UMA PROPOSTA: SIFOTO – SISTEMA DE INFORMAÇÃO PARA OS FOTÓGRAFOS E ESPÓLIOS FOTOGRÁFICOS EM PORTUGAL

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A CASA DA ARQUITETURA E O SIPA NACIONAL

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Dia 17 de novembro vai abrir, em Matosinhos, a Casa da Arquitetura, no espaço da antiga Real Vinícola.

Foi anunciado que a Casa da Arquitetura e a Direção-Geral do Património Cultural vão lançar uma plataforma online e de consulta gratuita com a localização física das coleções e acervos de arquitetos, na sequência do acordo assinado no dia 2 de novembro de 2017, no Porto.

Conforme refere a diretora-geral do Património Cultural, Paula Silva, “Será uma plataforma conjunta que agregará espólios. Isto surge da ambição de trabalharmos em conjunto e não como se as diversas estruturas fossem quintais. Pretendemos divulgar, operacionalizar o que existe em Portugal”.

Pretende-se ter “uma base estruturada que permita informar os investigadores, estudantes de arquitetura, autores, entre outros agentes ligados à área, das características das obras arquivadas e do sítio onde estão, sejam coleções de municípios, faculdades, fundações ou mesmo acervos individuais.”, de acordo com o citado pelo jornal Observador. O objetivo é que estes profissionais arquivem a documentação de modo idêntico ao que já é efetuado pelo Sistema de Informação para o Património Arquitetónico (SIPA), no Forte de Sacavém, conforme referido pelo diretor-executivo da Casa da Arquitetura, Nuno Sampaio, isto é, a digitalização de peças escritas (com OCR) e desenhadas, devidamente identificadas e classificadas.

Isto é, estender o arquivo arquitetónico do Património aos projetos particulares, e aos espólios dos arquitetos, muitos em depósito em instituições, universidades e municípios, ou mesmo nos próprios atelieres.

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António Bracons, série C.A.D.C., Coimbra, 2011

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A IMPORTÂNCIA E NECESSIDADE DE UM REGISTO DOS FOTÓGRAFOS E ESPÓLIOS FOTOGRÁFICOS PORTUGUESES

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A leitura desta notícia despertou-me para a emergência de um outro projeto, que me parece essencial: um registo dos fotógrafos, das coleções e espólios fotográficos nacionais: de fotógrafos nacionais e estrangeiros, existentes em território nacional – e de fotógrafos nacionais em território estrangeiro.

Aliás, os objetivos registados para a arquitetura podem-se sentir como comuns para a fotografia.

A produção fotográfica é demasiado vasta para permitir um arquivo “total”, detalhado e sistemático de cada uma das imagens, até porque esse trabalho não existe na maior parte dos acervos e espólios, nem mesmo os próprios autores, na maior parte dos casos, o têm.

Todavia, creio que será importante conhecer os fotógrafos portugueses, saber as coleções e espólios existentes: de instituições públicas e privadas, de particulares e dos próprios autores.

Falo de espólio enquanto obra sistemática ou pontual de um ou vários autores, de uma mesma instituição, entidade ou do próprio autor.

Estas coleções são vastíssimas em número e extensão. Municípios, firmas, publicações, instituições de ensino e de investigação, fotógrafos profissionais e até mesmo amadores sérios, muitos com publicações diversas e de diferentes áreas, detém um espólio verdadeiramente notável, para além de comuns cidadãos que, sem pretensões especiais, têm registos que revestem grande interesse, particularmente com o decorrer do tempo.

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Como amadores sérios (no sentido de não profissionais, alguns com uma atividade fotográfica bem conhecida), podemos referir alguns nomes, como Carlos Calvet, Gérard Castello-Lopes, Adelino Lyon de Castro, Frederico Pinheiro Chagas, Carlos Afonso Dias, Franklin Figueiredo, Fernando Lemos, João Martins, António Paixão, Victor Palla, Varela Pécurto, Eduardo Harrington de Sena, Sena da Silva, Fernando Taborda, compilados na exposição e livro “Batalha de Sombras” (aqui), ou o do fotógrafo amador David de Almeida Carvalho, cujo espólio foi doado à Câmara Municipal de Coimbra 25 anos após a morte do fotógrafo (aqui).

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Emília Tavares, “Batalha de Sombras”, Vila Franca de Xira: Museu do Neorrealismo,2009

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Muitos dos fotógrafos “de casa aberta”, com as suas reportagens fotográficas de casamentos, batizados, eventos locais, etc., assumem importância no contexto da história das localidades onde atuaram, sendo que alguns integram arquivos municipais, como o caso de José P. B. Passaporte e António Passaporte, David Freitas, Eduardo Nogueira, Marcolino Silva, Mário da Gama Freixo em Évora, ou da Fotografia Alves, em Vila Nova da Barquinha. Seria desejável que muitos outros não se perdessem, apesar do negativo ter sido destronado há mais de uma décadas pelo digital e muitas casas comerciais terem fechado.

Falando dos particulares, o “snapshot” merece atenção há vários anos, basta recordar a exposição e livro “Forget me not. Photography and remenbrance”, Van Gogh Museum, Amsterdam e Princeton Architectural Press, 2004, que Geoffrey Batchen apresentou naquele museu, em 2004. Registam acontecimentos particulares e individuais, os lugares públicos e privados, vivências, costumes, trajes, viagens, etc.

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Geoffrey Batchen, “Forget me not. Photography and remenbrance”, Van Gogh Museum, Amsterdam e Princeton Architectural Press, 2004

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Podemos citar como exemplo do que referimos, relativamente a coleções particulares, como a da atriz Amélia Rey Colaço, destacado pela importância que a atriz teve, do qual uma breve amostra foi apresentada no Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico (aqui).

As coleções destes particulares, cidadãos comuns, muitas vezes constituem o único registo de muitas paisagens e aspetos de vários lugares, da sua evolução, das suas pessoas, dos estilos de vida. O livro “Município de Ponte de Sor. Encontro de Memórias. Municipality of Ponte de Sor. Meeting of memories”, editado pela Câmara Municipal de Ponte de Sor (2012, ISBN: 9789898410221), foi possível pela doação de espólios particulares ao município, constitui um registo (único) da história do concelho.

Refiro apenas alguns exemplos que me vêm à memória, muitos outros há.

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UMA PROPOSTA: SIFOTO – SISTEMA DE INFORMAÇÃO PARA OS FOTÓGRAFOS E ESPÓLIOS FOTOGRÁFICOS EM PORTUGAL

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Resulta assim a presente proposta, de criação de um registo dos fotógrafos e da sua ação, através dos espólios, registos de atividade, etc., que, se numa primeira fase e para alguns pode ser apenas um breve conhecimento da existência, para outros, face aos estudos já efetuados, será um registo detalhado de atividade e produção.

Permito-me desde já sugerir um nome: SIFOTO – Sistema de Informação para os Fotógrafos e Espólios Fotográficos em Portugal.

Sem me debruçar de forma significativa sobre o assunto, neste momento, e ao “correr da pena”, o registo identificaria (pelo menos):

  • Instituição / entidade;
  • Autores;
  • Temas;
  • Tipo de peças – negativos, positivos, formatos, técnicas, etc., – quantidade e estado;
  • Álbuns e sua descrição sumaria – quantidade, estado, etc.,
  • Relativamente aos fotógrafos:
    • Notas biográficas,
    • Exposições;
    • Bibliografia (livros, revistas, artigos),
    • Período de atividade (se for o caso, vs entidade),
    • Atividade desenvolvida: de autor, jornalística, publicitária, moda, local, patrimonial, de costumes, documental, reportagem, etc.;
    • Documentos existentes (com possibilidade de digitalização), etc.;
    • Equipamentos utilizados;
  • Links para sites ou outros espaços onde possa ser visualizada a obra descrita (da instituição ou não), informação biográfica, e/ou
  • Disponibilização na própria plataforma de algumas imagens;
  • Etc.

É certo que uma base deste tipo e consoante a informação e conhecimento disponível, pode ter diferentes níveis de ou para o seu preenchimento – e, mesmo em cada nível, consoante a informação disponível.

Será melhor conhecer apenas o nome do autor / fotógrafo que nada. Se se souber alguma informação sobre a sua vida, a sua história, melhor. Nalguns casos, conhece-se a obra, descobrindo-se só depois o autor, como o caso de Arthur Júlio Machado e José Candido d’Assumpção e Souza, descobertos pelo Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico (aqui).

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Rosto da folha de sala da exposição “Lisboa uma grande surpresa”, fotografias de Arthur Júlio Machado e José Candido d’Assumpção e Souza, no Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, 2016.

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Não podemos também descurar os que pensam e escrevem sobre fotografia, cujo registo deve também ser considerado e, se possível, linkado com os fotógrafos e/ou projetos correspondentes.

Deve também ser considerada (numa perspetiva de História da Fotografia – ou da Imagem Fotográfica – em Portugal), a presença de fotógrafos estrangeiros em Portugal: quer pelos registos efetuados, quer as exposições apresentadas.

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São apenas algumas anotações que pretendem alertar para a emergência, capacidades e possibilidades de um Sistema de Informação como o que se propõe. Uma equipa de trabalho, naturalmente pluridisciplinar, encontrará e organizará de melhor forma a informação possível.

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A SUA IMPORTÂNCIA

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Não é preciso muito para perceber a importância de uma base de informação deste tipo. Sem dúvida será extremamente útil, quer como base para estudos, investigações ou exposições a efetuar, quer como um ponto de partida para conhecer o muito que há e se desconhece.

Permitirá, além disso, numa perspetiva de História e Registo da Fotografia Portuguesa, uma base bio-bibliográfica e de atividade dos fotógrafos e da existência dos espólios de fotografia portugueses – nacionais, internacionais e locais, para estes, a sua biografia / história, atividade desenvolvida, publicações, obra, enriquecida pela possibilidade de a informação poder proceder de diferentes origens e fontes, completando-se. Para muitos será a forma possível de agregar informação que, de outro modo, se manteria dispersa ou perderia.

A natural interação de links que o sistema terá de ter, permitindo pesquisas por autores, anos / períodos, locais, exposições, edições, publicações, etc., resulta numa maior valia inestimável.

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Salvaguardo que, naturalmente, a plataforma que proponho nada tem a ver com o SIPA, nomeadamente quando este é sobretudo um arquivo dos projetos de arquitetura e demais especialidades das edificações.

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A proposta está feita.

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