RENATO ROQUE, ESCRITO COM CAL E COM LUZ, 2017

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Renato Roque

Escrito com Cal e com Luz. Ensaio fotográfico sobre a poética de Carlos de Oliveira

Fotografia: Renato Roque / Texto: Renato Roque, Rosa Maria Martelo / Produção: XYZ Books

Autor / Outubro . 2017

Português / 16,2 x 23,2 cm / 88 págs

Cartonado / 300 ex., dos quais 40 numerados na última página, manuscrito, e assinados, acompanhados por uma de quatro fotografias (10 de cada)

ISBN: 9789899906358

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Perguntam-me ainda porque falo tanto da infância. Porque havia de ser? A secura, a aridez desta linguagem, fabrico-a e fabrica-se em parte de materiais vindos de longe: saibro, cal, árvores, musgo. E gente, numa grande solidão de areia. A paisagem da infância que não é nenhum paraíso perdido mas a pobreza, a nudez, a carência de quase tudo.”

Carlos de Oliveira, Aprendiz de Feiticeiro

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Pego o livro, pequeno.

Um forno de cal, de cores quentes, preenche a capa. Apenas a branco, discreto no topo, do lado esquerdo, se identifica título e autor: “Escrito com Cal / e com Luz / Renato Roque”. Sem querer perturbar, sem perturbar a cadência ritmada dos tijolos e da cal do forno.

No interior complementa-se: “Ensaio fotográfico sobre a poética de Carlos de Oliveira”.

As fotografias percorrem, como “uma espécie de sonata escrita em quatro movimentos, que se misturam e se interpenetram:” o ciclo da cal, a casa de Febres, a casa gandaresa [de adobe] e a paisagem gandaresa.

Lêem-se as fotografias e os poemas e os fragmentos da obra de Carlos de Oliveira. Um percurso que é uma memória e uma presença, a memória e a intimidade da casa do poeta, uma casa gandaresa, de adobe.

E da paisagem gandaresa, e do fabrico da cal: região de calcários, os fornos de cal são ainda uma atividade presente.

Renato Roque realizou este projeto fotográfico em 2015, a partir da poética de Carlos de Oliveira, na região de Gândara, onde o poeta viveu a sua infância, que transpôs para a sua obra.

A presença de Carlos de Oliveira é permanente.

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Isabel Cristina Mateus escreve sobre este livro na Revista Caliban on line:

“Escrito com Cal e com Luz”, de Renato Roque (ed. de autor, 2017), é antes de mais um belíssimo roteiro fotográfico do universo poético de Carlos de Oliveira: uma viagem pela sua geografia pessoal e pelos lugares que, como ele próprio afirma em Micropaisagem (O Aprendiz de Feiticeiro), lhe ficaram “tatuados” na pele e na memória. Lugares de infância que configuram igualmente a sua topografia literária: a Gândara e “uma aldeia pobríssima, Nossa Senhora de Febres.” Uma paisagem que o escritor descreve desta forma: “Lagoas pantanosas, desolação, calcário, areia”.

O livro, (…)  , constrói-se como um lugar de encontro, um cruzamento de olhares. A começar pelo diálogo íntimo e intenso do fotógrafo com o escritor cuja presença adivinhamos e sentimos nas sombras e silêncios de cada fotografia. Vigilante, na casa que foi da família, em Febres e, em particular, na cadeira vazia recortada na luz; discreta, no chapéu pousado sobre a tábua de passar a ferro, nos caixotes numerados do espólio a aguardar outro destino ou no papel de parede do quarto; misteriosa, no retrato semi-embrulhado do escritor sobre as cadeiras de torcidos. Lugar de encontro também com o olhar do leitor/observador que se cruza com o olhar do fotógrafo e o olhar do escritor, este livro põe, com efeito, a descoberto uma das pontas submersas do “iceberg” (“um terço visível, dois terços debaixo de água”, In: O Iceberg. In: “O Aprendiz de Feiticeiro”) que, no dizer de Carlos de Oliveira, é todo “o escritor português marginalizado”, iluminando aspectos ignorados ou desconhecidos da sua biografia.”

Procurando ser (e conseguindo) um ensaio fotográfico sobre o universo poético de Carlos de Oliveira, este livro não deixa de ser igualmente um ensaio do fotógrafo olhando-se no olhar do escritor ou no espelho da paisagem gandaresa, co-existindo e habitando os mesmos espaços, cruzando-se com as mesmas gentes e com os gestos cristalizados no tempo. Um ensaio do fotógrafo à procura de si, das suas raízes identitárias, da sua geografia sentimental e literária nesta viagem-peregrinação aos lugares sagrados do autor de Finisterra. Ao longo dos quatro movimentos que definem o percurso deste livro, do ciclo da cal, à casa de Febres, da casa de adobe à paisagem gandaresa, é à contínua aproximação de si através do objecto a que o leitor assiste, à descoberta de íntimas conexões ou de um subtil jogo de espelhos, ao constante ensaiar-se do fotógrafo, entendido aqui o ensaio no sentido que originalmente Montaigne lhe atribui como pintura de si ou retrato (autoretrato fotográfico, diria) de um eu (e de um olhar) “ondoyant et divers”. E neste cruzamento de olhares entre fotógrafo e escritor texto e palavra iluminam-se mutuamente, dialogando sem tradução, falando uma linguagem comum, a linguagem das imagens que seduz o leitor desde a primeira página.

(…)

Esse mesmo silêncio que, paradoxalmente, a fotografia de Renato Roque nos dá a ouvir (mais do que a ver), tornando-o tangível: o crepitar das pedras no lume dos fornos; o som do martelo despedaçando a rocha; o rumor das vozes na casa de família desabitada; o ruído da ventoinha abandonada no quarto; o frémito das águas pantanosas da lagoa; o zumbido do vento nos pinhais; o batimento de asas das aves cujas patas ficaram tatuadas na areia; os estalidos da casa de adobe em ruínas; o eco do poço; o grito da pedra esventrada; o silêncio fossilizado no tempo da amonite. E é essa poética do silêncio que faz deste Escrito com Cal e com Luz não apenas um livro mágico, envolvente para o leitor, mas também um guia de leitura seguro, doravante indispensável para todos aqueles que ousarem aventurar-se nos passos poéticos do escritor da Gândara ou redescobrir a sua escrita a partir desta caligrafia de luz, de cal e de silêncio.”

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Renato Roque, Escrito com Cal e com Luz, 2017

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O livro foi lançado em 14 de outubro, no âmbito da exposição “Carlos de Oliveira: a ponta submersa do iceberg”, com curadoria de Osvaldo Silvestre, que esteve patente no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, de 18 de março a 29 de outubro de 2017.

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Carlos Alberto Serra de Oliveira, mais conhecido como Carlos de Oliveira, nasceu em 10 de agosto de 1921, em Belém, estado do Pará, Brasil.

Os pais, imigrantes portugueses, regressaram a Portugal, tinha Carlos dois anos. A família fixa-se no concelho de Cantanhede, na região da Gândara, mais precisamente na vila de Febres, onde o pai exerceu medicina.

Em 1933, Carlos de Oliveira muda-se para Coimbra, para prosseguir os estudos liceais. Ingressa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se licencia em Ciências Histórico-Filosóficas, em 1947, com a tese Contribuição para uma estética neo-realista.

Na sua obra destaca-se a poesia, entre outros, os títulos: Turismo (Coimbra Editora, 1942), Mãe Pobre (Coimbra Editora, 1945), Micropaisagem (Dom Quixote, 1968), Entre Duas Memórias (Dom Quixote, 1971) e Pastoral (1977),  o romance: Casa na Duna (Coimbra Editora, 1943), Alcateia (Coimbra Editora, 1944),  Pequenos Burgueses (Coimbra Editora, 1948), Uma Abelha na Chuva (Coimbra Editora, 1953) e Finisterra: paisagem e povoamento (Livraria Sá da Costa, 1978). Publicou também crónicas: O Aprendiz de Feiticeiro (Dom Quixote, 1971) e antologias: Poesias (1945-1960) (Portugália Editora, 1962) e Trabalho Poético (Sá da Costa, 1975).

Recebeu o Prémio Bordalo na categoria de “Literatura” em 1971 e em 1978 o Prémio Cidade de Lisboa (1978).

Faleceu em Lisboa, em 1 de julho de 1981.

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Pode ler o artigo completo de Isabel Cristina Mateus na Revista Caliban on line, aqui.

Pode conhecer o trabalho de Renato Roque, aqui.

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