FÉLIX MULA, MÓNICA DE MIRANDA, PAULIANA VALENTE PIMENTEL, NOVO BANCO PHOTO 2016

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Mónica de Miranda, Angola e Portugal, Félix Mula, Moçambique e Pauliana Valente Pimentel, Portugal, os fotógrafos selecionados para o prémio NOVO BANCO Photo 2016, encontram-se em exposição no Museu Coleção Berardo / Centro Cultural de Belém, Praça do Império, em Lisboa, de 18 de maio a 2 de outubro de 2016.

 

O júri de seleção foi composto por: David Santos, curador e sub-diretor da Direção Geral do Património Cultural, Lisboa, Paula Nascimento, curadora, arquiteta e diretora da Beyond Entropy Africa, Luanda e Pompílio Hilário Gemuce, artista e professor da Escola de Artes Visuais, Maputo.

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Os três projetos distintos apresentam diversas dominantes comuns.

Por um lado, todos os projetos mostram África: Félix centra-se no seu Moçambique, Mónica em Angola e Pauliana em Cabo Verde. África surge assim sobre diferentes olhares.

Uma dominante de todos os projetos é a paisagem e as pessoas. As pessoas fazem a paisagem e esta reflete-se nas pessoas.

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Mónica de Miranda (Porto, 1976), com Work Fields, tem as pessoas presentes nas fotografias de memória, de recordação, reproduções de fotografias antigas, retiradas de álbuns ou de quadros pendurados em paredes ou em molduras sobre os móveis, mostram-se com as marcas do tempo, das fixações, de dobras ou vincos, e alternam com fotografias de folhas de plantas.

No primeiro módulo da exposição, por trás destas fotografias, que oscilam com fotografias de folhas de plantas tropicais, um espaço de jardim, com plantas tropicais, traz à memória a vivência de um outro país, um outro continente. Como as fotografias, reprodução de fotografias a memória daqueles que ficaram noutro lado ou que já faleceram. Um vídeo oscila entre o interior da casa com as fotografias nas paredes e o espelho, o espelho que reflete, como que uma fotografia de quem se olha, mas que não fica registada; e intercalando com as imagens do interior, o exterior, onde uma jovem bailarina dança, em pontas, no chão de terra batida.

No compartimento seguinte, um conjunto de “dípticos”, uma imagem a preto e branco, antiga, uma memória de um espaço, sem gente, pequeno formato, dá lugar a uma imagem do mesmo espaço, recente, formato grande, fragmentada em expositor ou em molduras sucessivas, de um horizonte, a cor, habitado, com crianças ou uma bailarina jovem. Pode ser uma casa, um vale imenso ou a pista do aeroporto, esta desenvolvida em três frentes perpendiculares, como o espaço onde estamos, como se estivéssemos lá.

 

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António Bracons, Aspetos da exposição: Mónica de Miranda, série Work Fields, 2016

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Para Félix Mula (Maputo, Moçambique, 1979), em Idas e Voltas, a paisagem são os espaços que foram habitados, essencialmente pelos portugueses e ficaram abandonados com o regresso apressado da descolonização. São vestígios e memória da presença portuguesa.

Automóveis, um baloiço, as cantinas, quantas memórias e testemunhos de uma presença, permanecem, abandonados, como a presença o foi. Apenas o mato foi alastrando no espaço aberto e tomando conta do que foi deixado.

A exposição de Mula é sublinhada por uma prateleira contínua repleta de pequenas sementes vermelhas (que um aviso diz serem tóxicas). Mas são como uma natureza pronta a desabrochar, pronta a tudo tomar.

As cantinas, lojas que tudo vendiam nas zonas fora das grandes cidades, no mato, era o local onde muitos podiam ir para vender os seus produtos e comprar o que precisavam, muitas vezes, ‘o que faziam da venda dos seus produtos deixavam para adquirir outros’, conforme refere na própria exposição, estão lá, uma ruína de um tempo, por vezes ainda com a memória de alguns anúncios, de alguns produtos.

Ao longo do trabalho de registo, Félix falou com as pessoas, partilhou os seus saberes, as suas memórias, as suas histórias. Cada uma das fotografias tem uma história, muitas vidas por trás.

As pessoas estão presentes nessas histórias, que serão conhecidas do autor, algumas que nos dá a conhecer. E estão presentes na sua ausência, no abandono que testemunha uma vivência que já foi.

Mula presta ainda homenagem a uma família amiga da sua família, de origem chinesa,  fotógrafos em Lourenço Marques / Maputo, que vieram para Lisboa nos anos 70 e nos Olivais tiveram uma loja de fotografia, a Foto Lee. Veio a encontrá-lo mais tarde, há alguns anos. É  o The family Lee archive, 2016.

 

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António Bracons, Aspetos da exposição: Félix Mula, série Idas e Voltas, 2012-16

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António Bracons, Aspetos da exposição: Félix Mula,  The family Lee archive, 2016

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Pauliana Valente Pimentel (Lisboa, 1975), em Aquel Pedra, mostra a paisagem desértica de Cabo Verde, que encontra algum paralelismo nas fotografias de Mónica e contrasta com o verde exuberante e invasivo de Moçambique. Mostra algumas construções e sobretudo pessoas.

Pauliana apresenta as suas fotografias num espaço escuro. O olhar centra-se, pois, nas imagens, de cores fortes, intensas, iluminadas por focos pontuais. Não há mais nada que distraia. As fotografias tornam-se intimistas, como o são o olhar da Pauliana e as vivências dos rapazes que fotografa, quais raparigas, paralelamente ao espaço da casa e de uma paisagem no geral confinada ao espaço de cada um.

Estes rapazes, com idades compreendidas entre os dezassete e os vinte e cinco anos, são transgénero, no sentido em que gostam de usar roupas femininas, maquilhagem, e de serem chamados por nomes de mulher.”

As fotografias reforçam esse feminismo, através das poses, natural atitude dos (das) fotografados (as), do vestuário, da maquilhagem, do penteado e das atitudes com que se apresentam e é complementada por um vídeo de um desfile (de moda), protagonizado por cada um, num cenário de uma casa em ruínas, num dia cinzento: Catwalk, 2014 (HD video, som, 3’13”).

 

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António Bracons, Aspetos da exposição: Pauliana Valente Pimentel, série Aquel Pedra, 2016

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 Hoje, 30 de junho, foi anunciado o prémio NOVO BANCO 2016.

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O júri de premiação, composto pela curadora e produtora Élise Atangana (França / Camarões), pelo curador e editor Yves Chatap (França / Camarões) e pelo artista David Claerbout (Bélgica) distinguiu “o trabalho, cuja proposta, mais se centrasse no domínio do fotográfico, atendendo à natureza do prémio, que tem a fotografia na sua origem”.

O prémio foi atribuído a Félix Mula.

 

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António Bracons, Félix Mula, 2016.

 

 

 

Pode ver o catálogo da exposição aqui.

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