OS INQUÉRITOS [À FOTOGRAFIA E AO TERRITÓRIO] ∙ PAISAGEM E POVOAMENTO, MUSEU NACIONAL DE ETNOLOGIA, 2016

 

 

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António Bracons, Museu nacional de Etnologia, 2016.

 

 

Os Inquéritos [à Fotografia e ao Território] ∙ Paisagem e povoamento, é uma exposição com curadoria de Nuno Faria que foi inicialmente apresentada no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), em Guimarães, de 17 outubro 2015 a 14 fevereiro 2016, e que se apresenta de 15 de abril a 16 de outubro no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa, enriquecida com “uma seleção de objetos das coleções do Museu Nacional de Etnologia, colocados em diálogo com os diversos olhares, artísticos ou científicos, que estruturam a narrativa expositiva” (MNE), procurando-se destacar a produção científica de Jorge Dias e da sua equipa, que está na origem da fundação do próprio Museu.

 

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 Cartaz da exposição no CIAJG, em Guimarães

 

Esta exposição abarca um tema vasto e amplo, porém fundamental para o nosso próprio conhecimento.

Os Inquéritos (à paisagem e povoamento) são razão para a fotografia do território, de forma sistematizada, organizada, de modo amplo e abrangente ou local e temático, pontual. Temos assim a nossa paisagem – e a sua evolução – as pessoas, os hábitos e costumes, as vivências. Assim, para além dos Inquéritos efetuados no séc. XIX e XX, são apresentados diversos projetos fotográficos dos últimos anos, de fotógrafos de destaque, em que a paisagem e o povoamento estão presentes de forma específica. A apresentação é feita pelo fotógrafo, seguindo-se uma ou mais séries (parte).

 

 

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Cartaz da exposição no Museu nacional de Etnologia, Lisboa.

 

Escreve Nuno Faria, curador da exposição:

A fotografia tem um duplo eixo operativo que se desloca entre o documento e o discurso. O território tem sido um lugar de indagação e de reflexão, de constituição individual e coletiva. Transversal a várias disciplinas, à fotografia tem cabido um papel central nessa tarefa de mapeamento. Tendo como ponto de partida a expedição à Serra da Estrela, realizada sob a égide da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1881, que contou com a colaboração da Sociedade Martins Sarmento, a exposição reúne um conjunto de inquéritos ao território em que a fotografia (e em alguns casos o filme) assume particular relevância.

Pondo lado a lado um amplo conjunto de imagens, documentos e publicações, alguns deles não antes vistos em contexto museológico, oferece-nos uma miríade de retratos do território português, tão diversos quanto fascinantes, que nos induzem a uma reflexão sobre nós mesmos e o lugar em que nos foi dado viver.“

 

Nesta apresentação da exposição, recorro aos textos da exposição, especialmente bem escritos e sintéticos.

 

 

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António Bracons, aspeto geral da exposição, 2016.

 

A iniciar a exposição temos um conjunto de fotografias de Duarte Belo, que é sem dúvida o fotógrafo contemporâneo que, de forma sistemática, tem um maior registo da paisagem portuguesa, natural e construída. Entre as paisagens, encontramos também detalhes da sua produção, como algumas câmaras fotográficas ou dezenas de filmes, formato 120, a secar.

 

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 Duarte Belo, Portugal Próximo, 1991-2015

 

 

Realizada em 1881, sob a égide da Sociedade de Geografia de Lisboa, a Expedição Científica à Serra da Estrela, reuniu um amplo conjunto e disciplinas, organizadas em secções – Medicina, Etnologia, Arqueologia, Meteorologia, Botânica, entre outras – com o objetivo de levantar de forma sistemática as características de um território desconhecido, envolto numa aura de mistério e objeto das mais excêntricas lendas.

O lugar da fotografia neste inquérito à Serra da Estrela é mitigado: se pela primeira, a fotografia tem “direito de cidade” entre as outras disciplinas, o certo é que, de entre as muitas imagens que nos chegaram dessa época, nenhuma pode com segurança ser atribuída aos fotógrafos que acompanharam a expedição. Por outro lado, mostrasse um conjunto de documentos que foram produzidos no âmbito da expedição, nomeadamente a carta convite dirigida a Francisco Martins Sarmento para dirigir a área de arqueologia e os relatórios de algumas das secções envolvidas, cedidos pela Sociedade Martins Sarmento, e algumas das cartas concebidas pela secção de cartografia, cedidas pela Sociedade de Geografia de Lisboa. Reúne-se ainda um conjunto de imagens, cedidas por vários colecionadores particulares e resgatadas de algumas obras de época, que dizem respeito ao imaginário deste alto lugar quase mítico.”

 

 

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Expedição Científica à Serra da Estrela, 1881

 

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 “Reproduções fotográficas a partir de cartões-postais do período da Expedição”.

 

 

Orlando Ribeiro (1911-1997) é unanimemente considerado como o pai da geografia moderna em Portugal. Desenvolveu uma extensa e fecunda obra que teve grande repercussão internacional. Escreveu obras de importância seminal sobre Portugal, que se constituem ainda hoje como clarividentes análises e retratos deste lugar onde viveu e cuja influência perdura no tempo, cujo exemplo maior é Portugal o Mediterrâneo e o Atlântico (1945), que marcou fortemente os levantamentos que arquitetos e etnólogos viriam a empreender a partir dos anos 50.

Orlando Ribeiro fotografou exaustivamente o território português a partir de 1937. Durante quase cinco décadas fixou, pela imagem, o solo e as construções que nos rodeiam. Nesta exposição, mostra-se um conjunto de fotografias exclusivamente centradas na Serra da Estrela, um dos lugares de predileção das suas investigações, bem como um conjunto de pequenas fotomontagens originais em formato panorâmico do mesmo lugar.”

 

 

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Orlando Ribeiro, “Fotomontagens”, cc. 1940-1960

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Orlando Ribeiro, “Composição com vários documentos fotográficos”, cc. 1940-1960

 

 

A Serra da Estrela também é mostrada no olhar contemporâneo de Duarte Belo.

Duarte Belo é formado em arquitetura e é fotógrafo.

Desde o princípio dos anos 1980, tem levado a cabo o mais extenso e abrangente levantamento fotográfico conhecido do “espaço português”, como o autor prefere designar.

O seu trabalho, consubstanciado em duas grandes obras Portugal – O Sabor da Terra (1996-1997), em 14 volumes, e Portugal Património (2007-2008), em 10 volumes, participa da descoberta progressiva de um país, a natureza geológica e coberto vegetal das paisagens, a imensa complexidade das marcas deixadas no solo pelos gestos humanos que permanecem na terra ao longo de milénios e definem uma identidade, a marcação do território com formas construídas, desde as gravuras rupestres do Paleolítico, ou um abrigo de pastor, até às mais contemporâneas formas arquitetónicas das grandes cidades.

Apresenta-se um conjunto de imagens feitas em diversas incursões à Serra da Estrela, um dos lugares a que o autor recorrentemente volta e que mais intimamente conhece e um outro conjunto de imagens representativo da multiplicidade de abordagens, práticas e metodologias que dão forma ao trabalho de Duarte Belo.”

 

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Duarte Belo, Serra da Estrela, 1991-2015

 

 

Pedro Tropa desenvolve um projeto artístico na paisagem da Serra da Estrela.

Pedro Tropa é artista e fotógrafo. Há cerca de uma década que o seu trabalho em fotografia, texto, som e desenho está fortemente associado à sua prática enquanto montanhista.

“Passo em falso (refúgio)”, projeto que apresenta nesta exposição e que se enquadra neste campo de pesquisa, foi iniciado em 1998, juntamente com Teresa Santos, e retomado em 2015, a solo, e consiste na projeção e construção de um abrigo/refúgio de uso comunitário – numa primeira fase, em colaboração com o Centro de Arte Contemporânea, Porta 33, no Funchal, entre o Pico do Areeiro e o Pico Ruivo, na ilha da Madeira, e numa segunda fase na Serra da Estrela, antes algures perto das penhas douradas, estando atualmente projetado para junto de uma lagoa, na zona das chancas, no planalto central da Serra. A instalação que apresenta nesta exposição é um constructo conceptual e projetual que enuncia, por um lado, as diferentes dimensões do abrigo/refúgio por vir (um lugar para o repouso e a observação, antes e depois da caminhada, o projeto construtivo) e, por outro lado, é já o abrigo em si, dispensando, em última instância, a sua construção.”

 

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Pedro Tropa, Passo em falso (refúgio), 2008-2015

 

 

No âmbito dos Inquéritos, não pode ser esquecido o levantamento de vulto foi o “Inquérito à Arquitetura Regional:

Entre 1955 e 1957, um conjunto de arquitetos, liderados por Keil do Amaral e no âmbito do quadro institucional do Sindicato Nacional dos Arquitetos, empreendeu um inquérito à arquitetura regional à escala do território de Portugal Continental em que a fotografia desempenhou um papel fulcral. Munidos de câmaras Rolleiflex, organizados em equipas de três, dividiram o país em seis zonas e, apostados em detetar os traços de modernidade da arquitetura regional, popular/vernacular ou erudita, realizaram aquele que é um dos mais originais e eloquentes retratos das formas de edificação e da morfologia do território português, bem como dos seus habitantes.

O projeto viria a ser editado em livro em 1961, sob o título de Arquitectura Popular em Portugal, e seria objeto de mais quatro edições, cuja última, em 2004, retoma com exatidão a morfologia edição original, em dois volumes. Em 2011, a Ordem dos Arquitectos, assinalando os 50 anos da primeira edição, decidiu iniciar o processo de salvaguarda e preservação do espólio fotográfico, constituído por milhares de fotografias, que seria pela primeira vez revelado ao público numa exposição intitulada “Território Comum, Imagens do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa, Portugal 1955/57”, na Fundação EDP, no Porto, em abril de 2013.”

 

 

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Inquérito à Arquitetura Popular Portuguesa, 1955-1957

 

 

Paralelamente e noutra dimensão, o Centro de Estudos de Etnologia teve um papel fundamental na realização de pesquisas sistemáticas.

Entre 1947 e o princípio da década de 1980, um grupo de etnólogos formados e liderados por Jorge Dias no âmbito do Centro de Estudos de Etnologia, que mais tarde viria a dar origem à criação do Museu Nacional de Etnologia, empreendeu um conjunto sistemático de pesquisas no território nacional, que resultou num alargado conjunto de publicações e na criação dos valiosos espólios fotográficos, fílmicos, sonoros e de desenho etnográfico que integram os arquivos do Museu.

Jorge Dias, Margot Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e, mais tarde, Benjamim Pereira, constituíram o núcleo duro de um dos mais vibrantes, apaixonantes e apaixonados projetos coletivos de produção de conhecimento ocorridos em Portugal na segunda metade do século. Identificando um vasto conjunto de práticas e de atividades ancestrais que se sabia estarem em progressivo desaparecimento, num país em mudança, os etnólogos cobriram todo o território nacional, incluindo os arquipélagos da Madeira e dos Açores, dando corpo a uma etnografia cujos resultados só foram possíveis pelo seu profundo espírito de missão e dedicação dos membros grupo ao projeto que os uniu, assim como pela amizade que cultivaram entre si ao longo de décadas.”

 

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Fichas do Arquivo do Centro de Estudos de Etnologia.

 

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 “Reprodução de ficha do Arquivo do Centro de Estudos de Etnologia (Ref. «Pastoreio 295»), elaborada por Benjamim Pereira em 1978 para identificação da documentação de terreno da choça AY.721 adquirida para a coleção do Museu Nacional de Etnologia.”

 

 

O Museu Nacional de Etnologia apresenta a referida “Choça, abrigo móvel de pastor, constituída por cinco elementos independentes, com armação de varas em madeira, revestida no exterior por palha de centeio, e por giestas, papel e plástico no interior. Adquirido ao pastor Gervásio Nogueira que, em conjunto com a sua mulher, o utilizava por longos períodos para guardar os rebanhos no campo.”

 

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António Bracons, Choça. “Tolosa, Nisa, 1977.”, 2016

 

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2016

 

 

Apresenta-se também alguns dos equipamentos do Centro de Estudos utilizados nos levantamentos realizados.

Estes equipamentos de registo do Centro de Estudos de Etnologia encontram-se na origem de alguns dos mais relevantes fundos do património arquivístico do Museu Nacional de Etnologia, por seu turno fundos documentais de indiscutível referência para o conhecimento das práticas tradicionais que atualmente designamos por “Património Cultural Imaterial”. Estes meios de registo foram utilizados sistematicamente a partir de 1947, no que respeita à fotografia, e de 1960/1961, respetivamente para o uso do filme e do som, este último instrumento indispensável nas recolhas da música popular portuguesa, realizadas por Ernesto Veiga de Oliveira e por Benjamim Pereira a par das campanhas de constituição da coleção de instrumentos musicais. A estes meios acresce ainda o desenho etnográfico, cuja excelência, primeiro com Fernando Galhano e depois com Manuela Costa, constituiu uma das características distintivas da produção científica do Centro e, a partir de 1965, do Museu. Cerca de 86.400 fotografias, 14.000 fichas de trabalho de terreno, 1.600 desenhos etnográficos, 500 fonogramas de recolhas de música popular, 26 filmes de 16 mm, c. de 50 estudos de caráter sistemático e c. de 350 artigos científicos são alguns dos indicadores da produção do Centro ao longo de quatro décadas que documentam as coleções do Museu relativas à vida tradicional e ao património imaterial nacional em Portugal.”

 

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“Câmara fotográfica (Leica M3, 35 mm) e respetivos acessórios, adquirida em 1958 pelo Centro de Estudos de Etnologia e utilizada sistematicamente nas campanhas de investigação desenvolvidas até à década de 1980.”

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 “Câmara fotográfica (Hasselblad 500C; 6 x 6 cm) adquirida pelo CEE em 1969, veio a ser utilizada, a partir de finais da década de 1960, para a documentação fotográfica, em estúdio, das peças adquiridas para as coleções do Museu, para fins de inventário e publicação em catálogos.”


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“Câmara de filmar (Bolex Paillard H16, 16mm) adquirida em 1960 e utilizada na realização dos primeiros filmes do CEE.”


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“Gravador de som (Phillips All Transistor EL3585), alimentado a pilhas, adquirido pelo CEE nas campanhas de recolha dos instrumentos musicais e da música popular portuguesa nos Açores, em 1963.”

 

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“Gravador de som (Nagra III), adquirido após 1971, para captação de som destinado a sincronização com os filmes realizados pelo CEE.”

 

 

O uso da imagem em movimento constitui pois uma das linhas de ação do Centro de Estudos, dado que

Das várias linhas de pesquisa desenvolvidas pelo Centro de Estudos de Etnologia (CEE), ocupa lugar de relevo a da produção fílmica, desenvolvida por Benjamim Pereira entre as décadas de 1960 e 1980, e que aqui é ilustrada por uma seleção de três filmes dedicados às atividades agrícolas e agromarítimas tradicionais no Norte de Portugal.

Para além da sua importância, no plano especificamente metodológico, como meio de documentação das principais atividades tradicionais estudadas pelo CEE, esta linha de trabalho exprime igualmente a íntima articulação existente entre o CEE e o Museu Nacional de Etnologia, que, tendo sido formalmente criado em 1965, inicia então a constituição, por recolhas sistemáticas no terreno, das suas coleções sobre as atividades tradicionais portuguesas.

A produção fílmica do CEE veio a dar origem a um dos mais importantes fundos do Arquivo Fílmico do Museu Nacional de Etnologia, tendo estado igualmente na origem da importante parceria internacional estabelecida em 1970 com o Institut für den Wissenschaftlichen Film (Göttingen).”

 

 

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“Uma Lavra em Bucos”, 16 mm, 33’, P/branco, Sem som, Autoria: Benjamim Pereira, Centro de Estudos de Etnologia, Cabeceiras de Basto, Braga; 1978, MNE: AFG.F080

 

A exposição percorre diversos autores portugueses e o seu trabalho, regra geral recente, apresentando de cada autor parte significativa de um dos seus projetos, os quais se integram no tema da paisagem ou dos costumes ou hábitos portugueses.

 

Alberto Carneiro realizou entre 1973 e 1981 um conjunto de intervenções no norte do país, no espaço natural e rural:

Entre 1973 e 1981, Alberto Carneiro realizou um conjunto de intervenções no espaço natural e rural do norte de Portugal, nas quais o recurso à fotografia e o uso do próprio corpo são os traços recorrentes e distintivos. São trabalhos onde se cruzam a memória de uma infância intensamente vivida no espaço da ruralidade, em inconsciente comunhão com a natureza, e a conceptualização dessa vivência, processada através de uma estratégia de representação que se aproxima dos códigos da land art, nomeadamente através do uso da fotografia, a organização em séries e a performatividade. Os quase imperceptíveis gestos que ecoam as práticas agrícolas, a construção e a marcação da paisagem, através de abrigos, muros e outros dispositivos, o tempo geológico, o espírito do lugar, são tematizados num conjunto de rituais estéticos que recuperam os elementos como potência vital, passagem e transmissão.”

 

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 Alberto Carneiro, Arte Corpo / Corpo Arte, 1978-1979

 

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Alberto Carneiro, Floresta, 1978

 

Durante a década de 1980, Luís Pavão realizou um alargado e demorado conjunto de incursões a vários concelhos nas serras do Caldeirão e de Monchique, em território algarvio.

Sozinho ou acompanhado de Cristiana Bastos, antropóloga que estudou as vivências, formas de povoamento e de exploração e os processos de transformação deste singular território em que a ruralidade e uma economia de subsistência perduravam e, em grande medida, ainda perduram, Luís Pavão documentou em imagem, de forma sistemática e alargada, com caráter etnográfico, as pessoas e as suas práticas, os lugares, as edificações e os gestos quotidianamente repetidos.”

 

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Luís Pavão

 

Jorge Graça apresenta da sua série “Eclipse”.

Jorge Graça é fotógrafo. Vive e trabalha no Algarve. Desde há cerca uma década tem vindo a fazer um conjunto de fotografias captadas em noites de lua cheia em vários lugares do litoral e do interior do território algarvio, com longos tempos de exposição e sem recurso a manipulações ou ao uso de iluminação artificial. Os lugares que fotografa, em ambiente rural ou marinho, distantes de qualquer tipo de luz artificial, são aqueles a que costuma deslocar-se em longas caminhadas de exploração. Nestas imagens, mais do que a luz da escuridão é o limite da nossa visão que se revela. Em rigor, o artista não fotografa aquilo que vê, usa a fotografia para ver. Atente-se na estranheza visual destas imagens: nelas, as sombras, o chão, os objetos, o céu, as árvores, têm uma densidade atmosférica que remete de forma incisiva para a cintilação simbólica e visionária que caracteriza este território.”

 

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Jorge Graça, série Eclipse, 2007, 2009, 2010, 2014

 

 

Álvaro Teixeira é fotógrafo. Nasceu e cresceu no seio de uma família de moleiros na região de Mondim de Basto.

Foi, desde muito jovem, iniciado às artes do ofício, tendo ajudado a construir com as próprias mãos um dos moinhos de água da família. Já depois de se ter formado e de consolidado uma prática como fotógrafo, respondendo à ameaça de que este raro complexo arquitetónico viesse a desaparecer devido à construção de uma barragem a jusante, Álvaro Teixeira começou a documentar os edifícios, os engenhos, o mecanismo, a paisagem deste lugar marcado há séculos pelos ciclos das estações e das colheitas e pelo fluxo do rio. É esse trabalho de anos que é agora mostrado pela primeira vez ao público.”

 

 

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Álvaro Teixeira, série Moinhos da Igreja, 2015

 

Eduardo Brito é fotógrafo e teórico da fotografia. Na exposição, apresenta Sob a Luz Quase Igual, um conjunto de imagens de uma viagem de automóvel entre Sagres e Carballal (Finisterra), feitas durante uma semana de Verão, por estradas nacionais e secundárias, sempre rente à costa, publicadas pela primeira vez em livro, com o mesmo título.

Como parte de uma road trip rumo a norte, Sob a Luz Quase Igual é o capítulo atlântico de um longo itinerário de periferias, de uma viagem pelo lado de fora da Europa. As fotografias deste trabalho foram feitas em película de médio formato.”

 

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Eduardo Brito, série Sobre a Luz Quase Igual, 2012

 

As periferias são também o objeto da paisagem quer urbana quer rural, de Paulo Catrica:

“Periferias” é um trabalho de encomenda do Centro Português de Fotografia a Paulo Catrica, realizado em 1997/98. Este trabalho é apresentado pela primeira vez na sede do Centro Português de Fotografia, edifício da Cadeia e Tribunal da Relação do Porto, de 24 de julho a 13 de setembro de 1998. As fotografias integram a Coleção Nacional de Fotografia.

A série “The inner circle”, resulta de uma encomenda do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa no final de 1998. Uma seleção de vinte destas fotografias integrou a exposição coletiva Lisboa Anos 1990 que teve lugar Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa, em janeiro de 2000. Esta série de 50 fotografias trata uma Lisboa autobiográfica, entre os lugares onde o autor viveu e estudou. Desenha um arco da Ajuda, Belém, Benfica, Carnide, Lumiar e e Nossa Senhora de Fátima, a parte Ocidental da cidade. Evitando o centro histórico esta inner-city ensaia uma arqueologia visual, como um corte estratigráfico, entre o impacto da especulação urbana do anos setenta e oitenta do século passado e a nostalgia dos estúdios da Tóbis no Lumiar ou das azinhagas de Telheiras e de Carnide.”

 

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Paulo Catrica, “Periferias”, 1998 e “The inner circle”, 1998

 

É também na paisagem das periferias que Álvaro Domingues centra o seu olhar, de modo distinto do de Catrica.

Álvaro Domingues é geógrafo. No âmbito da sua atividade académica e profissional tem produzido um amplo conjunto de estudos sobre a teoria da paisagem, tendo cunhado o conceito de “paisagem transgénica” para caracterizar lugares intersticiais, de natureza ambígua e de difícil nomeação, entre a rua e a estrada, o campo e a cidade. Em articulação com as suas investigações/deambulações pelo território português, e na boa tradição da disciplina, utiliza a fotografia como forma de fixar essas improváveis dinâmicas que marcam esses lugares. Esta seleção é constituída por imagens publicadas nos livros A Rua da Estrada (2009) e a Vida no Campo (2012), e do projeto editorial Volta a Portugal (no prelo), bem como imagens mais recentes do autor.”

 

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Álvaro Domingues, séries A Rua da Estrada (2009), a Vida no Campo (2012), e Volta a Portugal.

 

Reflexo das periferias, a prostituição de estrada é denunciada por Valter Vinagre:

Valter Vinagre é fotógrafo. Ao longo da sua extensa atividade, onde pontifica a fundação e dinamização do coletivo de fotógrafos Kameraphoto, tem abordado diversos aspetos da paisagem social, económica e cultural do território português. Com a série de fotografias “Posto de Trabalho”, realizada durante um longo período de tempo e cobrindo o país de norte a sul, regista e fixa um extenso conjunto de abrigos, estruturas efémeras que servem de apoio à atividade das mulheres que se prostituem à beira da estrada. As imagens, feitas ao nascer ou ao final do dia, com o recurso a uma iluminação artificial marcadamente teatral, surgem-nos como cenários, lugares abandonados e desumanizados onde se sente uma forte marca da presença humana.”

 

 

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Valter Vinagre, Posto de Trabalho, 2015

 

Pedro Campos Costa e Eduardo Costa Pinto mostram os seus projetos / livros através de pranchas dos mesmos.Duas Linhas” – Portugal visto paralelamente junto ao litoral e junto à fronteira, segundo duas linhas, em fotografais obtidas nas mesmas latitudes.

“Duas linhas” é um projeto editorial dos arquitetos Pedro Campos Costa e Nuno Louro, com desenho gráfico do Atelier R2, publicado em 2009. O projeto constitui-se como uma incursão no território português para conhecê-lo melhor como um todo e para melhor o podermos pensar e eventualmente ordenar. Nesse sentido, fizeram dois cortes no território, traçaram duas linhas paralelas no mapa – uma na costa, outra no interior. Cada um dos intervenientes percorreu uma dessas linhas e de dez em dez quilómetros para fazer uma fotografia e gravar um plano de 360 graus em vídeo. Concomitantemente, pediram aos fotógrafos Daniel Malhão e Nuno Cera para fotografar cinco pontos à escolha deles ao longo destas duas linhas. Este levantamento veio a ser publicado num livro com refinado projeto gráfico, que reúne um amplo conjunto de ensaios de vários especialistas oriundos de diferentes disciplinas que refletem sobre as inúmeras questões que o território levanta a quem o aborda.”

 

 

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Pedro Campos Costa e Nuno Louro, fotografia de Daniel Malhão e Nuno Cera, Duas Linhas

 

Em Sete Círculos, através de sete círculos concêntricos, definindo diferentes periferias, é registada a diferente paisagem:

“Sete Círculos” é um projeto sobre a paisagem de Lisboa e os seus limites. Limites físicos e interpretativos, feitos tanto do imaginário representativo cultural, individual e coletivo, que constrói a cidade, como dos processos e das relações sistémicas que nela têm lugar. Entendida como processo, a paisagem é dinâmica, tal como os seus limites. Este projeto tem por isso a ambição de superar a ideia de limite como linha que separa uma coisa de outra, terrenos contíguos, categorias de pensamento ou realidades mutuamente exclusivas. É antes a procura de uma lógica de limite que é tanto feita de fim como de início, de terra e de mar, do “Bem e do Mal”, de margem Sul e margem Norte, do eu e do outro. De limite em limite desenhámos círculos, também eles abstratos, mas que ganham signos e significados quando com eles nos comprometemos com o tempo da viagem, ou criamos relações de abertura no tempo-espaço.

E este projeto fala-nos assim da ideia de paisagem, de Lisboa, dos seus habitantes e da lógica dos seus limites; e do Tejo, um rio entre montanhas, que é também o rio da minha cidade.”

 

 

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Pedro Campos Costa e Eduardo Costa Pinto, fotografia de Tiago Casanova e Duarte Belo, Sete Círculos

 

Nuno Cera e Diogo Lopes em “Cimêncio” partem das paisagens suburbanas da Área Metropolitana de Lisboa:

Cimêncio é uma palavra criada por Luís Gouveia Monteiro.

O autor da mesma descreveu o “cimêncio” como “o sono profundo dos arredores” e forneceu uma entrada de dicionário: cimêncio, s.m. (do lat. coementu por aglutinação com do lat. silentiu). Sono profundo dos arredores | Construção imaginária; matéria-prima do espírito |Estado calcário que indicia conjuntura de tranquilidade | Mistura feita de cal e mistério, impermeável ao tempo. | União íntima; pausa fundamental | Suspensão de base ou fundamento. A partir destas ideias, Diogo Lopes e Nuno Cera fizeram um inquérito de paisagens suburbanas na Área Metropolitana de Lisboa entre 1998 e 2003. Esse inquérito resultou num livro, publicado em 2003, com chancela da Fenda e desenho gráfico de Álvaro Rosendo. Nesta exposição, apresenta-se o capítulo “Cimêncio Top 10”.”

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Nuno Cera e Diogo Lopes, série Cimêncio, 1998-2003

Integra ainda a exposição um projeto sonoro.

Carlos Alberto Augusto é compositor, designer sonoro e especialista em comunicação acústica. Desde 1975, leva a cabo uma prática continuada de levantamento de paisagens sonoras em Portugal, que participa da urgência coletiva que abrangeu vários quadrantes da sociedade em registar para preservar e melhor conhecer as práticas culturais e as especificidades de um território diverso e complexo como é Portugal. No projeto sonoro que concebeu para a exposição, convivem gravações de diferentes tempos e lugares, que remetem para duas linhas distintas na pesquisa que continua a empreender: o som contínuo como marca identitária do lugar e o som como elemento de orientação no espaço.”

 

 

 

Esta é sem dúvida a mais importante exposições temática de fotografia apresentada neste ano de 2016.

 

A exposição encontra-se patente no Museu nacional de Etnologia, na Rua Ilha da Madeira, ao Restelo, em Lisboa, de 15 de abril a 16 de outubro de 2016.

Sobre a mesma foi editado um livro homónimo pela Documenta / CIAJG.

 

 

 

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