HELENA ALMEIDA, A MINHA OBRA É O MEU CORPO, O MEU CORPO É A MINHA OBRA, 2015

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Helena Almeida

A minha obra é o meu corpo, o meu corpo é a minha obra

Fotografia: Helena Almeida / Texto: Peggy Phelan, Connie Buttler, Bernardo Pinto de Almeida / Entrevista: João Ribas e Marta Moreira de Almeida (curadores)

Porto: Fundação de Serralves / 2015

Português / 21,0 x 26,5 cm / 240 págs

Brochura

ISBN: 9789727393268

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Helena Almeida

My work is my body, my body is a work

Fotografia: Helena Almeida / Texto: Peggy Phelan, Connie Buttler, Bernardo Pinto de Almeida / Entrevista: João Ribas e Marta Moreira de Almeida (curadores)

Porto: Fundação de Serralves / 2015

Inglês / 21,0 x 26,5 cm / 240 págs

Brochura

ISBN: 9789727393275

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Helena Almeida

Corpus

Fotografia: Helena Almeida / Texto: Peggy Phelan, Connie Buttler, Bernardo Pinto de Almeida / Entrevista: João Ribas e Marta Moreira de Almeida (curadores)

Porto: Fundação de Serralves / 2015

Francês / 21,0 x 26,5 cm / 240 págs

Brochura

ISBN: 9789727393282

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Helena Almeida (Lisboa, 1934) é uma das artistas e fotógrafas portuguesas mais conhecidas e valorizadas, detentora de um corpo de trabalho único e diferente, reconhecido em todo o mundo.

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Este livro (e exposição), lê-se na apresentação que é feita pela Fundação de Serralves,

examina o seu trabalho de pintura, fotografia, vídeo e desenho ao longo de quase cinco décadas. A exposição salientará a importância do corpo – que regista, ocupa e define o espaço – e o seu encontro performativo com o mundo nas obras realizadas pela artista de meados dos anos 1960 até à atualidade. Além das pinturas “habitadas” e das séries fotográficas pelas quais é mais conhecida, serão mostradas na exposição obras raramente exibidas ao longo da sua carreira artística. Por meio da sua pintura abstrata inicial, Helena Almeida introduz as preocupações centrais que definem a sua prática artística numa diversidade de disciplinas, nomeadamente o interesse em ultrapassar os limites do espaço pictórico e narrativo que sempre desempenhou um papel fundamental na obra da artista. Como Helena Almeida afirma: “A minha pintura é o meu corpo, a minha obra é o meu corpo”. “

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A fotografia de Helena Almeida questiona os limites da imagem, da fotografia, do desenho, da pintura e da representação, sempre com base na autorrepresentação.

Helena Almeida, filha do escultor Leopoldo de Almeida, tirou o curso de pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1961 ?), surgindo as primeiras obras em 1966 e desenvolvendo atividade continuamente até à atualidade.

A sua primeira exposição tem lugar em 1967, na Galeria Buchholz, na Rua Duque de Palmela, em Lisboa, sendo mostradas fotografias de duas paredes dessa exposição. A sua obra é então ainda e só pintura.

Desenvolve o seu trabalho, centrada no desenho e na pintura. Em meados dos anos 70, no pós-25 de abril, explora o desenho, com a independência do traço, a liberdade deste, o poder sair do papel, viver fora do papel. “Sentia-me presa, queria liberdade”, diz em entrevista a João Ribas e Marta Moreira de Almeida (p. 131). A fotografia é o suporte que lhe permite essa representação.

Passei para a fotografia através do desenho. Foi o desenho dos fios (colagens de fios de crina) que me obrigou à necessidade de ser fotografada. Queria pegar no fio com os dedos, para demonstrar que a linha no papel se tinha tornado sólida, se tinha libertado do papel, podia ser sentida com os dedos, entrava por nós, pelas nossas casas, e só através das fotos isso podia ser exprimido e representado.”,

diria em entrevista a Helena Vasconcelos in Storm Magazine (2009, citada por Maria de Fátima Lambert, em “Habitar em Desenhos e pinturas – Helena Almeida”).

As fotografias são registadas pelo seu marido, o arquiteto e escultor Artur Rosa (Lisboa, 1926), que dispara as fotografias (sobre este assunto, ver o livro editado pelo Módulo – Centro Difusor de Arte, em 1978, aqui).

Logo depois, é a pintura que se liberta da cor. A pintura, a tinta, a cor, surge por cima da fotografia. E a cor, o azul, sempre (quase sempre) o azul.

Uso o azul porque é uma cor espacial. (…) Tem de ser azul. Às vezes ponho vermelho; é uma tinta que tem outros significados, é o peso. Uso-o quando não estou a querer fazer o espaço. Uso o azul para mostrar o espaço; ou quando abro a aboca, aí ponho o azul. É mesmo o espaço, é engolir a pintura. É agarrar na pintura… Tem de ser o azul.”,

refere Helena em entrevista aos curadores da exposição (p. 132)

Surgem assim as suas séries “Desenho habitado” e “Pintura habitada” (1975, 1976, 1977), que prosseguem nos anos seguintes com outras séries, como “estudo para um enriquecimento interior”, 1977-78, “Ouve-me”, 1978 e 1979 ou “Sente-me”, 1979 ou “A casa”, 1979: a liberdade do traço que se materializa e da cor que se destaca sobre a fotografia.

Paralelamente a série “Tela habitada” (1976), quando veste o quadro, processo iniciado com “Tela Rosa para Vestir”, 1969, quando regista em fotografia pela primeira vez. A fotografia, a preto e branco, sempre a preto e branco, a base do seu trabalho. Como diz ao Expresso, em entrevista a Cristina Margato («Helena Almeida: “Vou vivendo a minha vida como se fosse eterna”», E. A revista do Expresso, n.º 2293, 08.10.2016, pág. 30-37):

 …“Tela Rosa para Vestir” [1969], em que não se via o rosa, por ser uma fotografia a preto e branco. Gostei muito desse efeito, e as fotografias passaram a ser sempre a preto e branco. Consegui conter o desejo da cor. Adoro a cor. Ainda ponho aquele azul.”

A presença na Bienal de Veneza de 1966 e o contacto com o trabalho de Lucio Fontana, foi determinante para a sua obra: “Fiquei estarrecida. Aquele buraco que ele fazia…”, (p. 130).

A tela, o quadro, deixa de ser algo exterior ao artista, para fazer parte dele (para um pintor, uma obra sua faz sempre parte de si). A tela é uma parte do artista – e dizê-lo de forma convincente, através da própria tela – da imagem da tela, da fotografia da peça, que é a peça em si.

Helena ao passar para trás da tela – o artista está, por definição, à frente da tela – desafia o espetador a posicionar-se no outro lado da tela, a passar para o outro lado. Como ela própria refere a Cristina Margato, “eu estou a pintar para a frente para pôr o outro no meu espaço, no espaço do quadro, ao mesmo tempo que me coloco no espaço da pessoa que está a ver.”

Por outro lado, por estar atrás da tela, sentia-se livre da pintura,

sentia-me livre, sentia que ao pé dos outros era livre. Que me tinha libertado de certa maneira. Que tinha engolido a pintura. Que fiz tudo o que se pode fazer à pintura. Depois, quando a minha negociação com a pintura acabou, estava livre. Agora sou eu a minha obra.” (p. 131).

O seu trabalho prossegue, com base na fotografia, mas onde as formas surgem como manchas, desenhos. Deixam de ser o traço da crina ou a mancha azul. O desenho foi sempre uma paixão e uma constante:

“Desenho desde pequenina. Fazia os deveres e ia logo desenhar. Para mim, o desenho sempre foi um recreio. Era uma coisa muito boa, que eu adorava fazer. E continua a ser. Estou feliz quando estou a desenhar.” (Margato)

O desenho é, assim, a base dos outros projetos (para além do estudo do projeto, prévio à concretização): o registo fotográfico é um registo de desenho, sejam ‘manchas’, como em “Negro Agudo”, 1981 ou “A Casa”, 1983, ou as vestes, como em “Negro Espesso”, 1981 ou pigmento: “Saída Negra”, 1995, “Sem título”, 1996 ou “A onda”, 1997.

Em “Dentro de mim”, 1998, 2001, é a própria autora – como sempre – mas aqui apenas ela, que forma a figura (pontualmente, o pigmento ou a cor vermelha). Dentro de mim é como que uma homenagem, um abraço, um carinho ao atelier – o seu espaço de criação, onde praticamente todos os seus trabalhos foram criados – o atelier que foi também o atelier do seu pai – o atelier onde, em criança, passou horas deliciada, onde foi, também, modelo do pai – o que de algum modo se reflete no seu trabalho, na exigência das posições que assume nas suas fotografias.

“Seduzir”, 2001 e 2002, prossegue como uma dança, no atelier. É o espaço do atelier. “Seduzir”, 2001, são as mãos e os pés que tocam o chão do atelier, que o sentem, que o acarinham. Seduzida pelo espaço – sempre. Em “Seduzir”, 2002, já é a dança de sentir o espaço todo. E o vermelho, no pé que liga ao chão, como o mesmo sangue.

“Dois espaços”, 2006: sentada, centrada, no atelier: o espaço físico e : o espaço emocional, o espaço do atelier e o espaço de Helena, o espaço do trabalho e o espaço da vida, o espaço e o tempo.

“O abraço”, 2006, com o marido, os dois, nas duas imagens. A cumplicidade mútua da criação, da vida, do trabalho produzido. Reforçado por “Sem Título”, 2015, com o marido, juntos pelo fio (crina?) que os une nas pernas, num caminhar juntos, ao longo de tantos anos – pelo atelier e pela vida toda.

Um último projeto, de 2012, “Desenho”. O papel do desenho regressa à imagem, mas o desenho que agora liberta é a própria Helena Almeida.

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Para Helena o seu trabalho não se trata de fotografia, vinca-o bem:

Isto não tem a ver com fotografia. Tem a ver porque é o meio. Só tem a ver com pintura.”

diz a Margato. E João Ribas acrescenta (Sérgio B. Gomes, “Dentro do corpo e da obra de Helena Almeida”, Público, 16.10.2015):

“Helena Almeida não é uma pintora, mas um corpo em permanente performance”, e o desenho – que é também uma constante na sua obra – é “uma forma de ela expressar o seu pensamento”. “

Para Helena Almeida (Margato):

Porque o meu trabalho é muito característico do meu tempo.”

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Helena Almeida, A minha obra é o meu corpo, o meu corpo é a minha obra, 2015

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Os autores:

  • Bernardo Pinto de Almeida é historiador e crítico de arte, Professor Catedrático na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, escreve “Signos de uma escrita imóvel”;
  • Cornelia Buttler é Curadora Chefe do Hammer Museum da Universidade de Los Angeles, “Fora da moldura: A tela habitada de Helena Almeida” e
  • Peggy Phelan é Professora de Teatro e Performance e Inglês da Universidade Stanford, escreve “Helena Almeida: o espaço no limite da imagem”.
  • A entrevista a Helena Almeida é efetuada pelos comissários da exposição: João Ribas, Diretor Adjunto e Curador Sénior, e Marta Moreira de Almeida, curadora do Museu de Arte Contemporânea de Serralves.

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Helena Almeida representou Portugal duas vezes na Bienal de Veneza, em 1982 e 2005, entre outras exposições internacionais refira-se as realizadas na Fundación Telefónica, Madrid (2009), The Drawing Centre, Nova Iorque, Bienal de Sydney (2004) e no Centro Galego de Arte Contemporânea, Santiago de Compostela (2000).

Como consagração da sua obra, a Fundação de Serralves promoveu a realização de uma exposição retrospetiva abrangendo os vários períodos da sua obra, acompanhada de um excelente catálogo que conhece três edições: português, inglês e francês e que acompanha a exposição, a qual esteve patente na Fundação de Serralves, de 17 de outubro de 2015 a 10 de janeiro de 2016, e com o título “Corpus”, no Jeu de Paume, na Place de la Concorde, em Paris, de 09 de fevereiro a 22 de maio de 2016 (a par das exposições “Robert Capa et la couleur” e “François Kollar, un ouvrier du regard”) e em Bruxelas, no Wiels – Centre d’Art Contemporain, de 10 de setembro a 11 de dezembro de 2016.

Ainda no âmbito da consagração, a revista Aperture, n.º 221, Winter 2015, sobre o tema Performance, dedica a capa e 12 páginas no interior à obra de Helena Almeida, com texto de Delfim Sardo.

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Fundação de Serralves (fotografia), Aspetos da exposição na Fundação de Serralves, 2015-2016

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A entrevista a Cristina Margato, «Helena Almeida: “Vou vivendo a minha vida como se fosse eterna”», E. A revista do Expresso, n.º 2293, 08.10.2016, pág. 30-37, pode ser lida aqui.

 

O artigo “Dentro do corpo e da obra de Helena Almeida” de Sérgio B. Gomes, Público, 16.10.2015, pode ser lido aqui.

 

O artigo de Maria de Fátima Lambert, “Habitar em Desenhos e pinturas – Helena Almeida”, pode ser lido aqui.

 

Sobre a exposição, no site da Fundação de Serralves, aqui, no site do Jeu de Pomme, Paris, aqui e no site do Wiels, Centre d’Art Contemporain, Bruxelas, aqui.

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