ADRIANO MIRANDA, CARVÃO DE AÇO, MINAS DO PEJÃO, 1992-1994 – 2/2

“Para que a memória dos homens não se apague”, por Miguel Carvalho

.

.

.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Adriano Miranda, Carvão de Aço, Minas do Pejão, 1992-1994

Estas fotografias integram o livro “Carvão de Aço”, de Adriano Miranda, 2017.

.

.

.

No lançamento do livro Carvão de Aço e inauguração da exposição homónima, a 1 de maio, no Poço 1 de Germunde, em Pedorido, Castelo de Paiva, nas próprias minas, além do autor, Adriano Miranda que leu o texto “Utopia, dignidade, trabalho e futuro” (aqui), Miguel Carvalho escreveu um texto que leu na ocasião. Com a autorização do Adriano Miranda, transcrevo-o.

.

.

ApresentaçãoCarvaodeAço

Cartaz da exposição

.

.

PARA QUE A MEMÓRIA DOS HOMENS NÃO SE APAGUE

.

Em julho e agosto de 1936, o jornalista James Agee e o repórter-fotográfico Walker Evans conviveram com três famílias de camponeses dos campos de algodão do sul dos Estados Unidos. A ideia era relatar as condições de vida – absolutamente miseráveis – desses trabalhadores do campo no tempo da Grande Depressão. A reportagem fora, à época, encomendada pela revista Fortune, mas, depois de concluída, a sua publicação acabou por ser recusada. Não houve artigo, mas nasceu um livro. Chama-se «Elogiemos agora os homens famosos».

Esta reportagem foi considerada um dos trabalhos mais importantes e influentes do século XX. É frequentemente citada como um dos expoentes do jornalismo praticado em nome de uma consciência social. James Agee chamou-lhe «documento fotográfico e verbal». Nesse «esforço de atualidade», os olhares e cenários captados pelo fotógrafo Walker Evans implicavam não só o autor, mas também quem neles mergulha. Estamos aqui, hoje, diante de outros “homens famosos”.

Pela sua simplicidade e modéstia, o Adriano não vai gostar de ouvir isto. Mas o que ele fez com os mineiros do Pejão insere-se nessa tradição de que o fotógrafo Walker Evans terá sido o expoente. Uma mistura de idealismo romântico e cortesia inata, sem pretensões de superioridade social, que entende dever fixar homens desta estirpe como seres humanos imortais. E isto acontece numa época, num tempo, em que deixamos passar diante dos olhos histórias e pessoas invisíveis às redes sociais, condenando-as a atravessar a vida sem registar as suas recordações, a perecer como se nunca tivessem existido e a desaparecer como se não tivessem nascido nunca. Para o Adriano, estes sim, são os homens famosos.

A colheita humana da decência, da honradez e da abnegação que, uma vez fixada para a posteridade, resgata a dignidade dos homens e da própria memória. Numa época em que o colete-de-forças do tempo, do espaço e do mercado condicionam sem piedade a expressão da palavra e do olhar, atirando-o demasiadas vezes para os braços da ligeireza, da moda, da pose, da produção e da superficialidade, o Adriano prova que as histórias que cobrimos são sempre maiores do que nós, do que os nossos jornais, revistas e editores. Ele trata-as com respeito e integridade. E segue o coração, sem desistências, mesmo que ele se parta. O Adriano é a câmara ao serviço dos outros. Está neste livro, nestas fotos, a prova.

Ao trazer para a luz do dia a memória destes homens titânicos, atravessados por lutas, desalentos e heroísmos vividos acima e abaixo das suas alturas, o Adriano é ele próprio herdeiro das melhores tradições dos intelectuais no sentido clássico. Não um desses intelectuais de pedestal, escravo da pantomina e do pedantismo, mas um desses homens íntegros, retos, de saberes diferenciados e capazes, como dizia Milan Kundera, de travar, em cada dia e em cada imagem, a luta da memória contra o esquecimento. Foi a incontornável Vicki Goldberg, repórter-fotográfica, quem disse: “Tudo o que o fotojornalismo capta faz parte das nossas vidas e não tem necessariamente de ser arte. Basta que seja verdade”. E é tão fácil descobrir o Adriano neste propósito quotidiano.

Estamos hoje nas carcaças daquilo que um dia foi território de carris, túneis e homens de cara encardida e pulmões negros. Onde, apesar de tudo, o silêncio das minas não pegou de ouvido e gerações de virtuosos – reunidos na Banda dos Mineiros do Pejão, por exemplo – recusam ainda tocar o requiem por uma terra. As minas fecharam no último dia de 1994, mas as lutas de centenas de mineiros continuaram pelos anos fora. Até que se baixaram os braços, exaustos. Pelo seu passado, este território deve inspirar-nos grande respeito e veneração. Porque, apesar da escuridão e das poeiras que se entranharam na existência de gerações, aqui se ergueu, a preto e branco, um monumento à decência dos homens.

Não haja qualquer dúvida, nem do Adriano se podia esperar outra coisa: as fotografias deste livro captam seres humanos de tamanho gigante. No claro/escuro destas imagens moram vivências sofridas, suadas, existências enraizadas no trabalho, homens que foram toupeiras da nossa claridade em quotidianos de escuridão. Quando desciam ao inferno, aqui na terra, não tinham sequer a certeza de voltar a ver a luz do dia. Entregavam-se então a Santa Bárbara. E ao companheirismo e solidariedade que, para eles, era de ciência certa, mesmo às escuras. O Pejão teve os seus dias áureos, em parte graças à família do belga Jean Tyssen. Descontado o paternalismo da época, e as perversidades do regime, durante décadas criou-se e fortaleceu-se o espírito da Família Pejão.

Barracões deram lugar a escritórios, dormitórios, habitações, postos médicos, farmácia, assistência materno-infantil, escolas para erradicação do analfabetismo, escolas de lavores, bolsas de estudo para os filhos dos trabalhadores, cantinas, oficinas, alimentos a preços mais baixos do que os do mercado, um jornal, associações desportivas, recreativas, uma banda de música. No fundo, coesão social. Palavras da moda, e afinal, de antanho. Mas, para lá do caráter humanista e da genuína filantropia desse tempo do reinado belga do Pejão, é bom lembrar, também aqui, que foram os mineiros, eles próprios, a pagar toda esta proteção e benefícios sociais, através dos descontos que lhes saíam dos salários. E do duro trabalho com que mortificavam o corpo. E os seus dias.

Passaram outras décadas. Somaram-se as promessas de Estado por cumprir, os acordos desonrados, a reciclagem adiada, os sonhos e as expectativas encardidos. Os empregos, as fábricas, os turistas não vieram. Falsas contrapartidas que sangram, ainda hoje, na memória destes homens, das suas famílias, em feridas tão negras como o carvão da mina. Castelo de Paiva é ainda o País que não vem no mapa. Em pouco mais de 20 anos, foram-se as minas, as fábricas, uma ponte que ruiu, milhares de pessoas atiradas para a morte, para o desemprego ou o adeus forçado às raízes. Todo o País assistiu, todo o País viu.

 

Dezenas de governantes por aqui desfilaram, tratando o concelho por tu, e enxugaram uma lágrima furtiva. Enquanto os holofotes por aqui andaram, as minas do Pejão e Castelo de Paiva foram manchete, abertura de telejornal, promessa de milhões a fundo perdido. Mas desmontado o cenário, as mulheres e homens continuaram, como sempre, entregues a si próprios, quais anjos caídos do tal céu que Deus governa, como diria Torga. Do apogeu e queda do couto mineiro às desgraças que enfrentaram por causa da incúria e da falsidade dos homens, estas gentes poderiam contar, por gerações, histórias de superação até ao limite das suas forças. Neste jazigo, o País, o Estado, encontraram conforto, sobrevivência, alento, pretexto para propaganda.

Neste jazigo, várias gerações de homens com garra, músculo, coragem e dedicação sobre-humanas deixaram lenços encharcados, percorreram galerias húmidas, escoiçaram o carvão e encontraram a morte lenta, sem que o País e o Estado tivessem sido capazes de lhes precaver, primeiro, ou reconhecer, depois, uma existência respirável. Pelo menos tão respirável como a luz do sol e o ar puro que lhes roubou durante décadas, entregando-os às trevas e à escravidão salarial. Neste livro do Adriano – fruto de três anos de trabalho e de um olhar, segundo ele, ainda virgem e não contaminado pelas rotinas da profissão – os mais velhos recordarão a face negra das chagas, das maleitas, mas também expressões que são retrato de tempos generosos. Encontrarão igualmente o orgulho da história que construíram sem desfalecimentos e de cujo exemplo todos somos devedores.

Quanto aos mais novos, irão descobrir os rostos que ergueram na mina o seu altar de todos os dias e a prova do que valem os homens que, não querendo ser medidos pelo seu tamanho ou condição, buscam a comunhão entre iguais. Quanto aos do ofício do Adriano – e estão aqui muitos – encontrarão neste livro o homem e a identidade do profissional da época dos negativos e da câmara escura que sabe que o valor da memória e da fraternidade não se trafica nem em tempos de ditadura digital. Além disso, o Adriano é também alguém que sabe cartografar os sítios sagrados e honrados onde os homens se superam, apesar das circunstâncias. E nos “ensinam o mundo”, como ele diz.

“Carvão de Aço” é um livro da cor do luto. Mas não simboliza o luto. É, acima de tudo, uma homenagem, um gesto de gratidão do Adriano que resgata a humanidade da escuridão e das trevas de um tempo. Para que a memória dos homens não se apague. Enquanto houver pessoas com o olhar, a sensibilidade e a consciência do Adriano, podemos estar descansados, pois haverá sempre uma luz ao fundo do túnel. Ele, e o seu trabalho, são a garantia de que nenhum homem ou memória serão enterrados vivos.

Obrigado!

.

.

.

Pode ver o livro “Carvão de Aço”, de Adriano Miranda, aqui.

.

.

.

Anúncios