MANUEL ALVAREZ BRAVO, MUITO SOL, 1995

15 anos da morte de Manuel Alvarez Bravo (Cidade do México, México, 04.02.1902 – Cidade do México, México, 19.10.2002)

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Manuel Alvarez Bravo

Muito Sol

Fotografia: Manuel Alvarez Bravo / Introdução: José de Monterroso Teixeira / Texto: Teresa del Conde / Design gráfico: João Machado

Lisboa: Fundação das Descobertas – Centro Cultural de Belém / Outubro.1995

Português / 23,4 x 29,5 cm / 98 págs.

Brochura / 2.000 ex.

ISBN(10): 9728176198

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Fotografia da capa: “Maguey y pared dentada” [Piteira e parede dentada], 1976.

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Para mim o visual é muito instantâneo. Creio que sou fotógrafo por andar à procura da minha primeira imagem visual.”

Manuel Alvarez Bravo

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Manuel Alvarez Bravo esteve em Portugal aquando dos 8.ºs Encontros de Fotografia de Coimbra (E.F.C.), entre 5 a 15 de novembro de 1987, foi apresentada uma exposição da sua obra (ver aqui).

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António Bracons, Manuel Alvarez Bravo, Coimbra, 19.11.1987

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Em 1995, a 27 de outubro inaugurava o programa “A Magia do México”, na Fundação das Descobertas – Centro Cultural de Belém, apresentando um conjunto de 8 exposições, com outros tantos catálogos, entre elas, uma de fotografia, sendo o “embaixador” do seu país, o fotógrafo Don Manuel Alvarez Bravo. Esteve em Portugal, acompanhou a montagem e esteve presente na inauguração.

À exposição “Imagens de Luz” correspondeu o catálogo “Muito Sol”, que será a segunda obra do fotógrafo editada em Portugal (a primeira já apresentámos no link acima). Além da introdução de José de Monterroso Teixeira, então diretor do Centro de Exposições e Programação do CCB, a biografia de Alvarez Bravo e um interessante ensaio de Teresa del Conde: “Manuel Alvarez Bravo O que acontece ao tempo”, seguem-se 64 fotografias, das 176 expostas, e alguns aforismos; excelente impressão e grafismo de toda a obra.

As suas fotografias retratam o México dos anos 20 aos anos 80 (e depois), nas suas tradições, cultura, hábitos, vivências, organizadas pelo olhar e não pela data. Resulta assim numa intemporalidade, como se as imagens fossem de um mesmo tempo – ou o possam ser – num país que mantém múltiplas e ancestrais tradições.

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Folheto de divulgação das exposições.

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No Expresso Revista de 11.11.1995 (pp. 112-114), no artigo “O real mágico”, Alexandre Pomar, refere-se assim a Álvarez Bravo:

Este homem tem a idade do século e transporta toda a memória do México.
Cresceu com a Revolução, ao lado da Catedral de México, sobre ruinas pré-colombianas. Encontrou Tina Modotti em 1927 e correspondeu-se com Edward Weston, acompanhou Diego Rivera, Orozco e Siqueiros, fotogrando os seus frescos, trabalhou com Eisenstein em Que Viva México!, em 1931, conviveu com Paul Strand, expôs com Cartier-Bresson em 1935 no Palácio de Belas-Artes de México, conheceu Breton em 1938, que o integrou em exposições surrealistas, colaborou com Luis Buñuel e John Ford.   …

É antes o México, com a presença viva da sua história mais arcaica, com a dignidade altiva das suas tradições e dos seus índios que Manuel Álvarez Bravo fotografa, de um modo que nunca é exactamente documental mas que exprime, muito mais do que se o fosse, toda a dimensão colectiva de um povo — por facilidade de linguagem, dir-se-á: toda a mágica natureza de um país.

André Breton procurou associar Álvarez Bravo ao surrealismo, mas o percurso do fotógrafo tinha-lhe sido independente e manter-se-ia exterior ao movimento. Uma só fotografia, A Boa Fama Dormindo, de 1938, foi reconhecida como surrealista pelo autor, que a realizou expressamente para uma exposição organizada por Breton. Mas o poeta foi um dos seus melhores comentadores: «Onde Álvarez Bravo se deteve, onde ele se demorou a fixar uma luz, um sinal, um silêncio, é onde bate o coração do México e também onde o artista pôde pressentir, com um discernimento único, o valor plenamente objectivo da sua emoção».

Don Manuel começa a fotografar em 1924, quando adquire a sua primeira máquina fotográfica. Com o fotógrafo alemão Hugo Brehme, dono de um estúdio famoso e autor do livro México Pitoresco (1923), tem o primeiro contacto com os segredos da câmara escura e toma a decisão de se tornar fotógrafo.

Acrescenta Pomar:

Com Tina Modotti, que conhece em 1927, Álvarez Bravo participa da atmosfera politicamente explosiva do tempo, mas sem especial empenhamento militante — é ele quem a acompanha ao porto quando é expulsa em 1930 e ela deixa-lhe a câmara de grande formato e o emprego junto dos Muralistas. Esse trabalho de reprodução dos frescos interessou a Don Manuel: «Já não se tratava de adivinhar o tempo de exposição, mas de cuidar ao máximo da precisão». A escolha dos fragmentos a fotografar ensinou-lhe as regras de composição plástica e a possibilidade de renunciar ao emprego na «Contaduria» libertou-o para a sua obra pessoal.”,

Começava assim uma vida de fotógrafo que se prolongaria por quase 80 anos.

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Teresa del Conde escreve em “Manuel Alvarez Bravo. O que acontece ao tempo”:

Creio que é por meio do espaço, da massa, do tempo e da luz que Manuel Álvarez Bravo decanta noções de entidade através da sua própria identidade e que é já na câmara escura, ao selecionar entre muitas tomadas apenas aquelas que correspondem a determinadas estruturas, que ele as apreende como significante e cumpre um processo criativo que é ao mesmo tempo imaginativo e racional, faculdades que de modo nenhum são antagónicas, mas sim complementares. … Porque Álvarez Bravo não só tem génio para perceber o que é digno de ser preservado como também o seu olhar privilegiado é um olhar extremamente culto, guiado por uma mente sensível aos sinais e receptiva a todas as produções do espírito humano.

Ainda hoje há quem acredite que o fotógrafo se apropria da alma das coisas e que por isso resistem ao furto da imagem que – embora momentâneo – ficará perpetrado num papel. Mas também costuma suceder o contrário: o fotógrafo é capaz de devolver a alma ao que retrata, nem que seja uma ave morta.”

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Manuel Alvarez Bravo, Muito Sol, 1995

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