquitetónica e patrimonial, quer porque devolve o olhar sobre a cidade, uma vez mais, para reparar nela com distância.”

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Sobre a Bienal, referem:

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Anozero – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra é uma iniciativa proposta pelo Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, organizada em parceria com a Câmara Municipal de Coimbra e a Universidade de Coimbra, que assume como objetivo primordial promover uma reflexão quanto à recente circunstância da classificação da Universidade de Coimbra, Alta e Sofia como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO.

Surgindo como tentativa de compreensão do significado simbólico e efetivo desta nova realidade da cidade – ser detentora de Património Mundial – a bienal propõe um confronto entre arte contemporânea e património, explorando os riscos e as múltiplas possibilidades associadas a este património cultural que agora é da Humanidade.

O Anozero é, portanto, um programa de ação para a cidade que, através de um questionamento sistemático sobre o território em que se inscreve, poderá contribuir para a construção de uma época cultural atuante e transformadora, em Coimbra e na Região Centro.”

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António Bracons, Colégio das Artes, Coimbra, 2017

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No Colégio das Artes apresentam-se seis exposições, a maior parte centradas na fotografia e no video: a escultora Jill Magid, Kader Attia, Jonathan Uliel Saldanha, Ernesto de Sousa, Jonathas de Andrade e Henrique Pavão.

Destaco quatro:

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Kader Attia, Dispossession, 2013

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2017. Kader Attia, Dispossession, 2013. Instalação. Dupla projeção de slides, projeção de slides única, 13’00’’ e vídeo, 6’43’’; cor, som.
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Artista franco-argelino, Kader Attia tem vindo a desenvolver o seu percurso a partir de dois eixos de investigação: por um lado, um interesse pelos processos de reparação, de recomposição e de arranjo, quer dos corpos, quer dos artefactos, que resulta, através de procedimentos híbridos, em objetos mestiços que requerem uma antropologia própria. Por outro lado – e consequentemente –, a partir da forma como o modernismo atravessou o continente africano, procurando os processos de mútua apropriação cultural entre colonizador e colonizado e perseguindo as feridas abertas deste processo. Na bienal, Kader Attia apresenta uma obra em duas partes: um conjunto de imagens projetadas e um filme. A obra faz um inventário das obras subtraídas pelos missionários em África e transportadas para o Museu do Vaticano. O imenso conjunto é sintomático do processo de desenraizamento da memória cultural dos povos africanos pela deslocalização de objetos que perderam o seu poder simbólico.”

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Ernesto de Sousa, Franklin Vilas Boas

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Ernesto de Sousa (1921–1988) realizou e concebeu a exposição Barristas e Imaginários: quatro artistas populares do Norte, na Galeria Divulgação, em Lisboa, em 1964, com obras de Rosa Ramalho, Mistério, Franklin Vilas Boas e Quintino Vilas Boas Neto. Na longa caminhada que fez do neorrealismo para a arte contemporânea trouxe para o estudo da arte popular novas ferramentas de leitura e novos códigos discursivos. A presente evocação faz coabitar fotografias de Ernesto de Sousa com objetos dos artistas por ele estudados, procurando reativar as múltiplas e fecundas relações e estratos de sentido que o inquieto investigador (ou operador estético, designação que mais tarde reivindicaria) produzia, a partir de métodos analíticos invulgarmente excêntricos para o contexto de então, dominado, no campo da história da arte, por leituras conservadoras e disciplinares. Ernesto de Sousa operava por comparação, aproximação e observação, não colocando à partida qualquer barreira nem sendo dominado por qualquer preconceito concetual. Procurava aproximar a arte dita popular da arte ocidental erudita ou da de outras culturas mais distantes, como é o caso da arte tribal africana. A arte popular ou, como Ernesto de Sousa preferia designar, «de expressão ingénua» foi alvo de um considerável interesse desde os últimos anos da década de 1950 com diversos contactos e investigações, quer no campo da etnologia, quer da arquitetura. Vindo do neorrealismo, no qual pontifica Dom Roberto, filme que realizou em 1962, Ernesto de Sousa chega à arte popular através de um profícuo desvio pela arte primitiva africana, à qual, de resto, aproximará alguns objetos de Franklin, por exemplo.”

Nuno Faria, curador da exposição Ernesto de Sousa e a Arte Popular – Em torno da exposição “Barristas e Imaginários”, apresentada pelo Centro Internacional das Artes José de Guimarães em 2014 (adaptado).

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O sistema de projeção não se encontrava a funcionar quando visitei a exposição; estavam expostas diversas esculturas.

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Jonathas de Andrade, Projeto de abertura de uma casa, como convém, 2009

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2017. Jonathas de Andrade, Projeto de abertura de uma casa, como convém, 2009. Maquete em balsa e cedro e 11 impressões digitais sobre papel fotográfico.

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O artista brasileiro Jonathas de Andrade tem vindo a desenvolver um trabalho em diversos suportes, nomeadamente filme, fotografia e escultura, numa abordagem que utiliza dispositivos próprios da antropologia, construindo discursos que geram poéticas a partir de manipulações do real.

A obra que apresenta na bienal é um exercício a partir da destruição de uma casa modernista, documentada através de uma maquete da casa destruída e de imagens fotográficas do processo de delapidação e saque. De certa forma, o projeto de Saldanha liga-se a uma certa nostalgia de fim de uma época, mas produz, também, um comentário sobre o efeito da devastação provocada pela especulação imobiliária e a forma como esta vai destruindo especificidades arquitetónicas e culturais.”

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Henrique Pavão, Absence Reminders, 2016

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2017. Henrique Pavão, Absence Reminders, 2016. Prova impressa a jato de tinta sobre papel, obsidiana, ferro (36×) 20 × 27 cm.

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Com um trabalho centrado em questões de memória e temporalidade, o percurso ainda necessariamente curto de Henrique Pavão espelha um interesse e recurso à arqueologia dos movimentos conceptuais, a que se liga um uso sofisticado de processos sensíveis. A sua obra circula por inúmeros suportes (a escultura, o filme, a fotografia ou o som), frequentemente com uma preocupação pelos próprios processos e mecanismos de cada medium, tomados como a marca da sua temporalidade ou mesmo da sua história. A obra que desenvolveu para a bienal parte do reencontro do artista com a janela de uma casa onde residiu em criança. As 36 imagens da janela — convertida em campo de expectativas em relação ao futuro e agora memória dessas possibilidades — são parcialmente obliteradas pela intromissão de uma pedra de obsidiana, um monólito que atua como ação irremediável do presente.”

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Pode saber mais sobre a Anozero, 2.ª Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, aqui.

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