JORGE MOLDER, ANATOMIA E BOXE, 1997

 

 

 

Jorge Molder

Anatomia e Boxe. Anatomy and Boxing

Fotografia: Jorge Molder / Texto: Maria Teresa Siza (“Apresentação”), Jorge Molder (“Breve Glossário”)

Porto: Centro Português de Fotografia / Novembro 1997

Português e inglês / 20,1 x 25,9 cm / 80 págs., não paginado

Brochura com sobrecapa / 1000 ex.

ISBN: 9728451008

 

 

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Jorge Molder inicia “Anatomia e Boxe” com um “Breve Glossário”, com registo de dicionário de diversos termos: Luta, Ring, Teatro, Sono, Dissecar, Brilhar, Agonia, Apropriação, Inerrável, Inerte, Golpe, Gelo, Anatómico, Derrota, Glória, Ilusão, Esquecimento, Glossário, Breve.

 

 A série Anatomia e Boxe (…) Composta por 40 fotografias impressas a gelatina de sais de prata, trata-se de um conjunto essencial no percurso do artista, na medida em que, na exclusiva utilização do seu rosto e corpo como objecto das imagens, fica estabelecida uma relação performativa com a fotografia que se viria a adensar ao longo da sua obra, nomeadamente na série Nox com que representou Portugal na Bienal de Veneza de 1999.

O seu percurso fotográfico iniciou-se, em termos públicos, em 1977, com uma primeira exposição individual intitulada Vilarinho das Furnas (uma encenação), paisagens com água, casas e um trailer que incidia sobre uma intervenção da artista Ana Hatherly.

Seria, no entanto, dez anos mais tarde que se viriam a operar duas mudanças importantes na sua obra, determinantes para o seu percurso posterior: em primeiro lugar, a opção por se utilizar como modelo das suas imagens, num recurso sistemático à auto-representação; em segundo lugar, a opção pela utilização de imagens de grande escala, que corporalizam a relação com o espectador.

A primeira dessas opções iria construir um caminho de uma enorme coerência, sendo de referir que o dispositivo da auto-representação não se confunde com o auto-retrato. Nas imagens de Jorge Molder nas quais o próprio artista surge não existe, na maior parte dos casos, nenhuma pesquisa psicológica ou qualquer investigação identitária, mas a apresentação de galerias de personagens que performam actos, assumem posturas, encenam ações, realizam gestos. Estas personagens são frequentemente confrontadas com a sua própria imagem, com o seu reflexo, tornando presente a figura do Duplo (ou Döppelganger), recurso estilístico de divisão do eu que povoa a literatura gótica do século XIX. As imagens do personagem que cai, desvanece, renasce ou nos confronta são sempre inquietantes e, nalguns casos remetem para referências literárias (de Melville a Georges Perec), bem como para outras imagens da história da fotografia (de Bill Brandt a Paul Outerbridge), ou do cinema (de Fritz Lang a Charles Laughton). Sobretudo, elas confundem a nossa necessidade narrativa, construindo novelos complexos de fragmentos que escapam sempre a qualquer tentativa de interpretação unitária.

O uso de imagens de grande formato, com uma escala corporalizada, desvia a fotografia da dimensão manipulável do livro e concentra no processo expositivo, na presença física e objectual da imagem, a relação fenomenológica com o espectador.

A série Anatomia e Boxe, agora apresentada pela primeira vez em Lisboa, representa um momento determinante na obra de Jorge Molder. Incluindo vários subconjuntos no seu interior, as imagens fazem relacionar dois teatros de exposição do corpo, do seu massacre e das suas metamorfoses: o ringue de boxe e o teatro anatómico. Em ambos os casos o tema é a observação de um corpo que é submetido à violência da manipulação e da transformação e que performa esse processo. Constituindo um dos primeiros momentos de representação performativa na obra de Jorge Molder, a série mostra, simultaneamente com delicadeza e frontalidade, a fragilidade do humano e a tensão do corpo atraído pela gravidade, assumindo o tema da queda (um dos grandes temas da história da representação do corpo na arte) como a forma última da fragilidade da vida.”

Delfim Sardo, texto da folha de sala da exposição patente no Chiado 8 – Espaço Fidelidade Arte Contemporânea, no Largo do Chiado, 8, em Lisboa, de 18 de Julho a 30 de Setembro de 2016.

 

 

 

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Jorge Molder, Anatomia e Boxe, 1997

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A série Anatomia e Boxe foi apresentada pela primeira vez como exposição inaugural do Centro Português de Fotografia, no edifício da Cadeia da Relação no Porto, de novembro de 1997 a fevereiro de 1998.

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Apresenta-se no Chiado 8 – Espaço Fidelidade Arte Contemporânea, no Largo do Chiado, 8, em Lisboa, de 18 de Julho a 30 de Setembro de 2016; pertence à Coleção António Cachola, integrante do Museu de Arte Contemporânea de Elvas.

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António Bracons, Fachada do edifício do Largo do Chiado, 8, detalhe, 2016

 

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Folha de sala. O verso  é composto pelo cartaz da exposição. 69,2 x 51,0 cm, dobrado.

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A montagem da exposição, pelas diferentes salas, permite um respirar profundo das imagens, segundo uma sequência diferente da do livro (embora mantendo, naturalmente a sequência de algumas imagens, apresentando-se 21 das 44 fotografias da obra publicada), conduz a uma leitura, de um modo, distinta, de outro, não divergente da daquele.

Por outro lado, o grande formato das imagens expostas (1,02 x 1,02 m), contrastando com o formato pequeno e intimista no livro (16,1 x 16,1 cm), com os fundos negros e o vidro, criando os reflexos naturais, quer do espectador, quer de outras imagens expostas, conduz por vezes a jogos que agravam a dimensão do desafio, da luta, do magoado, do tombado ou da “morte” (o espaço  do ringue de boxe ou da anatomia, como arenas do corpo tombado, caído), desafiando leituras múltiplas.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2016

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Pode ver mais aqui.

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